Capa do livro "Ventou poemas", de Glafira Menezes Corti
Capa do livro "Ventou poemas", de Glafira Menezes Corti

Quando o vento nos sopra poemas

 

Décio Torres Cruz*

 

Ventou poemas (Sarasvati, 2023) é o título do livro da escritora e professora paulistana Glafira Menezes Corti, com capa da artista plástica Camila Giudici e apresentação da Presidente da Academia Popular de Letras (APL) e Diretora do Sistema de Bibliotecas de São Caetano do Sul, Ana Maria Guimarães Rocha, que menciona a força poética e a transcendência dos versos da autora. No prefácio do filósofo e escritor Marcelo Kassab, ele afirma que “basta abrir a primeira página para a imersão inevitável numa obra cujo final será um eterno recomeço... porque são sempre bons os ventos que levam e trazem a poesia...” 

Neste livro, composto de 74 poemas, percebe-se a paixão de Glafira pelas palavras e pela poesia, a musa que ela elege para seu cantar. Seus poemas sempre fazem referência a esta arte mesmo quando aborda outros assuntos, tornando-se tema e resultado do processo de criação artística como se fizesse uma ode à Poesia, como percebemos nestes trechos de “In-vento” em cujo título a poeta insere um traço para marcar uma separação silábica entre o prefixo in- (que indica tanto negação, falta ou privação como movimento para dentro) e seu pretenso radical, traçando um jogo polissêmico com as palavras vento e invento:

 

In-vento

Ao escrever

sonhamos em voz alta

com a cumplicidade das palavras

parceiras de nossas decisões.

 

O jogo polissêmico continua com o sentido duplo da palavra “verso” em “O verso de meu canto”:

 

O verso de meu canto

O meu canto causa encanto

Quando as generosas letras e palavras,

Juntas e irmanadas

No meu coração fazem morada.

 

Seu jogo metalinguístico se repete em vários poemas nos quais a poesia e seu criador continuam tematizados, como percebemos em: “A palavra é poderosa” (“Aliada à imagem / Refletem forças provocativas / Da imaginação e inspiração / Voam feito pipas no ar / Com muita linha para deslaçar”); “Desapego” (“Disse a poetisa / ao poeta disfarçado, / Faze um poema pra mim / Onde a dor fique acanhada / A alegria chamuscada, aflore”); “Brio” (“O poeta sentiu-se tolo / Nada serviu de consolo / Descobriu que seus versos / Não suportam seus desabafos / Nem dão satisfação interior. Intrigado, tentou rimá-los / Nada mudou.”); “Coringa”(“Desviaram a rima da minha poesia / Tentei buscá-la em alguém / Que soubesse ler cartas / Encontrei, lia como ninguém / E como alguém profetizou / Sobre todos e tudo que rima”); “Como ver” (O verso que grita alegria / acaricia a dor” / Solfeja acordes agudos / Em tons sentimentais/ Espalha letras, / Salva vogais / Das consoantes dobradas / Irrequietas e sensuais”); ou em “Stand by” (“Congelei da poesia os versos / Quando ao olhar meu interior / Tentei descobrir segredos em mim / Contidos, mas não legalizados // Confidenciei minha alma de criança / Os versos me chantagearam, / Cochicharam guardar segredos, / Fracionaram a crença e a confiança. //  Ofereceram o credo da abundância / Em troca do meu constrangimento, / De nada adiantou, acordei amuada. // A esperança é aliviar o desaponto, / Permanecer descontextualizada / Até esquecer os versos dissimulados”).

 

Glafira também discorre sobre a matéria da criação, destacando o efeito das palavras sobre as pessoas em geral e, em especial, sobre os poetas e quem com elas lida, como em: “Convicção” (“Palavras privatizadas, / Palavras perigosas / Palavras que atraiçoam, / Palavras malditas / Uma vez ditas”); e em “Ela”: “A palavra / Me edita / Me apresenta / Me prefacia / Me descobre e encobre / Deixa-me, às vezes, nua. // Com sentimentos à mostra / Força os meus pensamentos / A se posicionarem. / Sou ela quando eu quero /  Sou eu quando ela quer.”

 

Seus versos são fortes, com imagens inusitadas e engenhosas que nos fazem refletir profundamente sobre a abordagem dos temas. Com um estilo staccato que interrompe o fluxo contínuo, a autora deixa as palavras em suspensão e em destaque de modo bastante criativo, como detectamos nestes trechos de: “Ide” (“Num olho a catarata / no outro a esperança / mediar muita gente / sentir-se só / na calma da voz / a alma escapou”); “Pêndulo” (“Eles chegaram feito grandes batalhões / Envoltos em capas de aço pintadas de verde, / Ao passarem por mim deixaram cair o esperma”); “Dis-pensar” (“Que propósito tem um coração / Que insiste num bem-querer, / Que faz do corpo um caroço / Com semente a despontar / Mesmo sabendo que a terra dura / O impedirá de brotar”); e “Pensamento” (“Negação / impressão / seu anfitrião. / Um refúgio / infestado de compromisso” [...] No vazio do momento / (ilusoriamente) Paz. As conveniências sociais / escaparam / Na curva da confusão”).

 

O livro nos mostra uma autora bastante sensível, com uma arguta percepção daquilo que nos rodeia, e com uma escrita segura que passeia por sentimentos diversos (submissão, amor, cinismo, solidão, ânsia, sinergia, perdas, alento, gratitude, revanche), crenças (Deus, anjos, teísmo) e também reflete a luta pela insubmissão, como em “Grilhões”: (“Dogmas sociais prescritos / Abafando expectativas, / Escoltando telhados / Tabiques altos, arcaicos. / Canhões apontados, / Livre-arbítrio lesionado / Barram a calma da alma, / Contrabandeiam a coragem / Dos insubmissos e audazes / Seres sonhadores, decididos /  A subverterem os que os torna / Fora do prumo.")

Vale destacar a belíssima edição da obra através do cuidado da Editora Sarasvati não só com a escolha do tipo do papel que dá um imenso prazer em seu manuseio, mas também com as ilustrações da artista Camila Lourenço Giudice que estabelecem um diálogo com os textos, dando-lhes balanço e leveza. Seus livros podem ser adquiridos através da Editora Sarasvati e da Amazon.

 

Sobre a autora

 

Glafira Menezes Corti se auto-define como uma “catadora de palavras”. Contadora de histórias, além de escrever para diversos jornais e revistas e participar ativamente de saraus, nas horas vagas, ela se transforma na palhaça Pitanga como voluntária para alegrar a vida de crianças e idosos. Possui vários poemas premiados. É Membro do Coletivo São Paulo de Literatura, da Academia Internacional de Literatura Brasileira, da Academia Popular de Letras, da Academia Internacional de Poetas e Escritores e da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo. Livros publicados: Ventou poemas, Tamborilando com letras, Pra você (ambos também em e-book na Amazon), Versos verdes, Emancipação do lábio de tempo e o livro infantil Eu fizio porque quizio (também em edição trilingue).

 

 


* Décio Torres Cruz é escritor premiado, membro da Academia de Letras da Bahia, da ACL (SP), da ALARJ e membro correspondente da APL. Autor, dentre outros, de Viagens & travessiasA poesia da matemáticaHistórias roubadas Paisagens interiores.