Caderno de Letras Meridiano

[Arnaldo Boson Paes]

“O Caderno de Letras Meridiano surgiu com o propósito de encontrar novas alternativas para o projeto modernista em nosso meio e de impulsioná-lo, mediante o lançamento de novos escritores”, resume o professor e crítico literário Carlos Evandro M. Eulálio a missão primordial da obra original. A coleção acaba de ser reunida em livro e relançada pela Academia Piauiense de Letras, mais uma iniciativa da dinâmica gestão da professora Fides Angélica Ommati. 

A publicação surgiu em outubro de 1949 e representou um marco para a intelectualidade piauiense. Naqueles tempos, no cenário nacional, o Modernismo avançava com a narrativa regionalista, o ensaísmo social e o aprofundamento da lírica moderna. O  romance introspectivo ganhava força, enquanto a vanguarda concretista despontava no horizonte.

Entretanto, o movimento teve pouca ou quase nenhuma repercussão no Piauí. A nossa renovação literária seria concebida por jovens inquietos, que se reuniram em torno da chamada Geração Meridiano. Esses idealizadores tornaram-se referências no mundo literário: H. Dobal, na poesia; O. G. Rego de Carvalho, na ficção; e M. Paulo Nunes, na crítica. Com eles, nascia o Caderno de Letras Meridiano.

Inserido o “Caderno” em ambiente de ampla renovação das letras piauienses, a iniciativa da Academia em resgatar a coleção completa devolve ao público uma obra essencial em nossa historiografia literária. Sob a coordenação de Carlos Evandro M. Eulálio, este esforço editorial organiza os três números que circularam originalmente, preservando a memória de um símbolo da nossa geração literária dos anos 50.

MERIDIANO Caderno de Letras, Coleção Completa

Edição é parceria Editora Nova Aliança e Academia Piauiense de Letras

Esta nova edição organiza o material em sua totalidade, a partir de transcrições completas que respeitam a configuração original dos textos. O formato adotado permite uma leitura fluida e garante a acessibilidade sem perder a essência do documento histórico.

O conteúdo  abrange desde artigos e contos até poemas e ensaios críticos, revelando a multiplicidade de interesses daquela geração. A obra também destaca a importância das colunas informativas sobre lançamentos de livros, entrevistas e eventos culturais, que registravam o pulsar cultural de Teresina e os intercâmbios com outras regiões.

Por suas páginas desfilam tanto autores consagrados quanto jovens. Comparecem os norte-americanos T. S. Eliot, E. E. Cummings e John Steinbeck. Entre os escritores piauienses, além dos fundadores, destacam-se Martins Napoleão, Da Costandrade, Clemente Fortes, José Virgílio Rocha, Moura Rêgo e Francisco Pereira da Silva.

As traduções de poetas e prosadores estrangeiros presentes nas três edições revelam uma abertura cosmopolita rara para a época, trazendo vozes modernas e inovadoras ao leitor local. Esse intercâmbio literário foi crucial para o amadurecimento técnico e a abertura de novos caminhos para os jovens escritores piauienses. 

O. G. Rêgo de Carvalho. Amor e morte. Edição do caderno de letras

Amor e Morte - obra de O. G. Rêgo de Carvalho

 

Um dos momentos mais significativos da coleção é o terceiro número, inteiramente dedicado à memória do poeta Da Costa e Silva, que acabara de falecer, em 29 de junho de 1950. Esse tributo de saudade e carinho reafirmava o respeito dos jovens renovadores pela tradição poética. Ali estão transcritos os mais belos e comoventes versos que o poeta dedicou ao seu Piauí.

O editorial do citado volume, redigido por O. G. Rêgo de Carvalho, narrava um episódio curioso que envolveu Da Costa e Silva: “nenhum elogio enterneceu mais o coração do poeta amarantino do que ter um livro seu roubado numa livraria do Recife: a edição era modesta, e o anônimo admirador de Antônio Francisco da Costa e Silva quebrou o vidro do mostruário e retirou o último exemplar de Sangue.”

A recuperação destes textos permite uma compreensão mais profunda sobre a formação das obras e críticas literárias que circulavam à época no Piauí, evidenciando o rigor intelectual dos seus fundadores e colaboradores. Através das notas explicativas e da pesquisa biográfica adicionada, o leitor pode contextualizar cada colaboração dentro do panorama histórico.

  O resgate da coleção Caderno de Letras Meridiano não é apenas um ato de preservação; é uma maneira de alimentar o diálogo entre as diversas gerações.  O trabalho de arqueologia literária realizado pelo autor Carlos Evandro M. Eulálio, fruto de meticulosa e paciente pesquisa, oferece aos entusiastas da literatura a oportunidade de aprofundar-se no espírito da Geração Meridiano e no legado que esta deixou à cultura piauiense.

Arnaldo Boson Paes é doutor em Direito, professor universitário, escritor e desembargador do TRT-PI