Therê: quem conhece gosta
Em: 18/02/2026, às 14H59
[Por Fidadelfo Chagas Barreto, advogado e professor do Curso de Direito da Universidade Federal do Piauí]
Recebi e li “THERÊ – guia literário e afetivo de Teresina”, de Arnaldo Boson Paes”. O subtítulo desta análise literária, “THERÊ: quem conhece, gosta”, aplica-se aos dois: cidade e livro.
Muito construtiva a reunião de todas aquelas pessoas, através de seus respectivos textos, em volta da cidade.
Percebi a ocorrência de algumas linhas diferentes de observação da realidade teresinense, como inevitavelmente deveria ser.
Iniciando com o ufanismo de Monsenhor Chaves encontramos nesta primeira visão o indicativo do que realmente se deu na origem da cidade.
Não há uma nova cidade. Apenas a mudança do Poti Velho pro Alto da Jurubeba, ou melhor, para um ponto algo mais próximo do Parnaíba, descendo o rio alguns 500 metros.
Daí o acerto do que é lembrado por H. Dobal: a cidade já nasceu velha e sempre teve um ar de aldeia grande.
O outro apaixonado e, portanto, de vistas pouco objetivas, é A. Tito Filho, pintor de uma cidade linda, de gente irrepreensível, para sofrer repetidas contestações, já no espelho ficcional de Abdias Neves, na crueza de Fontes Ibiapina e na revoltada poesia de Paulo Machado e contemporâneos de mimeografo em 1969.
H. Dobal, numa época em que a usina parada nos deixava às escuras, nos faz lembrar da falta que fez o acendedor de lampiões citado por Fontes Ibiapina.
Aliás, Dobal me pareceu o mais equilibrado dos cronistas como, de resto, sempre me pareceu uma inteligência maravilhosamente equilibrada, sob cuja chefia imediata tive a honra de trabalhar. Mesmo percebendo as divisões injustas de oportunidades na cidade que apresenta, recusa-se a lançar-se às reclamações de um Oton Lustosa, ou à crítica marcantemente ácida de um Cineas Santos, que nos atribui a capacidade e a arte de piorar o ruim, além do que nos deixa apenas a melancólica saudade dos Ipês que, aliás, tradicionalmente chamávamos Paus d’Arco.
Assim, entre casas de palha incendiadas, Pau de Fumo e Parente, este pescador de defuntos; forças naturais tão belas quanto Maria Preá; e semelhante poder da natureza significado em Julia e Luís Borges, apaixonados a ponto de rebentar o mais definitivo controle da sexualidade feminina; Teresina veio andando de lugar pacato com cadeiras nas calçadas até a Loba no Cio de Paulo Machado, que se contrapõe à imaginada placidez dos “verdes olhes de menina” de Aurélio Melo.
Perdoe-me mas não compartilho da ideia de que os “verdes olhos de menina” refiram-se a alguma postura cândida ou pura.
Lembre-se da advertência de Caetano Veloso, que não está citada no livro mas vale para a ocasião presente:
“Os óio da cobra é verde,
Hoje foi que arreparei.
Se arreparasse a mais tempo,
Não amava a quem amei.”
Aliás, devo apresentar-lhe outro pedido de desculpas, agora a respeito do citado Caetano Veloso.
Parece-me que a Cajuína é um louvor claro e original ao espírito gentil e cavalheiro de Heli da Rocha Nunes, pai do Torquato. Torquato não é o primeiro destinatário.
“Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina, tampouco turva-se a alma nordestina.”
A falta de Torquato é imensamente sentida pelos dois, Heli e Caetano. Mas a alma imensamente gentil de Heli preserva a limpidez da alma nordestina, sendo nordestinos os três: Caetano, Torquato e Heli.
Falo da alma gentil porque tive a felicidade de conhecer pessoalmente Heli da Rocha Nunes. Muito amigo de meu pai, abarcou-me no querer bem que os unia e, exigindo que eu o tratasse sempre por Tio Heli, repreendia-me todas as vezes em que encontrava com ele e não lhe beijava a mão, tomando a benção.
E isso não era tratamento dispensado a criança.
Adulto, perto dos 30 anos, pai de quatro filhos, era interceptado por Heli na rua, fosse onde fosse, com o vocativo que só ele lembraria de aplicar a mim: Ei, seu moleque, não me toma mais a benção?
Heli deixou um seu sobrinho real de quem sempre fui próximo. Estimado colega desde o ciclo ginasial no Liceu Piauiense, depois Advogado querido, grande amigo e poeta, como Torquato: Nelson Nunes Figueiredo.
Mas essas duas pequenas divergências quanto à orientação do livro, não diminuem a admiração com que me dirijo ao conterrâneo, pela ideia e capacidade de reunir tantos vultos produtores da história de Teresina e registradores de suas particularidades.
Se é fato que Teresina deve muito àqueles, também é exato que, agora, passa a dever também Boson, pelos cuidados despendidos em apreender a história local e em torná-la acessível.
Congratulações pelo esforço e parabéns pelo resultado. Quem conhece gosta.

