Estilo, resenha, ensaio (texto  ampliado e  refundido) 

 

Cunha e Silva Filho

 


                 Não sei se algum leitor ou leitores que gostem de ler ensaios literários já perceberam que atualmente o que se tem visto nas resenhas publicadas em jornais conhecidos, como o  antigo Jornal do Brasil, a Folha de São Paulo e O Globo, embora sejam escritas com seriedade, conhecimento do assunto e revelando boa apreensão das principais ideias do tema das obras lidas e naquela síntese necessária à natureza de uma resenha, é uma certa equalização de estilo literário, uma forma-padrão de organização do pensamento.

No  tempo desta escrita. 2012, era  esta  a minha visão sobre   o tema em questão. Infelizmente, daquela   época  para cá,  tenho sempre  lido  resenhas de grandes jornais , sem,  no entanto,   investigar  se aquela  visão  de  há doze anos  ainda  seria  válida  nos tempos atuais. Teria que construir    um corpus  teórico  a fim de   tirar  minha  conclusões de forma  atualizada, o que demandaria   um esforço  acadêmico   tendo em vista que  , nos  tempos mais  recuados, a resenha era praticada  geralmente  por   críticos  literários em  rodapés de jornais  de grande circulação  no país. Hoje em dia,   num espectro  mais amplo,   as resenhas  são escritas  por   professores  universitários   ou  jornalistas.   

                Tal uniformização estilística me parece digna de comentário, visto que o problema que, em tal situação aí se cria muito tem a ver com a falta de estilo, e esta não me parece boa pra o bom nível do ensaísmo entre nós. Afinal, de contas a resenha está a um passo do ensaio acadêmico. A diferença entre ela e o ensaio de maior fôlego reside no aparelhamento sofisticado da fôrma de gênero literário chamado ensaio.
              Ora, o que se tem como pressuposição é que a escrita ensaística, a meu ver se deve destacar, como traço fundamental, pela originalidade, pela diferença de estilos,o   que faz com que, ao se ler um trabalho acadêmico, ou mesmo uma boa resenha, nele ou nela se perceba logo a marca do autor na formulação de sua estrutura sintático-estilística. Citemos, para ilustrar, ensaístas já mais antigos ou mesmo menos antigos, como Alceu Amoroso Lima, Agripino Greiico Álvaro Lins, Afrânio Coutinho, Sérgio Buarque de Hollanda,  Antonio Candido,  Eduardo Portella, Luís Costa Lima , Fábio Lucas, Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Alfredo Bosi, Massaud Moisés. José Guilherme Merquior,   para não alongar a lista, que  é grande  e, em geral, de  boa ou  ótima    qualidade.
         Todos os autores acima mencionados,  separadamente, se distinguem  por uma forma de linguagem acadêmica que, se omitissem os seus nomes das suas obras, um leitor inteligente e bem lido seria capaz de identificar cada um deles. E por quê? Porque cada um escreve segundo a sua forma de estruturação da linguagem, do seu estilo,  em suma, da sua maneira singular de analisar obras e de as interpretar.

       É claro que não estou pensando na especificidade da linha ou corrente de seu pensamento crítico. Falo do velho conceito de estilo há tempos proclamado por Buffon (1707-1788): “o estilo  é o  homem, ”  preceito que  vi citado, pela  primeira vez,  numa gramática de Eduardo Carlos Pereira, da Companhia Editora Nacional (São Paulo) umas  das melhores da  época.

        Essa individualidade que encontro em tais ensaístas e críticos é o que aqui me interessa como fator determinante de diferenciação de um estilo de escrita para outro. Nem falo de valorização estética na expressão do seu pensamento crítico-teórico. Falo da peculiar forma de uso da linguagem, da inconfundibilidade de forjar o pensamento analítico de cada um. Falo,  em suma, do ato de escrever, que deveria, na sua forma ideal pelo menos,  um ato identificatório  graças aos   traços  distintivos entre a linguagem literária  de cada ensaísta ou crítico.

         É essa ausência de particularidade diferenciadora que me preocupa quando leio resenhas ou mesmo ensaios na atualidade. Será que se dá aqui o fenômeno da indiferenciação no modo de escrever da chamada pós-modernidade.? Será que os jovens e muitas vezes talentosos ensaístas de hoje sofrem de uma padronização insossa e   álgida na formulação do sua escrita? Isso não é bom para o ensaísmo nem para os estudos literários.
        Será tal fenômeno algo que ocorre subconscientemente na comunicação ensaística a esta altura do progresso humano e tecnológico? Não estamos nos tornando demasiadamente iguais como produto de uma época que tende a uma forma globalizada de comportamentos e hábitos que já se fazem sentir nesta primeira década do século 21?

         Não estou de modo algum advogando nem a clareza rasa do pensamento crítico nem tampouco a obscuridade, o estilo cifrado, “em espiral” conforme definiu, com  alguma ironia,   um  colega meu  e  professor  universitário. que, por sinal, se poderia encontrar em algum crítico acima citado. O que proporia seria uma saída para uma retomada da originalidade na construção estilístico-formal do crítico, ainda que fosse para encontrar bons modelos na crítica passada, excluindo obviamente o estilo terrivelmente arrevesado e pesado de José Veríssimo (1857-1916). 

         Seria digno  de  acentuar  que, há uma certa  parcela  de ensaísmo de autores  mais novos que não primam  pela clareza   e sim  por uma linguagem de um escrita, diria,   opaca,   mesmo cifrada, até para  quem  é do meio acadêmico   universitário.         Para mim,  o caminho  mais  maleável ou  mais  acertado seria  que os mais novos   pudessem   escrever  com mais   nível de  entendimento  mesmo  em se tratando  de ensaio  ou crítica  oriunda  do  meio universitário.

         Não vejo bem para o ensaísmo atual  essa uniformidade de estilo de escrita que, além do mais, não prima por um traço singularizador e que me encanta como leitor de ensaio, que é o estilo de escrita idiossincrático, o qual, na sua objetividade de análise e interpretação das obras, deixe perceber uma espécie de alma na escrita, permeada de humanidade na exposição das ideias, no palpitar sensível  do pensamento que, na sua subtextualidade, faça vibrar, junto ao leitor, uma visão da obra na qual não se ausente o sentimento e a cosmovisão   do escritor que  do seu texto  se desentranha.

        Uma vez,  mostrei  a um colega de concurso    um antigo meu     escrito  há muito  tempo. Nós ambos  fazíamos  um concurso  de provas  ao mestrado de  uma   universidade  pública A resposta que me deu  foi a mais  preconceituosa e ignorante    possível: “Mas   neste artigo   V.  não   aprofunda  o tema  tratado,   não  o fundamenta  com base teórica nem  bibliografia  atualizada.  

         Seria ele  mais um   afeiçoado, entre  tantos,   ao  que     pensava  ser   profundo,  i.e.,  o que  é  um estilo   claro, caracterizado  pela  clarté   dos franceses  e sem  a falácia   retórica  modernosa  de  ilusionismo crítico.    Para ele  escrever “difícil” seria  sinal  de  texto denso,  profundo, original  e de  alto  ensaísmo.

        Não  percebeu  o meu colega que  o meu artigo  era apenas   uma “apreciação”  de  um “”tema”  caro  a Machado de Assis - a morte -,  do qual  tratei  no meu  velho artigo publicado em jornal de Teresina.   “As “apreciações” era  lexema  muito  caro aos trabalhos  literários  exigidos   pelo  meu  ilustre   e talentoso    professor  de  literatura  luso-brasileira do curso  científico  no  Liceu  Piauiense,  A. Tito Filho (1924-1992),  talvez o maior  cronista  do  Piauí de todos os tempos, também  jornalista  de primeira linha e estudioso de lexicografia). O melhor de tudo era que  o   cronista-mor  piauiense   corrigia mesmo  os  trabalhos  e os devolvia  sem delongas e  era muito   exigente. Suas aulas encantavam  os alunos  pelo  brilho  e facilidade de expressar-se  e  pelo  poder   de sua  oratória.Eram  aulas-palestra.