O TÁXI E A CARNE NA ROLA
Por Washington Ramos Em: 06/10/2026, às 22H27
[WASHINGTON RAMOS]
O T Á X I E A C A R N E N A R O L A
- João, meu filho, pegue a nota de vinte reais que está ali embaixo da lata de açúcar e vá comprar de carne na rola.
- Mãe, eu tô de saída para o Parque da Cidadania.
- Pegue assim mesmo e na volta Você compra ali no Carvalho da Maranhão, mas não demore porque 8h o Carvalho fecha. Se não tiver mais carne na rola, compre pernil, que hoje está só 18 reais o quilo, ou calabresa, sei lá... O que der pra comprar.
- Tá bem. Já vou.
- Vai com Deus.
“Me dê uma carona”, disse João da Cruz a uma moça numa motocicleta bem novinha estalando. Ele saíra de casa no bairro Matinha, às cinco da tarde, e foi a pé ao Parque da Cidadania para participar de um treino na quadra de skate. Participou, sim, mas usando skate dos outros, nem sempre cedido de boa vontade. Ele não tem condição de comprar um. “Pega, vai”, foi a fala do Bruno, oferecendo-lhe o skate. Pela entoação, João da Cruz sentiu um certo desdém nessa fala como se na verdade ele dissesse “pega, lascado da vida, és o único aqui que não tem skate e só serve para atrapalhar os outros.” A Mercedes interveio: “Precisa não, Bruno! Pega, João, vai no meu.” Foi e fez manobras arriscadas. Numa, caiu e ralou os joelhos. Ficaram ardendo muito. Não gemeu. Mas por dentro sofria. Como estavam doendo! Bruno e os outros caras riam dele. De longe, a Mercedes viu a queda. Veio até ele: “Eita, João, teus joelhos estão ralados.” “Não é nada grave, não, Mercedes, em casa eu vou lavar com água e sabão neutro e uns três dias depois estarei bom.”
Foi saindo devagar, se esforçando para não caxingar na perna direita, onde o baque foi maior. “Espera um pouco, João. Às 8:30, a mamãe vem me buscar aí então a gente te deixa em casa. Ainda não são nem sete horas.” “Precisa não, Mercedes, obrigado. Tenho que estar em casa antes das oito.” Ele foi saindo todo constrangido, pois se tem uma coisa que deixa a pessoa destreinada é queda, mesmo quando acontece numa situação em que ela é previsível. Saiu do Parque e foi andando, se lembrando do riso dos caras que o viram cair e ficaram rindo. Sacanas! Chegou à avenida Miguel Rosa. Andava com dificuldade. Os joelhos doíam. Se estivesse usando joelheiras no momento da queda, não estariam doendo tanto. Pegou o celular e ligou para uma cooperativa de táxi, pensando na carne na rola. Não ficou com medo de vir um assaltante e lhe levar o celular. Se viesse algum, lhe diria que podia levar, que era um celular velho e sem acesso à internet.
O táxi não veio, embora a atendente tivesse dito que havia mandado um. Foi nesse momento que a moça na moto, vindo do Parque, parou a seu lado para entrar na Miguel Rosa, que é a via preferencial. Bonita, vestida numa elegante farda cor de rosa, capacete na mesma cor, cintura fina, braços firmes e morenos. Olhando-a sentada na moto, ele viu que ela tem coxas e bumbum medianamente grandes mas sem exagero, contrastando com a cinturinha. Foi aí que ele, com dor nos joelhos e sentindo-se atraído por ela, lhe pediu: “Me dê uma carona, prometo que vou lhe respeitar, sou uma pessoa do bem e da paz, levei uma queda no Parque, meus joelhos estão doendo, pedi um táxi, mas ele não veio.” “Peça um uber”, ela sugeriu. “Meu celular é peba e não tem acesso à internet”, ele respondeu. “Olha, o problema é que não tem outro capacete, e se o Detran nos ver, eu serei multada. Pegue um táxi ali na frente do Hospital Francisco Villar, lá sempre tem táxi.” Ela acelerou e saiu. Deixou um suave perfume no ar, que ele aspirou com prazer. Ele meteu a mão no bolso e apertou a cédula de vinte reais. “E agora? O táxi? Ou a mistura do almoço de amanhã?”

