tradução de poesia
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POETA DA GRÉCIA

 

Tradução de Marcos Freitas

 

Dinos Siotis - Nascido em Tinos, Grécia, em 1944, publicou 40 livros de ficção, poesia e traduções em grego, inglês, francês e espanhol, e 16 revistas políticas e/ou literárias em São Francisco, Nova York, Boston e Atenas. É fundador de diversas entidades culturais e editoras na Grécia e nos EUA. Colabora com resenhas de livros para jornais de Atenas. Estudou Direito na Universidade de Atenas e Literatura Comparada na Universidade Estadual de São Francisco, após o que ingressou no corpo diplomático como diretor de Imprensa e Comunicação. Em 2007, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia por seu livro “Autobiografia de um Alvo”. Seus poemas foram traduzidos para línguas europeias, bem como para o chinês e o árabe. Em 2011, fundou o Poets Circle em Atenas e, em 2023, a Mediterranean Poets Network. É diretor do Festival Literário Internacional de Tinos. Membro correspondente estrangeiro (Cadeira 15), da Academia de Letras do Brasil (ALB).

 

Poemas de Dinos Siotis (1944 – , Grécia)

 

 

Sonhos de uma noite insone

 

Ele despertou de uma noite insone,

sonhando que estivera dormindo profundamente

e que, em seu sono, sonhara um sonho

mas este estava fragmentado nas bordas

onde terminava, ele não conseguia descrever,

não conseguia se lembrar com clareza.

Ele só sabia que seu sono onírico

era rico em paisagens além da imaginação.

Ele passava o tempo

fragmentando sua vida em pedaços

que, fascinado, depois remontava como uma tarde, acordado

enquanto todos ao seu redor

dormiam o sono de dias passados.

Diante de seus olhos, ele via os dias se desenrolarem

dias que lhe acenavam

de uma trilha ladeira abaixo até o mar.

Ele ficara imóvel na areia,

sem sentir um pingo de tédio,

apenas a alegria de sonhar um sonho

de uma tarde, de uma noite

enquanto permanecia acordado

observando, das profundezas da calma,

um sonho no qual ele havia desempenhado um papel secundário.

Esses eram os sonhos que ele sonhava

em suas muitas noites insones.

 

 

Gaza

 

Era uma vez Gaza, era uma vez, há muito tempo

era uma cidade com ruas, praças com palmeiras e

prédios públicos, escolas e casas com portas e

janelas com venezianas e vidros, era uma vez, há muito tempo

havia água, eletricidade e administração pública,

era uma vez árvores com pássaros, cafés

com pessoas bebendo chá e café e conversando, era uma vez

uma brisa que vinha do rio para o mar, mesmo

se a onda estivesse quebrada, ela chegaria a Rafah, era uma vez

onde os habitantes de Gaza viviam belamente e em paz

e riam e dançavam e se moviam e se apaixonavam

e casavam e prosperavam e as crianças iam

para a escola também, suas alegrias (que não tinham fim) eram recicladas para

a lua, era uma vez onde toda Gaza era uma vasta luz que

refletia a beleza e a vivacidade do momento, era uma vez

onde o esperado não podia ser descrito ou previsto,

era uma vez, Gaza era um único distrito, um bairro,

então veio a enchente, e Gaza se tornou um avião perdido em seu voo.

 

Tinos, 25 de maio de 2024

 

 

Mar estrangeiro

 

Deste lado do Mediterrâneo

Uma terra desconhecida

Lava nossos sonhos

E-mails substituem as notícias

E as fotografias emolduradas sobre o piano

ficam felizes em nos ver

Só às vezes

Quando escovamos os dentes ou preparamos a salada

Uma tarde incomparável surge do nada

Trazendo partes estrangeiras

E uma alma com muitos usos

Evidentemente

Justo quando precisamos estar numa unidade de tratamento intensivo

Para fechar um novo acordo com o técnico local

Aprendemos algo diferente sobre nosso país

Sobre aqueles que amamos e as coisas que eles amam

É aí que pegamos o barco

E navegamos para o outro lado do Mar Egeu

Para criar novos sonhos

 

Boston, 9 de julho de 2000

 

[Tradução do inglês]

 

 

Assim como

 

Dos trezentos e sessenta e cinco dias

que se passaram, só se lembrou de dois ou três,

guardou apenas aqueles que a memória pôde reter, como

células luminosas piscantes,

assim como as crateras de um vulcão ativo,

assim como um tsunami que ocorrerá

em apenas dois ou três dias, assim como

uma página em branco em uma desenganada máquina de escrever,

assim como um alto-falante transmitindo

música de câmara suave ao longe,

assim como hosanas de anjos atrás de janelas fechadas.

 

Atenas, 2 de janeiro de 2011

 

 

Primeiro dia do ano

 

A onda me falou em detalhes,

sua inesperada imagem

sombra de voz de flor branca,

seu círculo vazio

destilação salgada de grandeza,

porém não vejo o mar

embora o ouça na praia

embora ouça os gritos das gaivotas nas rochas

o mar permanece invisível, imóvel

afundado no tenebroso caos

com as asas de Ícaro se partindo em pedaços,

o tempo se esvaindo em arestas de alegria,

o barqueiro empurrando seu invisível barco

em direção às margens do horizonte aberto do universo.

 

Ilha de Tinos, 31 de dezembro de 1995

 

 

Silêncio

 

Nas sombras da cidade,

o vento torna-se sonâmbulo,

persegue as ruas com as camélias,

conversa com as flores,

e os carros choram,

fazendo curvas fechadas,

nas praias desbotadas com estátuas,

que observam do alto,

o movimento da cidade.

(Todos desejam o melhor).

Com corrosões e estrias,

vozes trêmulas indicam

os vestígios da noite:

os cronômetros envoltos em escuridão,

e os visitantes procuram as palavras

pregadas nos halos da lua.

Enquanto isso, a noite se espalha por toda parte

e o amanhecer é lento.

Silêncio,

o que se pode dizer de você,

enferrujada pelas gotas de orvalho da noite?

 

 

A geladeira do solteiro

 

Sou solteiro

E sempre como fora

porém minha geladeira está sempre cheia

Na prateleira de baixo

alface, tomates e chicória prosperam

Na prateleira seguinte

queijos da França, Holanda, Grécia e Itália

Na porta do refrigerador vinho, leite, sucos

ovos e manteiga

Quando abro a geladeira

para ver o que tem dentro

imagino que atrás de mim

na sala de estar vazia

uma família está esperando o almoço

E enquanto me inclino para pegar a salada

vejo pelo canto do olho crianças

sentando-se para comer

A mais nova vai fazer uma oração

Eu, entretanto, vou vestir meu casaco

e sair para comer

já que sou um solteiro

 

 

Seca

 

Quanto tempo durar o pátio, nós duraremos também

quanto tempo durar a varanda, nós duraremos também

nós, seja lá quanto tempo a última coisa demorar, demoraremos

 

também nós, com a possibilidade de esvaziar

a estante, com a possibilidade de que a

seca recupere seus territórios

         perdidos

 

 

Os poetas

 

Com os poetas, você nunca sabe se os verá

entrar pela porta ao lado ou por um mundo

peculiar, se eles humilharão os céus

 

ou se suas palavras brilharão nas nuvens, se

eles morrerão por uma primeira página ou um prêmio,

você nunca sabe se eles tentarão corroer

 

o ímpeto do vento, alongar os limites da

acuidade, ou perder toda a simetria,

no fim, não desaparecem os anos de sua

           destruição, e

 

dentro desse caos da vida, eles alcançam

uma harmonia universal sem precedentes, um favo de mel

de renda suficiente que canta suavemente

 

 

Barco

 

Esta noite embarcarei para o continente

em uma longa jornada até as florestas

tendo como companheiros os uivos

 

dos lobos, o verde da natureza,

o ​​canto do melro e os

slogans da revolução

 

 

Que pena

 

Que pena que, quando podíamos, não conseguimos

nos aproximar um do outro, que pena que a

varanda se inclinava e distorcia a vista

 

do mundo, que pena que chegaram tarde

as paisagens distorcidas, e por isso não tivemos

a magnificência de não adiar mais.

 

 

Notícias

 

Acordamos, nos levantamos, nos lavamos,

fizemos café, saímos até a varanda,

os campos e o mar estavam logo adiante

 

e também os canteiros de flores, os corvos,

os gatos, o cachorro, os estábulos e

a cabritinha, esperamos por notícias

 

Matinal

 

Desperto na parte errônea do sonho, no

travesseiro há poeira do último

sonho, os lençóis se movem, borboletas

 

dão voltas no teto, contemplo a

vista da varanda, nos galhos das

árvores o delicado som da vida

 

 

Retorno

 

Paisagens, paisagens, as paisagens desdobram-se em

       paisagens floridas,

bebi suas águas, contei seus pães nos

fornos e os peixes na peixaria,

       removi as

 

escamas de todas as cooperações com o mal,

plantei os pepinos na geladeira, mantenho-me

       deitado no

balanço, anseio pelo momento do retorno

 

 

Folhas Caídas

 

Se tivéssemos um pouco de tempo antes que

a água nos envolvesse, um pouco de

tempo antes de construirmos o futuro, um pouco

de tempo para nos deter na mais próxima

nuvem, para espantar dos ombros a geada

da neblina, então vestiríamos nossos

        casacos e juntos

recolheríamos as folhas caídas de setembro.

 

[Tradução do espanhol, do livro Poemas de Septiembre, 2022]

 

MARCOS FREITAS - Tradutor

Nasceu em Teresina (PI), em 1963. Dipl. em Engenharia Civil, com pós-graduação em Recursos Hídricos e Meio Ambiente e também em Gestão Pública. Professor universitário (1991-2016), servidor público federal. Colabora em periódicos. Pertence à Associação Nacional de Escritores (ANE), à União Brasileira de Escritores (UBE-SP), à União Brasileira de Compositores (UBC), ao Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (Sindescritores). Participou de várias coletâneas, entre as quais Antologia de poetas piauienses, 2006, org. de Wilson Carvalho Gonçalves; Geografia poética do Distrito Federal, 2007, org. de Ronaldo Alves Mousinho, NEW BRAZILIAN POEMS - A Bilingual Anthology after Elizabeth Bishop - Antologia bilíngue de 60 poetas brasileiros, Tradução de Abhay K., 2019, Building Socialism: World Multilingual Poetry from the Revolutionary Poets Brigade, by Jack HirschmanJohn CurlKaren Melander-Magoon & Scott Bird (Eds.), 2020, For All: An International Multi-lingual Poetry and Art Anthology, John CurlKristina BrownKaren Melander-Magoon, Barbara Paschke (eds.), USA (2024), Seguimos Juntos 2026, org. Salomão Sousa. Publicado nas revistas literárias Beltway Poetry Quarterly (EUA), Revista Internacional de Literatura y Arte – OLANDINA, 2014, Lima, Peru, Revista Ablucionistas, México, Revista de literatura contemporânea Variações, 2020, Revista Acrobata, Teresina, 2022, Bibliografia.: Stochastische Abflussgenerierung in intermittierenden semiariaden gebieten - Nordost-Brasilien, 1995; Neurocomputação aplicada, 1998; A vida sente a si mesma, 2003; A terceira margem sem rio, 2004; Moro do lado de dentro, 2006; Quase um dia, 2006; Na curva de um rio, Mungubas, 2006; Raia-me fundo o sonho tua fala, 2007; Staub und Schotter, 2008, uma coleção de poemas em alemão, inglês, italiano, espanhol, francês, português e checo; Urdidura de sonhos e assombros, 2010; Inquietudes de horas e flores, 2011, Sentimento oceânico, 2017; De arrodeios, 2017; Lavoura de galáxias e outros poemas / Вспашка галактик и другие поэмы: bilíngue: português e russo, 2018; Nous sommes nos songes, 2018; Cem poemas escolhidos de Marcos Freitas, 2018; Mais que carvão de barbatimão: poemas selecionados, 2019; O adormecer das palavras e outros poemas / LES MOTS QUI S’ENDORMENT ET AUTRES POÈMES / EL ADORMECER DE LAS PALABRAS Y OTROS POEMAS, 2019; Estribilho |: a propósito de tudo :|, 2019; 60 poemas de Brasília, 60 anos de Brasília, 2020; Óculos de Miguilim ou Destilação de Estado Mágico, 2021, pedras encastoadas, 2023. Ganhou vários Prêmios literários, entre os quais, o Concurso de Poesia do Terraço Shopping – Brasília, em 2005. Foi finalista no Prêmio SESC Carlos Drummond de Andrade, em 2006, 2007, 2011 e 2016, e finalista no Prêmio SESI Brasília 50 anos, em 2010, e recebeu o Friends of the NWASA Award (2026). Co-presidente da BRICS Literature Network. Na área de composição, encontram-se nas diversas plataformas de músicas os álbuns: a tarde em clave de sol (2025) e descaminhos: gota vento brisa (2026).