Rosidelma Fraga

 

“O professor de português é um chato!”. Esta frase já deve ter sido enunciada e ouvida infinitas vezes todos os dias. Em todos os lugares do Brasil, nas escolas, nas praças e nas ruas sempre haverá alguém para repetir: “Meu professor de português é super chato!”. “Um chato verídico”, dirão alguns. Perto dele, todo mundo tem medo de falar errado, tem medo de esquecer um acento ou até mesmo de confundir acento de acentuação com assento de banco, sem contar nas palavras seção (setor), sessão (tempo) e cessão (ceder). Há uma lista enorme de parônimas. Nem comento quando a palavra deve ser levada no contexto e não na regra, tratando-se de sinonímia. E ainda há quem defenda uma senhora gramática descritiva para ser rival da normativa. A gramática é, muitas vezes, a causa desse medo e dos mitos sobre o professor de português.

 Não obstante, é preciso que o professor reflita sobre como ensinar português e a escrever textos de diversos gêneros, a fim de não ser um ditador, obrigando o aluno a ser um “papagaio das regras”. Eu sempre escrevo sem memorizar regras gramaticais que servem para consultas próximas a um dicionário. Na verdade, comprei a Moderna Gramática da Língua Portuguesa, de Evanildo Bechara há pouco tempo, pois meu amigo acadêmico Bechara é o Bechara e não é um chato. Creio que a leitura é o caminho certo para fazer com que uma pessoa ame a Língua Portuguesa.

Sempre ouço que o professor de português é um chato. Entretanto, no primeiro dia letivo, eu tive uma surpresa na volta para casa. Meu filho virou para mim e disse: “Mãe, adorei a minha professora de português. Ela tem uma “cara feia”, é um pouco velha, mas é legal”. Ela deu um livro para lermos e ainda deixou que levássemos para casa. O brilho nos olhos dele era fantástico. Paulatinamente, eu fiquei minutos a pensar sobre os mitos que foram construídos em torno do professor de português. Por que temer a língua materna se nós dormimos e acordamos com ela? É preciso repensar o cotidiano da sala de aula e desconstruir as marcas dos castigos psicológicos impostos pelo tradicionalismo, sobretudo pelo ensino da gramática ou do mito de que sabe escrever o aluno que domina a gramática.

É extraordinário saber gramática, falar bem e escrever corretamente e adequadamente ao gênero? Obviamente que sim. Ninguém quer ser ordinário. É elegante saber usar a norma padrão e a linguagem popular nos momentos certos. Contudo, creio que o ensino de produção textual nas aulas de língua portuguesa não pode jamais ser um Osama Bin Laden. É preciso ter com ela um vínculo de amor e afetividade. Quer dizer, é preciso sentir o gosto da língua de Camões roçando em nossa língua.

Qual seria o caminho certo para deixar de ser um chato? A gramática existe para ser apreciada e consultada como um dicionário. Em outras palavras, a gramática funciona como um tempero para a comida: essencial, mas não o único a ser degustado. Conheço uma professora de português que ficou famosa em amedrontar alunos pelo simples fato de repetir as regras de orações coordenadas sindética e assindética, as subordinadas e regras e mais regras, mas descobri também que ela nunca leu Grande Sertão: veredas (1956) e ainda levou a obra O cortiço, do grande Aluísio Azevedo como a principal obra do romantismo brasileiro.

Diante dessas tensões, defendo que ser professor de português não é ter um diploma de graduação ou pós-graduação. Já pensou no seguinte: Por que um aluno nas primeiras séries da Educação básica, ao ser colocado no processo de escrita textual, usa a crase corretamente sem ter estudado a regra gramatical e sem saber das novas regras do acordo ortográfico? Teria sido o convívio com a leitura, com a gramática internalizada ou com a prática de memorização da gramática normativa? Veja o que ensinou Sírio Possenti, na obra Por que (não) ensinar gramática na escola?

Em síntese, é preciso reverter e inverter o quadro. Ensinar gramática para escrever bem não deve ser o propósito de um professor de português. Não conheço um bom escritor que não seja leitor. Quando falo em leitura, não destaco somente a literária. Ler é um verbo que deve ser conjugado em todos os gêneros e tipologias textuais: cartas, jornais, revistas, propagandas, poesia, contos, crônicas, romances em qualquer meio de comunicação: livro impresso, blogues, biblioteca virtual (e-books), dentre outros.  Siga a lição da professora: apresente o texto e a essência do conhecimento ligado à paixão pela linguagem. Sendo assim, a gramática não será um tropeço e um terror na hora de redigir um texto. Os professores de português que não têm nada a ver com o mito agradecem e deixam de entrar para a “panela” dos chatos verídicos. “Chato não rima com português”. Chato e português não formam rima toante e nem consoante. Chato é uma palavrinha paroxítona que não recebe acento porque termina em “o”. Portanto, chato é carrapato.


 
 
[Texto escrito e postado por Rosidelma Fraga, diretamente para o Portal Entretextos em 14/02/2012]. Gostando ou não, comente abaixo ou escreva para [email protected]