UMA MUDANÇA OBSERVADA

Cunha e Silva Filho

Não desejava essa mudança. Me feriu a autoestima e o pior foi que fui eu o responsável por ela. Olhe, leitor, que não imaginava que isso fosse acontecer na minha vida. Mas, aconteceu, sim, e a contragosto. De primeiro, com os meus artigos juvenis escritos em Teresina, Piauí, e publicados em jornais dessa cidade, minha segunda cidade natal de coração, pois a primeira é Amarante, município do meu estado.A terceira é o Rio deJ aneiro. Meu professor de latim  foi padre e deixou, depois, a batina a fim de casar-se e ser feliz.

Era o professor João Batista, um homem educado, de boa estatura, um gentleman que logo ganhou a minha admiração. Fora ele que fazia parte da banca no exame oral para ingressar do admissão ao ginásio. Sempre dizia pra meu pai que  eu era um aluno com um belo futuro. Foi também o meu professor de canto orfeônico, disciplina na qual não fui um bom aluno na prática musical, só na história da música.

No seu livrinho adotado, costumava decorar um capítulo e, na prova escrita, conseguia decorar um texto todo e o reproduzia na prova escrita. Entretanto, quando do resultado, ela costumava me confessar: “Sua letra é difícil de ler! Melhore a sua letra, menino!” Não é que, com o tempo, eu realmente melhorei o talhe de minha escrita a mão.

Nesse livrinho também duas coisas jamais esqueci: uma frase em francês, “Les petits chanteurs à la croix de bois.” A outra coisa foi uma definição de música: “A arte de expressar nossos sentimentos por meio dos sons.”

O colégio em que me lecionou latim e canto orfeônico era o famoso Ginásio “Desembargador Antônio Costa,” popularmente chamado “Domício”. Falo bem e com imensa saudade desse colégio no meu livro Apenas memórias (2016).

Linhas acima afirmei que, com o tempo, a minha letra escrita a mão melhorara muito. Já podia dominar os meus recursos de habilidade de usar a caneta e até o lápis, de sorte que o meus textos saíam com uma letra bem desenhada e fácil de entender. Reparei que, já adulto, escrevendo os meus artigos antes de aderir à datilografia, continuava com uma letra bonita. Até na assinatura na primeira página dos livros que ia comprando, a letra saía elegante, firme, clara. assim como na assinatura do meu título de eleitor, na minha carteira de trabalho e na minha assinatura da minha primeira carteira de identidade tirada em Teresina, que, infelizmente, num momento triste da minha vida, perdi na rua.

Os anos passaram céleres. Minha assinatura permanecia estável. Mais tempo passou e veio a minha vez de usar o computador. Ainda tinha o hábito de escrever a mão. Até no tempo da graduação em Letras, primeiro escrevia a mão e, depois, passava à máquina de escrever. Nunca fui um bom datilógrafo nem também um bom digitador. Meus erros se tornaram homéricos. Foi aí que, de súbito, tive um susto. A letra não estava mais tão firme e bonita como antigamente, como, por exemplo, naquele breve ensaio que escrevi em inglês, no início dos anos 1980, sobre o ensino dessa importante língua em concurso de monografia para professores de inglês do município do Rio de Janeiro, no qual me classificaram entre os dez melhores.

Não deixei, contudo, de escrever a mão. No entanto, não mais escrevia com letra tão caprichada, principalmente quando, ao correr da pena,    notava vivamente que o talhe da letra ia se deteriorando. Não era mais caligrafia , porém palavras e frases sem a firmeza de outrora. Por isso, passo a limpo agora sempre que faço um texto qualquer. A mão, antes habilidosa, precisa, hoje me deixa sem a beleza dos antigos escritos manualmente.

Me pai escreveu sempre a mão e tinha um letra bonita, sobretudo quando mais jovem. Mas, confesso um fato particular em se tratando do desenho de uma escrita a mã.: A  letra “f,”  por algum tempo, eu imitava por influência de um apreciado ex-professor meu de inglês o Francisco Viveiros, Sua letra escrita no quadro-negro, era um obra-prima, sobretudo o seu “f,” que passei a imitar. Por falar em imitação ou influência que bons professores tiveram sobre os alunos, há uma frase que de tanto gostar dela também passei, sempre que possível, a imitar. É a expressão “em razão de,” que aprendi nas iluminadoras aulas do professor Carlos Eduardo Falcão Uchôa, nos anos de 1966, Uchôa era assistente do grande linguista professor Mattoso Câmara Jr.. Mattoso Câmara (1904-1970) era um sábio no campo da linguística, tanto é que foi chamado por outro linguista, Francisco Gomes de Matos, de o “Pai da linguística no Brasil.” As aulas de Mattoso Câmara eram monumentais a ponto de, em aula inaugural do ano letivo, ele ser visitado na sala, que era num anfiteatro da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, por antigos alunos, seus admiradores.

Foi Mattoso Câmara quem, se não me engano, primeiro iniciou a disciplina linguística no país. Seu livro, Princípios de linguística geral, virou um clássico desse campo de estudos no Brasil. No prefácio da edição que comprei, a 4ª, revista e aumentada, publicada pela Livraria Acadêmica, em 1964, ao ingressar no curso de Letras, português-inglês, daquela Universidade, patenteia-se o alto nível de  competência e reconhecimento que lhe deu prontamente o prefaciador, o ilustre filólogo. lingauista  e gramático Sousa da Silveira(1883-1967) que, brilhantemente, faz uma apreciação retrospectiva dos valor da obra de Mattoso Câmar , e da importância capital e oportuna que mestre Mattoso deu ao desenvolvimento dos estudos superiores de Letras no país com a publicação da sua obra clássica e pioneira.

Após essa digressão, retomo ao tema central desta crônica. Tempos depois, voltei a fazer o “f” como o aprendi desde os bancos primários, malgrado algumas vezes, o antigo “f” do meu professor de inglês ainda me contaminasse irresistivelmente a escrita.

Como era bom copiar do quadro-negro (hoje não é mais negro e até o velho giz foi substituído por uma espécie de caneta em fundo branco do quadro) as anotações do meu antigo mestre de inglês que, por felicidade, ainda me lecionou a língua de Shakespeare em dois anos do curso científico no início dos anos 1960, no famoso e tradicional Liceu Piauiense,  em Teresina, que, na minha época, já mudara de nome para Colégio Estadual do Piauí, mudança de nome que não me agradou absolutamente. Existem mudanças que não vingam, porquanto o nome do antigo Liceu Piauiense é que permanecerá na memórias das velhas gerações que por lá passaram.