POETA DA GRÉCIA - Dinos Siotis
Por Marcos Freitas Em: 28/08/2026, às 12H01
POETA DA GRÉCIA
Tradução de Marcos Freitas
Dinos Siotis - Nascido em Tinos, Grécia, em 1944, publicou 40 livros de ficção, poesia e traduções em grego, inglês, francês e espanhol, e 16 revistas políticas e/ou literárias em São Francisco, Nova York, Boston e Atenas. É fundador de diversas entidades culturais e editoras na Grécia e nos EUA. Colabora com resenhas de livros para jornais de Atenas. Estudou Direito na Universidade de Atenas e Literatura Comparada na Universidade Estadual de São Francisco, após o que ingressou no corpo diplomático como diretor de Imprensa e Comunicação. Em 2007, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia por seu livro “Autobiografia de um Alvo”. Seus poemas foram traduzidos para línguas europeias, bem como para o chinês e o árabe. Em 2011, fundou o Poets Circle em Atenas e, em 2023, a Mediterranean Poets Network. É diretor do Festival Literário Internacional de Tinos. Membro correspondente estrangeiro (Cadeira 15), da Academia de Letras do Brasil (ALB).
Poemas de Dinos Siotis (1944 – , Grécia)
Sonhos de uma noite insone
Ele despertou de uma noite insone,
sonhando que estivera dormindo profundamente
e que, em seu sono, sonhara um sonho
mas este estava fragmentado nas bordas
onde terminava, ele não conseguia descrever,
não conseguia se lembrar com clareza.
Ele só sabia que seu sono onírico
era rico em paisagens além da imaginação.
Ele passava o tempo
fragmentando sua vida em pedaços
que, fascinado, depois remontava como uma tarde, acordado
enquanto todos ao seu redor
dormiam o sono de dias passados.
Diante de seus olhos, ele via os dias se desenrolarem
dias que lhe acenavam
de uma trilha ladeira abaixo até o mar.
Ele ficara imóvel na areia,
sem sentir um pingo de tédio,
apenas a alegria de sonhar um sonho
de uma tarde, de uma noite
enquanto permanecia acordado
observando, das profundezas da calma,
um sonho no qual ele havia desempenhado um papel secundário.
Esses eram os sonhos que ele sonhava
em suas muitas noites insones.
Gaza
Era uma vez Gaza, era uma vez, há muito tempo
era uma cidade com ruas, praças com palmeiras e
prédios públicos, escolas e casas com portas e
janelas com venezianas e vidros, era uma vez, há muito tempo
havia água, eletricidade e administração pública,
era uma vez árvores com pássaros, cafés
com pessoas bebendo chá e café e conversando, era uma vez
uma brisa que vinha do rio para o mar, mesmo
se a onda estivesse quebrada, ela chegaria a Rafah, era uma vez
onde os habitantes de Gaza viviam belamente e em paz
e riam e dançavam e se moviam e se apaixonavam
e casavam e prosperavam e as crianças iam
para a escola também, suas alegrias (que não tinham fim) eram recicladas para
a lua, era uma vez onde toda Gaza era uma vasta luz que
refletia a beleza e a vivacidade do momento, era uma vez
onde o esperado não podia ser descrito ou previsto,
era uma vez, Gaza era um único distrito, um bairro,
então veio a enchente, e Gaza se tornou um avião perdido em seu voo.
Tinos, 25 de maio de 2024
Mar estrangeiro
Deste lado do Mediterrâneo
Uma terra desconhecida
Lava nossos sonhos
E-mails substituem as notícias
E as fotografias emolduradas sobre o piano
ficam felizes em nos ver
Só às vezes
Quando escovamos os dentes ou preparamos a salada
Uma tarde incomparável surge do nada
Trazendo partes estrangeiras
E uma alma com muitos usos
Evidentemente
Justo quando precisamos estar numa unidade de tratamento intensivo
Para fechar um novo acordo com o técnico local
Aprendemos algo diferente sobre nosso país
Sobre aqueles que amamos e as coisas que eles amam
É aí que pegamos o barco
E navegamos para o outro lado do Mar Egeu
Para criar novos sonhos
Boston, 9 de julho de 2000
[Tradução do inglês]
Assim como
Dos trezentos e sessenta e cinco dias
que se passaram, só se lembrou de dois ou três,
guardou apenas aqueles que a memória pôde reter, como
células luminosas piscantes,
assim como as crateras de um vulcão ativo,
assim como um tsunami que ocorrerá
em apenas dois ou três dias, assim como
uma página em branco em uma desenganada máquina de escrever,
assim como um alto-falante transmitindo
música de câmara suave ao longe,
assim como hosanas de anjos atrás de janelas fechadas.
Atenas, 2 de janeiro de 2011
Primeiro dia do ano
A onda me falou em detalhes,
sua inesperada imagem
sombra de voz de flor branca,
seu círculo vazio
destilação salgada de grandeza,
porém não vejo o mar
embora o ouça na praia
embora ouça os gritos das gaivotas nas rochas
o mar permanece invisível, imóvel
afundado no tenebroso caos
com as asas de Ícaro se partindo em pedaços,
o tempo se esvaindo em arestas de alegria,
o barqueiro empurrando seu invisível barco
em direção às margens do horizonte aberto do universo.
Ilha de Tinos, 31 de dezembro de 1995
Silêncio
Nas sombras da cidade,
o vento torna-se sonâmbulo,
persegue as ruas com as camélias,
conversa com as flores,
e os carros choram,
fazendo curvas fechadas,
nas praias desbotadas com estátuas,
que observam do alto,
o movimento da cidade.
(Todos desejam o melhor).
Com corrosões e estrias,
vozes trêmulas indicam
os vestígios da noite:
os cronômetros envoltos em escuridão,
e os visitantes procuram as palavras
pregadas nos halos da lua.
Enquanto isso, a noite se espalha por toda parte
e o amanhecer é lento.
Silêncio,
o que se pode dizer de você,
enferrujada pelas gotas de orvalho da noite?
A geladeira do solteiro
Sou solteiro
E sempre como fora
porém minha geladeira está sempre cheia
Na prateleira de baixo
alface, tomates e chicória prosperam
Na prateleira seguinte
queijos da França, Holanda, Grécia e Itália
Na porta do refrigerador vinho, leite, sucos
ovos e manteiga
Quando abro a geladeira
para ver o que tem dentro
imagino que atrás de mim
na sala de estar vazia
uma família está esperando o almoço
E enquanto me inclino para pegar a salada
vejo pelo canto do olho crianças
sentando-se para comer
A mais nova vai fazer uma oração
Eu, entretanto, vou vestir meu casaco
e sair para comer
já que sou um solteiro
Seca
Quanto tempo durar o pátio, nós duraremos também
quanto tempo durar a varanda, nós duraremos também
nós, seja lá quanto tempo a última coisa demorar, demoraremos
também nós, com a possibilidade de esvaziar
a estante, com a possibilidade de que a
seca recupere seus territórios
perdidos
Os poetas
Com os poetas, você nunca sabe se os verá
entrar pela porta ao lado ou por um mundo
peculiar, se eles humilharão os céus
ou se suas palavras brilharão nas nuvens, se
eles morrerão por uma primeira página ou um prêmio,
você nunca sabe se eles tentarão corroer
o ímpeto do vento, alongar os limites da
acuidade, ou perder toda a simetria,
no fim, não desaparecem os anos de sua
destruição, e
dentro desse caos da vida, eles alcançam
uma harmonia universal sem precedentes, um favo de mel
de renda suficiente que canta suavemente
Barco
Esta noite embarcarei para o continente
em uma longa jornada até as florestas
tendo como companheiros os uivos
dos lobos, o verde da natureza,
o canto do melro e os
slogans da revolução
Que pena
Que pena que, quando podíamos, não conseguimos
nos aproximar um do outro, que pena que a
varanda se inclinava e distorcia a vista
do mundo, que pena que chegaram tarde
as paisagens distorcidas, e por isso não tivemos
a magnificência de não adiar mais.
Notícias
Acordamos, nos levantamos, nos lavamos,
fizemos café, saímos até a varanda,
os campos e o mar estavam logo adiante
e também os canteiros de flores, os corvos,
os gatos, o cachorro, os estábulos e
a cabritinha, esperamos por notícias
Matinal
Desperto na parte errônea do sonho, no
travesseiro há poeira do último
sonho, os lençóis se movem, borboletas
dão voltas no teto, contemplo a
vista da varanda, nos galhos das
árvores o delicado som da vida
Retorno
Paisagens, paisagens, as paisagens desdobram-se em
paisagens floridas,
bebi suas águas, contei seus pães nos
fornos e os peixes na peixaria,
removi as
escamas de todas as cooperações com o mal,
plantei os pepinos na geladeira, mantenho-me
deitado no
balanço, anseio pelo momento do retorno
Folhas Caídas
Se tivéssemos um pouco de tempo antes que
a água nos envolvesse, um pouco de
tempo antes de construirmos o futuro, um pouco
de tempo para nos deter na mais próxima
nuvem, para espantar dos ombros a geada
da neblina, então vestiríamos nossos
casacos e juntos
recolheríamos as folhas caídas de setembro.
[Tradução do espanhol, do livro Poemas de Septiembre, 2022]
MARCOS FREITAS - Tradutor
Nasceu em Teresina (PI), em 1963. Dipl. em Engenharia Civil, com pós-graduação em Recursos Hídricos e Meio Ambiente e também em Gestão Pública. Professor universitário (1991-2016), servidor público federal. Colabora em periódicos. Pertence à Associação Nacional de Escritores (ANE), à União Brasileira de Escritores (UBE-SP), à União Brasileira de Compositores (UBC), ao Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (Sindescritores). Participou de várias coletâneas, entre as quais Antologia de poetas piauienses, 2006, org. de Wilson Carvalho Gonçalves; Geografia poética do Distrito Federal, 2007, org. de Ronaldo Alves Mousinho, NEW BRAZILIAN POEMS - A Bilingual Anthology after Elizabeth Bishop - Antologia bilíngue de 60 poetas brasileiros, Tradução de Abhay K., 2019, Building Socialism: World Multilingual Poetry from the Revolutionary Poets Brigade, by Jack Hirschman, John Curl, Karen Melander-Magoon & Scott Bird (Eds.), 2020, For All: An International Multi-lingual Poetry and Art Anthology, John Curl, Kristina Brown, Karen Melander-Magoon, Barbara Paschke (eds.), USA (2024), Seguimos Juntos 2026, org. Salomão Sousa. Publicado nas revistas literárias Beltway Poetry Quarterly (EUA), Revista Internacional de Literatura y Arte – OLANDINA, 2014, Lima, Peru, Revista Ablucionistas, México, Revista de literatura contemporânea Variações, 2020, Revista Acrobata, Teresina, 2022, Bibliografia.: Stochastische Abflussgenerierung in intermittierenden semiariaden gebieten - Nordost-Brasilien, 1995; Neurocomputação aplicada, 1998; A vida sente a si mesma, 2003; A terceira margem sem rio, 2004; Moro do lado de dentro, 2006; Quase um dia, 2006; Na curva de um rio, Mungubas, 2006; Raia-me fundo o sonho tua fala, 2007; Staub und Schotter, 2008, uma coleção de poemas em alemão, inglês, italiano, espanhol, francês, português e checo; Urdidura de sonhos e assombros, 2010; Inquietudes de horas e flores, 2011, Sentimento oceânico, 2017; De arrodeios, 2017; Lavoura de galáxias e outros poemas / Вспашка галактик и другие поэмы: bilíngue: português e russo, 2018; Nous sommes nos songes, 2018; Cem poemas escolhidos de Marcos Freitas, 2018; Mais que carvão de barbatimão: poemas selecionados, 2019; O adormecer das palavras e outros poemas / LES MOTS QUI S’ENDORMENT ET AUTRES POÈMES / EL ADORMECER DE LAS PALABRAS Y OTROS POEMAS, 2019; Estribilho |: a propósito de tudo :|, 2019; 60 poemas de Brasília, 60 anos de Brasília, 2020; Óculos de Miguilim ou Destilação de Estado Mágico, 2021, pedras encastoadas, 2023. Ganhou vários Prêmios literários, entre os quais, o Concurso de Poesia do Terraço Shopping – Brasília, em 2005. Foi finalista no Prêmio SESC Carlos Drummond de Andrade, em 2006, 2007, 2011 e 2016, e finalista no Prêmio SESI Brasília 50 anos, em 2010, e recebeu o Friends of the NWASA Award (2026). Co-presidente da BRICS Literature Network. Na área de composição, encontram-se nas diversas plataformas de músicas os álbuns: a tarde em clave de sol (2025) e descaminhos: gota vento brisa (2026).

