BICHINHA NOJENTA
Por Washington Ramos Em: 01/06/2026, às 21H27
[WASHINGTON RAMOS]
B I C H I N H A N O J E N T A
Ninguém pode negar que ela, fisicamente, é muito bonita: pele macia como caju maduro, cabelos negros indo até o meio das costas, narizinho delicado, boca com lábios mediando entre finos e grossos, olhos azuis, cintura fina... Mas é arrogante, convencida, se acha o centro do universo. Raramente olha para baixo. Tem sempre o nariz empinado, olha para cima, ora como se encarasse o horizonte, ora de esguelha como faz o Donald Trump. Seu semblante lembra também o do ditador Mussolini, que olhava para frente com o rosto levantado.
Ela é tão melindrosa, tão cheia de frescurites, toda-não-me-toque, sentando-se sempre distante de todo mundo, sem olhar para ninguém, tão metida a muito importante, que na escola onde ela estuda lhe botaram o apelido de Bichinha Nojenta. Essa alcunha se espalhou pelo colégio todo e a tornou a aluna mais antipatizada do educandário. Alguns estudantes ainda a toleravam e lhe dirigiam a palavra por causa do Mendes, o melhor aluno da turma, tirando quase sempre 10 em todas as disciplinas. Ele era apaixonado por ela.
Sentindo o peso da indiferença da escola quase toda e ferida em seu ego, ela, para compensar a frustração, começou a fobar e a mentir. Contava mentiras fabulosas para as poucas colegas que ainda lhe davam um pouco de atenção e para o Mendes. “Papai essa hora está em Londres, mas acho que ele vai jantar em Paris”, essa foi a primeira lorota, mas depois vieram outras. “Acho que a mamãe hoje vem me buscar no Corolla”. “Ontem, ela veio no Honda Civic.” “Mas o carro que eu mais gosto é o BMW, mas meu irmão foi pra Recife nele.” Todo dia, ela ficava dizendo que a mãe vinha buscá-la num carrão magnífico. Cada um mais luxuoso do que o outro. Só que a turma começou a perceber que ela era sempre a última a ir para casa após as aulas. Ficava conversando com o pipoqueiro. Até esse ia embora, e ela ficava. Então, um dia, duas colegas fingiram que iam para casa e se esconderam. Não esperaram muito e viram quando a mãe dela chegou num Fiat 147 só o bagaço, todo sacolejando, parecendo que ia se desmanchar.
No dia seguinte, as duas espalharam no colégio o que viram. Foi muita gozação, muita zombaria. Na sala de aula da Bichinha Nojenta, só para encher o saco, um aluno perguntava a todo professor que entrava: “Professor, o senhor gosta de Fiat 147?” A turma toda caía na gargalhada. Essa história chegou aos ouvidos da mãe do Mendes, a qual exigiu que o filho se afastasse da Bichinha Nojenta. Esta se levantou num rompante, disse que a classe parecia um bando de favelados, saiu correndo e nunca mais apareceu na escola.
Moral da história: há alguns pobres que são muito mais arrogantes do que os ricos.

