[WASHINGTON RAMOS]

                                  O   T R I Â N G U L O   D E   T E R E S I N A

  • E aí, João, ainda estás namorando com a nerd?
  • Não, Marcos, tô mais não.
  • Que foi que aconteceu? Vocês pareciam tão unidos, formavam um belo casal.
  • Não aguentei mais aquela garota, ela só quer saber de duas coisas na vida: reza e internet, e a internet que ela acessa ou é sobre religião, ou sobre tecnologia, nada mais.
  • Mas, João, internet e religião são coisas bem interessantes.
  • Pra mim, só a internet basta, não gosto de religião, de nenhuma, nem de misticismo nenhum.
  • Mas, João, como foi que Você, um ateu convicto, conseguiu namorar com uma menina tão religiosa?
  • É uma longa história, Marcos, sente nesta cadeira, que vou te contar. Tudo começou na UFPI, onde eu era monitor nas aulas de Português 1. Ela, a nerd, também era, mas em aulas de Matemática 1. O nome dela é Rosana. Ela é o tipo de pessoa que não consegue ficar sem estar estudando alguma coisa ou lendo a Bíblia e tem a mania de assistir aulas como ouvinte. Ela faz Física na UFPI. Ora, se deu que, um belo dia, eu fui ministrar uma aula sobre Regência Verbal. Me apresentei para a turma, procurando ser simpático e amigo de todos. Era uma turma pequena, uns 25 alunos mais ou menos. Notei que todos foram bem receptivos comigo. Mas havia uma aluna lá no fundo da sala que estava de cabeça baixa sobre os braços como se estivesse dormindo e não levantou a cabeça quando fiz minha apresentação. Fui, então, até lá onde ela estava e perguntei se estava se sentindo bem. “Tô muito bem, me deixa em paz” foi a resposta que ela me deu. Meio sem graça, voltei para a frente da turma. Eu não disse nada a ela para não começar já tendo um problema. Iniciei minha aula, explicando que não se deve ser radical no uso da Regência Verbal, pois, às vezes, ela pode variar conforme o estilo de quem escreve, considerando-se a elegância que cada pessoa dá ao próprio texto. Aspirar foi o primeiro verbo que expliquei, destacando-o no sentido de cheirar e no de almejar, com suas respectivas regências, mas, quando eu já ia dizer que, no sentido de almejar, ele não aceita pronome átono, a moça lá do fundo levantou a cabeça e, com o dedo em riste, bradou: “Mas no sentido de almejar ele não aceita pronome átono.” Foi aí que eu vi que era ela, a Rosana. Mas eu ainda não a conhecia. Alguns alunos riram, outros resmungaram. “É verdade”, foi só o que eu disse. Mas, antes que eu falasse isso, ela já havia abaixado a cabeça. Ela trajava uma calça verde e uma camisa branca onde havia o desenho de um triângulo. Em cada um dos vértices do triângulo, se destacava a fotografia de uma igreja. Passei, então, a explicar a regência do verbo assistir e fui logo dizendo que ele não aceita pronome átono no sentido de presenciar, de ver, e, quando eu já ia dizer que esse verbo é VTD no sentido de ajudar e prestar assistência e aceita pronome átono, ela se antecipou na maior rapidez e, sem levantar a cabeça, gritou: “Mas ele é transitivo direto no sentido de ajudar e aceita pronome átono!” A turma riu, e assim foi o restante todo da aula, ela sempre interferindo. Nunca vi uma pessoa de cabeça baixa, sem olhar para o professor nem para o quadro, mas muito ligada e prestando total atenção à aula. Ainda falei dos verbos chamar, custar, perdoar, preferir, visar, e ela sempre enchendo o saco. Mas eu tinha uma carta na manga: deixei o verbo implicar por último e falei o seguinte: “Olha, turma, o verbo implicar tem quatro sentidos diferentes, eu vou explicar apenas um e deixar os outros três para a próxima aula. Bem, no sentido de antipatizar com alguém, de perturbar alguém, de encher o saco de alguém, ele é VTI e rege a preposição com. É usado para designar gente metida a besta e que pensa que já sabe tudo.” Com os olhos injetados de ódio, a Rosana se levantou e perguntou gritando: “Tá falando isso comigo, é?” Respondi: “Não, não me referi Você. Expliquei um dos sentidos do verbo implicar e a respectiva regência. Agora se Você vestiu a carapuça, problema teu!”

( continua na próxima semana)