ELMAR CARVALHO

 

 

Na semana passada, fomos – eu e a Fátima – a Manaus, para assistirmos à solenidade de conclusão do curso superior de formação de Oficiais da Polícia Militar do Estado do Amazonas. Nosso filho João Miguel passaria a integrar a briosa corporação, na qualidade de aspirante; em três meses, passará ao posto de 2º Tenente.

 

Da janela, percebi que o avião, durante algum tempo, seguia mais ou menos a rota do Parnaíba. Vi as curvas do Velho Monge. Por vezes, ele parecia retroceder em sua marcha em busca do mar. Era como se sentisse saudade de suas nascentes, de seu lindo berço natal, referto, ainda, de perenes olhos-d'água, incrustado nas encostas da Chapada das Mangabeiras. Vi o quanto ele se encontra assoreado e raso. Enxerguei os bancos de areia de seu leito e as coroas arenosas, que são ilhas encantadas, e também sintomas de que o Parnaíba está muito doente, necessitando com urgência de uma “UTI”, que o poder público lhe nega, em seu descaso e desídia.

 

No avião, logo notei uma novidade: a insípida e industrializada alimentação de bordo agora era vendida, por um preço consideravelmente elevado (conforme constatei no cardápio, devidamente colocado na bolsa, à frente de cada poltrona), já que não existia concorrência. Preferi fingir que dormia ou meditava, enquanto as aeromoças e os “aeromoços” ou comissários de bordo ofereciam as “iguarias” e passavam o troco, ou solicitavam cédulas de menor valor. Para evitar quaisquer interpretações malévolas, sequer pedi água, que era a única coisa gratuita. Preferi lanchar em terra firme, no aeroporto, apesar de que os preços ainda eram mais altos do que os lá de cima, os da aeronave em pleno voo.

 

Quando sobrevoávamos a capital amazonense, pude notar a imensidão de água doce e tive uma pálida ideia do que vem a ser a floresta amazônica. Pude ver palafitas e uma infinidade de embarcações, de diferentes tamanhos e calados, ancoradas ou navegando. Não pude deixar de me lembrar dos rios piauienses, quase todos temporários. Alguns ainda ficam com poças d'água durante todo o ano; outros, ficam com o leito exposto, completamente enxuto, mostrando os lajedos ou os bancos de areia.

 

Mesmo o valente e perene Parnaíba, comparado ao Negro ou ao amazônico rio, parece pequeno. Um ironista impiedoso não hesitaria em chamá-lo de igarapé, esquecido da importância que ele tem para o Piauí e para o Maranhão. Recordei um poeta municipal, que, referindo-se ao pequenino rio de sua aldeia, sentado em sua canoa de pescar, cantou em versos hiperbólicos: “Ó imenso mar-oceano”. Evidentemente o bardo jamais vira ou ouvira falar no oceânico Amazonas.

 

Tive oportunidade de passear pelo centro histórico de Manaus. Vi velhos casarões, sobrados e prédios antigos de vários andares. Não poderia deixar de visitar o secular teatro manauara. Belo, luxuoso como um palácio, ficou como um símbolo do fastígio econômico da época do auge da borracha. Nele se apresentaram importantes companhias e artistas, da ópera, da música erudita e do teatro. Algumas placas assinalam eventos e fatos importantes, que lhe tiveram como palco. Ali é ressaltado o nome do grande compositor Carlos Gomes, imortalizado sobretudo por sua ópera O Guarani. Consta que, no início, esse teatro teve um sistema de refrigeração, em que eram utilizados blocos de gelo.

 

Ao trafegar em várias avenidas da capital, contemplei nesgas esparsas da floresta amazônica. Algumas eram bem densas, fechadas, com grandes árvores frondosas. Tentei me imaginar perdido na floresta, à noite, com medo, com frio e sem conforto, sem ao menos a companhia longínqua das estrelas. Em alguns desses bosques, admirei a beleza de belas e exuberantes palmeiras, de elegantes e lustrosas plantas aquáticas, de grandes folhas, maiores do que leques e abanos.

 

Porém, facilmente se constata que essas reservas florestais vão, aos poucos, sendo devoradas pela construção civil, seja com a edificação de prédios de apartamentos ou condomínios de casas, ou mesmo empreendimentos comerciais. Cheguei até a ver, ao por-do-sol, da varanda do apartamento em que me hospedei, um bando de periquitos passar, fazendo festiva algazarra, em álacre revoada. Mas também ouvi, tarde da noite, provindo de um bosque próximo, o canto soturno de um bacurau ou de uma coruja. Lembrei-me do caburé do poeta Da Costa e Silva, “ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando”...

 

Ao leitor ávido por relatos de episódios insólitos, exóticos, devo dizer que não vi nenhum índio, muito menos armado de arco e flecha, ou portando alguma pesada borduna. Igualmente não vi as lendárias e valentes amazonas, mesmo com dois seios (e não apenas um), montadas em seus árdegos corcéis. Observei, sim, grandes barcos, e mesmo portentosos navios, de grande calado, ancorados no porto. Contudo, pela exiguidade do tempo, não pude, como desejava, fazer um passeio a bordo de um deles, navegando naquele oceano de água doce.

 

No retorno, do meu posto de observação, quase colado à janela da aeronave, no percurso entre Manaus e Brasília, vi a terra remexida, retalhada em imensos projetos agrícolas. Visto do alto, aquele manejo do solo transformava a terra numa imensa tela, pintada e desenhada por caprichoso pintor cubista. Conforme o tipo de plantação, a fase de crescimento da lavoura ou caso já tivesse havido a colheita, os lotes se apresentavam em diferentes cores, variando do verde-azulado ao marrom ou sépia. A forma das áreas agrícolas também era diversa; desenhavam quadrados, retângulos, polígonos e círculos perfeitos.

 

Conhecemos, na capital amazonense, alguns dos colegas e amigos do cadete João Miguel de Sousa Carvalho, entre os quais: Luz, seu companheiro de apartamento, piauiense de Picos; Sidnei Meneses, oriundo do Exército Brasileiro, do qual fora sargento; Botelho, sorridente, sempre de bem com a vida, paraense; Fernando, natural da Paraíba; Rocha, exemplo de vida e de militar, experiente. Foi nomeado por mim e pela Fátima conselheiro e orientador de JM. Nascido no interior do Estado do Amazonas, já foi estudar um tanto tarde, mas esforçado e inteligente, formou-se em Direito, e conseguiu tornar-se aspirante em terceiro lugar, o que é um grande triunfo, que bem revela o seu espírito de homem focado e determinado em seus objetivos. Rocha, educado e prestativo, conseguiu-nos um ótimo lugar em um dos palanques com cobertura, de onde mais bem observaríamos a solenidade e os desfiles.

 

Quinta-feira, dia 22, à noite, fomos assistir à solenidade de formatura dos novos oficiais da Polícia Militar do Amazonas. Meu filho João Miguel estava garboso em sua farda de gala branca, ainda na condição de aluno-oficial. Juntamente com seus pares desfilou perante a assistência e o palanque oficial, no qual se encontravam várias autoridades, entre as quais o vice-governador, professor José Melo, representando o governador, que se encontrava viajando, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Almir Davi, o secretário da Segurança Pública, e várias outras altas autoridades.

 

Posteriormente, os formandos vestiram o uniforme de gala de oficial aspirante, de cor verde-escuro. O aspirante João Miguel, de boa estatura, bem-apessoado, na ótica feminina, estava elegante, emocionado e contente, com a presença de seus pais, de sua irmã Elmara Cristina, e da Maria, uma velha amiga da família, que ajudou a cuidar dele, em sua infância. Os jovens oficiais fizeram várias evoluções, em vários sentidos, com os pelotões mudando de posições e lugares, de forma sincronizada, sem erros e sem titubeios, em marcha acelerada.

 

No final da demonstração e da solenidade, entreguei ao João Miguel a sua espada de oficial. Em meu íntimo, desejei que meu filho e seus companheiros cumpram da melhor forma possível a missão que lhes cabe. Como apoteose, uma esplêndida chuva de fogos de artifício, um verdadeiro e fulgurante pálio, cobriu os jovens e esperançosos aspirantes.