Sagittarius: Sob o signo da poesia
Por Décio Torres Cruz Em: 31/07/2026, às 23H23
Sagittarius: Sob o signo da poesia
Décio Torres Cruz*
Para quem gosta de ler, livros multiplicam-se e se espalham por mesas, cadeiras, estantes, gavetas, cômodos. Sem que nos demos conta, o tempo vai passando e o hoje já virou ontem e este ano virou ano passado. Quando sobra um tempo e procuramos um determinado livro para ler, eles têm a habilidade de se esconder por trás de seus semelhantes. Mas, inesperadamente, surgem de seus esconderijos! E só agora reencontro este belo livro, Sagittarius: uma antologia, do poeta Vladimir Queiroz que celebrou em 2025 os seus 60 anos de existência e 30 anos de literatura com uma bela edição em capa dura da Mondrongo.
O autor, que vem se consolidando como uma das vozes representativas da literatura baiana, teve por objetivo transformar esta antologia num marco comemorativo da sua produção poética. A obra reúne 60 poemas inéditos ou já publicados em três décadas, transitando por diferentes fases de sua vida e obra. De acordo com matéria do Jornal Grande Bahia, “o título remete à simbologia do signo de Sagitário, associado à busca incessante pelo conhecimento, pela liberdade e pela transcendência — elementos presentes em sua produção artística”.
A poética de Vladimir passeia por diferentes temas com o olhar sensível e arguto de um poeta que domina muito bem a arte da palavra e convida o leitor a contemplar e participar do ato criativo. Além disso, ele se volta para a linguagem como um pintor atento à escolha de cada gota de tinta que irá compor seu novo quadro. A tarefa de pintar com palavras se espalha em diversos trechos de seus poemas, como percebemos nesta estrofe do poema “Entardecer”, do livro Abayomi:
Alguns gaviões planavam por sobre os prédios
a construir um entardecer com volteios e mistérios,
mergulhando ao encontro das tardes com gritos
estridentes, a esmaecerem-se pela vista do Sol declinando.
Essa descrição pictórica se mescla à linguagem fílmica como no inédito “Córneas” que pode ser lido como uma cena de filme cujas imagens são mostradas com diferentes técnicas cinematográfica, tais como travelling, cortes, zoom e close-up:
E o trem corria com toda a fúria sobre os trilhos ao alvo.
Só as vistas passando, só as córneas em êxtase a murmurar
sobre as pétalas que se exauriam em tapetes ao longo da relva,
encobrindo o que não se lhe mostrava ao primeiro olhar vesgo.
ou nestes versos de “Nós”, outro poema inédito:
E o mar seguia agitado a destroçar as naus sem amarras;
sem que os nós ao mastro descem firmeza, e das adriças
se erguessem as velas para ao vento navegar sem rumo.
São os laços que garantem toda a maestria da pujança
pois se te jogas aos desafios em correntezas bravias destarte,
sabes da força do nó dado, que denota todo o cuidado aos passos.
O autor também transmuta versos em "Toada" (Terracota), destacando a reliigiosidade e as características culturais de sua região:
A toada mansa do sertão / avermelha a cúpula de nuvens; / sobe na poeira os ritos / as crenças de rodilha e pano / rosário credo - fano. / Flegmas d’alma desfeitas em rezas / sobras de uso consumidas em fresas.
Transforma a natureza em pintura e fotografia no poema "Ocaso", também de Terracota, onde cores diferentes parecem escorrer sobre uma tela eternizada em retrato do pôr do sol:
A lua ilumina a cara da noite / prateia o silêncio / escorre gauche. // Prata azinhavrada ao vento, / jacaré em vida de estátua: / flerte com a boca da noite, / inerte. // Retrato do ocaso: // Oclusa a brisa na noite fria, /
obtusa imagem ... / Sombra inclusa na noite guia. / ................................................. / Momento etéreo debruçado: / caído o véu / sobre a noite nua.
Como já havia mencionado em resenha sobre seu livro Kairós (Penalux, 2020), publicada no Facebook,
Vladimir é daqueles poetas que não se satisfazem apenas com o vocabulário corriqueiro do dia a dia. Ele peneira as palavras existentes no nosso léxico com muito esmero, selecionando aquelas menos usadas, pérolas esquecidas do uso cotidiano, fazendo-as reviver em seus versos de forma bastante criativa. Não pensem encontrar facilidade em sua poesia, O poeta nos convida a ler e reler seus poemas e refletir sobre cada verso, cada imagem e cada palavra, sem, no entanto, retirar o prazer, o encanto, o lirismo e a beleza de sua poesia. Resultantes de suas viagens por terras e culturas estrangeiras, reais, imaginárias ou míticas, seus sofisticados poemas versam sobre diferentes temas e cenários que não se restringem a terras brasileiras.
Estas considerações sobre Kairós se aplicam aos poemas selecionados de seus outros livros nesta coletânea, como é possível entrever em seu poema “Formas”, do livro Seres & dizeres. Mais uma vez, a arte pictórica se une à arte poética numa ode metalinguística dedicada à criação:
A inércia que constrói o tédio / precisa ser vencida / e do atrito louco se desvencilhe / entrando em erupção o vulcão / de formas e cores. // Formas ainda não concebidas / do objeto retraído / nas reentrâncias vastas, / do vasto mundo cerebral, incongruente; / que indolente, o Homem, ignora. // Misticizada e lírica / do prazer contrite / a magia oculta / se solta. // E a forma estranha, para o ser / despercebida, algures repousa / e surge mais tarde / no fim da tarde, talvez!
E assim a poética deste artista/escultor/pintor/engenheiro/carpinteiro das palavras se apresenta para contemplação e deleite dos leitores, se oferecendo como magia produzida pela meticulosa escolha de cada vocábulo e buscando atingir o efeito encantatório que somente grandes poetas e artistas conseguem gerar.
A fortuna crítica ao final, intitulada “Ecos poéticos: Entre o lirismo e a linguagem” delineia todo o trajeto percorrido pelo autor com as reações de diversos escritores de diferentes partes do Brasil e de outros países em trechos de resenhas ou citações alusivas à sua obra. Queiroz inaugurou sua entrada no mundo literário em 1995 com a publicação de Seres & Dizeres pela Pórtico Edições em parceria com a Scortecci. A partir daí, já vão se descortinando mais de 15 livros que valem muito ser lidos. Eles podem ser adquiridos através das editoras abaixo listadas.
Sobre o autor

Vladimir Queiroz da Silva (1962) é natural de Feira de Santana (BA). Membro efetivo da Academia Feirense de Letras, ocupa a cadeira 38, cujo patrono é o jornalista Ernesto Simôes Filho. Publicou os livros: Seres & Dizeres (Scortecci, 1995), Terracota (As letras da Bahia, 2001), Infantilis (EGBA, 2003), ABCdito e outros ditos mais (EGBA, 2003), Apokálupsis do Sertão (EGBA, 2006), Luminescência (EGBA, 2008), Instinto (EGBA, 2010), Alcatruz (EGBA, 2011), Nuances (EGBA, 2012), Muxarabis (EGBA, 2015), Brasileirança (EGBA, 2016); Kairós (Penalux, 2020), Kara wã (Penalux, 2022), Tropo (Caravana, 2025), Grilo Murilo (Caravana, 2025). Sagittarius (Mondrongo, 2025), Abayomi (Mondrongo, 2026). Seus livros foram traduzidos para o romeno, espanhol, italiano e albanês. O livro Kara wã recebeu o prêmio Book Brasil 2022, na categoria poesia e o livro Abayomi recebeu o Prêmio Literário Cidade de Manaus 2024, na categoria poesia.
* Décio Torres Cruz é escritor premiado, tradutor, crítico literário, membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, da Academia de Letras e Artes do Rio de Janeiro e membro correspondente da Academia Petropolitense de Letras. Autor, dentre outros, de Viagens & travessias, A poesia da matemática, Histórias roubadas e Paisagens interiores.

