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 UMA QUESTÃO DE FÉ

Miguel Carqueija


Era noite estrelada e a caravana seguia pelo deserto, com seus três líderes permanecendo próximos a fim de trocar idéias. Não era muito fácil porque suas montarias eram dromedários, muito mais volumosos do que cavalos, o que dificultava maior proximidade entre os condutores.
— Já estamos muito longe das nossas terras — ia dizendo Gaspar. — Como sabemos se será possível voltar em segurança?
— Ou mesmo se essa estrela, que já nos desapareceu uma vez, não irá sumir de novo e nos deixar de mãos abanando? — acrescentou Balthazar.
— Ora, vamos — disse Belchior. — Isto é uma questão de fé. Não percebem como essa estranha estrela se move baixo, como ela se aproximou da Terra para poder nos indicar o caminho? Ela antes se escondeu, sem dúvida, para que Herodes não a visse, pois é evidente que ele está mal intencionado.
— Mas eu estou pensando — observou Gaspar, ainda cheio de dúvidas. — Como pode o rei que vem para todos os povos, conforme as profecias, nascer em terra tão miserável? Pelo que nos informaram, a próxima aldeia é Belém, tão miserável como as outras aldeias desses judeus...
— Os caminhos de Deus são estranhos e diferentes dos nossos — insistiu Belchior. — Com certeza, Ele não nos enviaria a estrela por mentira.
Silenciaram os três reis que se haviam juntado na Pérsia, terra dos astrólogos, para seguir a trajetória daquele novo astro que parecia um cometa errante. Alguma coisa, naquela noite de céu límpido, pedia silêncio e meditação. O próprio vento havia silenciado. Os membros da escolta estavam igualmente mudos.
Os camelos seguiram silenciosos pelos humildes caminhos do vilarejo, e de repente havia algo de hierático neles, como se pressentissem o que estava para ocorrer. Por fim, detiveram-se diante de um pobre estábulo, onde avistaram lá dentro — já que nem porta havia — um jovem casal em volta do que parecia ser um berço improvisado, onde farejavam um burro e uma vaca. E, coisa espantosa, a estrela descera visivelmente e agora esparzia a sua luz sobre o teto do lugar.
— Uma questão de fé... — murmurou Balthazar. — Aquele, de quem falam as profecias antigas... de quem Buda falou no Sutra...
— É Ele, sem dúvida — sentenciou Belchior. — Vamos, amigos, vamos oferecer as nossas dádivas!

 

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