O silêncio de Antenor de Castro Rego Filho

Dílson Lages Monteiro – da Academia Piauiense de Letras

O silêncio traz em si a ação natural de pararmos o tempo. A existência é a respiração, o olhar fixo, a escuta dos sons incomuns, os cheiros e sabores surgidos das pequenas coisas do cotidiano. O silêncio, em sua interioridade, parece ressoar duplamente: do mundo para o eu; do eu ao mundo. Em instantes assim é que nos damos conta da poeira cósmica que representamos no infinito do momento presente; quase nunca tão presente quanto imaginamos: quase sempre feito da energia do pensamento ou da emoção.

Essa consciência do tempo como matéria fluída, incompleta e inacabada é que provoca, em muitos, a inquietação de transformar em palavra as narrativas de sua Era. Com Ternura, amor e abnegação. Foi essa condição, que alguns creem seja uma predestinação, que fez grande, em ideais e ações, Antenor de Castro Rêgo Filho. Em tudo que pesquisou e escreveu, pôs o sentimento acima de tudo, especialmente o sentimento telúrico – por isso, Barras do Marataoã se reconheceu em suas obras nos últimos 30 anos e as leu com natural reciprocidade.

O lamentável desaparecimento físico do escritor, na tarde de 22 de maio de 2026, ressoa como imposição, para todos que vivem o agora, de que o legado do memorialismo, da história e da literatura necessita de contínuo reconhecimento e divulgação. Sobretudo, quando ideais e ações são verdadeiramente gerados pelo desejo de servir. Esse desejo, em Antenor de Castro Rêgo Filho, encarnou a aura coletiva das tradições de uma Barras de Todos os Tempos, que habita no imaginário de cada homem ou mulher nascido nas ribeiras do Marataoã ou que nelas tenha fincado os pés em ânimo definitivo.

Em sua escrita, Barras se fez do tamanho da grandeza sonhada coletivamente. Seus livros traduzem a alma de uma gente, a identidade de um povo. Em mais de uma dezena de livros, esforçou-se para deixar à posteridade representações de uma cidade em que seus conterrâneos pudessem nelas se enxergar como se estivessem diante de um espelho. Colheu os frutos que plantou: livros hoje festejados como patrimônio de uma cidade.

Por diversas vezes, escrevemos sobre as obras de Antenor Rêgo Filho que, pelo sentido social ou valor estético, despertavam em nós forte identificação ou encantamento. Relendo algumas dessas anotações, começamos refletindo sobre “Paróquia de Nossa senhora da Conceição das Barras do Marathaoan” (Editora e Livraria Nova Aliança). Nessa obra, ele reanima em nós o sentido da vida comunitária, porque uma  comunidade é feita de sua história e de seu patrimônio local, que concedem a ele a e nós identidade.

Os registros sobre a vida religiosa de Barras em livros estavam restritos a breves citações sobre nomes e referências geográficas do século XVIII, e, sobretudo, às anotações sobre Carvalho de Almeida. Antenor Rêgo Fiho, porém, foi além. Inquieto e perspicaz, enveredou na busca de uma maior gama de elementos anteriores a José Carvalho de Almeida, encontrando novas referências que esclarecessem um pedaço da vida religiosa da comunidade e o assentamento humano nas ribeiras do Marataoã, no século XVIII, além de estimular novas pesquisas sobre o período. 

Seu olhar é o do memorialista. Vai além do registro dos episódios mais marcantes do catolicismo em Barras: concentra-se, ainda, em relacionar fatos e nomes aos costumes e à vida social, numa evidente preocupação com a memória imaterial da Paróquia de Barras, detalhadamente descrita em hábitos, imagens e objetos de seu acervo. De sua leitura, compreende-se a ativa colaboração da igreja católica no crescimento do lugarejo, especialmente na educação, por meio de figuras como Pe. Lindolfo Uchôa, que teve destacado papel na fundação do Ginásio Nossa Senhora da Conceição e na criação do Patronato Monsenhor Boson, dirigido pelas Irmãs Mercedárias, com relevantes serviços prestados à região. A atuação beneficente de Pe. Raul Formiga é reverenciada. De seu trabalho social, beneficiaram-se centenas de mulheres com dificuldades de parto na zona rural ou jovens auxiliados pelo religioso em seus estudos. Reverencia-se, de maneira especial, a primazia da igreja católica na instrução da juventude por meio de Frei Antônio do Coração de Jesus Maria Freire, no século XIX.

Antes de vibrar com o aparecimento de Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, Antenor Rêgo Filho já encantara os conterrâneos com publicações literárias e historiográfico-memorialísticas, além de publicações sobre o léxico regional. Barras: Histórias e Saudades, um rico painel da organização social, política e econômica de sua Cidade Natal. Destacou, ainda, nesta obra, aspectos do cotidiano desconhecidos das gerações contemporâneas. Essa obra, unindo lirismo e didatismo, consolidou-se, ao lado de Terras dos Governadores, de Wílson Carvalho Gonçalves, como leitura obrigatório para se compreender o que foi e é Barras do Marataoã.

Com obras como Jacurutu e Bafute se consagraria como contista e cronista de senso estético afinado e proposta literária clara ao leitor sensível. Em ambas as obras, lê-se uma gente e uma Barras de antanho, com costumes, hábitos e valores bem diferentes dos que vivem as gerações correntes e, por isso, mais significativo é o sentido social delas. O leitor se encanta pelo modo de dizer as referências geográficas, ou mesmo pela construção de tipos humanos, em que se  representa o caráter universal da literatura mesmo de textos que reproduzem a  cosmovisão da aldeia.

Em Jacurutu e Bafute, a oralidade é estilizada pela fusão entre referências temporais e espaciais, que se unem ao retrato social de perfis humanos bem característicos. Além, claro da explicitação da identidade de Barras do Marataoã, por meio do léxico, que empregado com naturalidade, dá graça e leveza às narrativas. Nelas, figuram o município das décadas de 1930 a 1960. Também se lê o lado cômico do exercício desarrazoado do poder político; a contradição humana de valentões e velhacos; a malandragem dos que arranjam um jeitinho de afastar a qualquer custo a adversidade; a graça de lugares que não deixam chances para tempos infelizes nem para o falso moralismo.

Entre os muitos méritos de cada uma dessas narrativas, está o humor que escorre em cada texto e a reinserção no cotidiano da memória, agora em palavra escrita, de dezenas de estimadas figuras da vida social de Barras dos últimos 70 anos, sobretudo. Destacamos, ainda, a naturalidade com que apresenta um leque extenso de palavras bem nossas; ditas de maneira bem nossa.

Em seus livros mais recentes de 2025, lançados pelo autor em sua amada Barras,  a imprensa, a música e o imaginário popular de sua cidade ganharam um sentido especial. Entre as obras, Marataoã: A história contada por jornais e jornalistas. Nela, Antenor Rêgo Filho presentifica a memória de acontecimentos que não se encerraram na sua ocorrência em si nem no registro em jornal. Antes disso, traduzem o que foi Barras e sua gente de épocas passadas. Compreendemos, neste livro, as estruturas de poder e seus embates político-partidários, a presença da cidade na cena da cultura regional, as conquistas, os eventos festivos e mesmo o obituário. Tudo isso agrupado para ser lido sem esforço, ao modo da escritura dos antologistas, que primam pela exatidão dos registros de fatos em linha cronológica, cabendo ao leitor gerar os  vínculos de causa e consequência daí oriundos.

Que esse legado seja para sempre revivido e festejado! Com o mesmo amor, a mesma ternura e a mesma abnegação que moveram os ideias e ações de Antenor de Castro Rego Filho. Que seu silêncio faça nas mentes e palavras de sua gente intenso e perene barulho. Para todo o sempre!