O Castelo dos sonhos de dr João Batista do Rêgo
Em: 17/09/2026, às 00H00
O Memorial João Batista do Rego, primeiro museu físico de Barras do Marataoã, cravado na zona rural do município, é um atestado de que não há limites para a força do trabalho persistente e dos ideais vividos com o mais sincero objetivo de se transformar transformando o mundo.
Dílson Lages Monteiro - professor
Onde moram mesmo os limites entre os sonhos e a realidade? Para a grande maioria, essas duas categorias se apresentam como antagônicas. De mundo e práticas divergentes, sem liames em aproximações por semelhança. A condição humana, porém, para os idealistas laboriosos, faz do sonho e da realidade uma categoria única: realidades se alimentam de sonhos; sonhos constroem novas realidades.
Foi assim para João Batista do Rêgo, O Menino do Canto Escuro. Ele fez dos objetivos de superação a razão do existir. Sonhando, realizou. Realizando, sonhou. Galgou uma trajetória de sucesso em que o querer mais do que as limitações ou tempestades no caminho se tornaram razão para suplantar com persistência e entusiasmo as cercas e muros que logo abatem os preguiçosos, os fracos, ou os sem propósitos de verdade.
Transformou-se num advogado bem-sucedido. Sem perder a humanidade nem corromper a ética pessoal se fez vitorioso pela nobreza das grandes causas que abraçou. Entre elas, montar em seu lugar de origem, o Povoado Canto Escuro, a 39 quilômetros de Barras, um farol de suas premissas existenciais.
Ali, criou um Castello de Sonhos (com dois l mesmo). Edificou um museu que, hoje, constitui-se no único museu físico existente em Barras do Marataoã, histórica cidade de tradições no século XIX e na primeira metade do século XX, a 126 quilômetros da capital Teresina. Toda a motivação é a sua história pessoal, mas para além disso, encanta pelo exemplo de despreendimento e compromisso com a preservação da identidade e do registro de seu tempo para a posteridade.
Em seu “Castello de achados e memórias”, devidamente acolhidos em uma casa criada para esse fim ao lado de sua residência no povoado, centenas e centenas de fotos contam memórias expressivas. Ali, lê-se em milhares de registros visuais a cronologia sua e de seus familiares, com lugar especial para grandes momentos da história particular e da região.
Documentos, personalidades e grandes acontecimentos pessoais e coletivos vertem as paredes em uma tela viva, por onde os olhos enxergam nuances interessantes ou curiosas. Para descobri-las, basta acessar a estrada Barras-Miguel Alves e ingressar na do Povoado Canto Escuro, quase à margem da rodovia, em curto trajeto carroçável.
A chegada já é quase uma parada obrigatória. Os olhos brilham, a natureza se materializa em sensações. Ali, plantou majestosa floresta de eucaliptos, ombreados à outra, de Mogmo, ao fundo do memorial e de sua residência de campo. Como se estivesse a criar uma ambiência para a contemplação e ao pensar no que fica para todo o sempre.
Lá estive em fins de 2025, saindo da Zona da Mata barrense, precisamente da Lagoa da Vida, desmembramento do Povoado Jenipapeiro, outrora parte da antiga e lendária Esperança de Maria da Assumpção Pires Ferreira e de seu filho coronel Alfredo Pires Lages. Era final de ano e os dias de recolhimento habitual no campo, para descanso, leituras e organização dos projetos pessoais do ano a nascer, fizeram do momento um significado marcante.
Eu lera O Menino do Canto Escuro, de autoria de dr. João Batista do Rego, comovente narrativa autobiográfica e de memória, com devotado envolvimento. Como por costume o faço nesse tipo de leitura, procuro mais as marcas do tempo e do espaço que do sujeito que fala. Mas nessa obra, detive-me mais na narrativa pessoal propriamente dita, feita da força dos livros e do trabalho, os quais tudo são capazes de mudar, sem atalhos ou descaminhos.
A admiração pelo seu devotamento, cresceu enormemente, quando suas pesquisas genealógicas conseguiram chegar ao desvendamento da ancestralidade de Manuel Tomaz Ferreira, figura expressiva na colonização de Barras do Marataoã. Mais, a encontrar referências não sabidas de uma filha de José Carvalho de Almeida (este pai-comum de sem número de famílias barrenses), construtor da antiga Matriz de Nossa Senhora da Vila de Barras, no século XIX, da qual descende. Tenho dito por convicção e leituras, friso, que raro encontrar famílias antigas dessa cidade que não sejam descendentes de José Carvalho de Almeida e dos Castello Branco.
O Memorial João Batista do Rego, primeiro museu físico de Barras do Marataoã, cravado na zona rural do município, é um atestado de que não há limites para a força do trabalho persistente e dos ideais vividos com o mais sincero objetivo de se transformar transformando o mundo. Sonhando, dr. João Rego construiu um marco da vida de sua cidade natal e notabilizou seu exemplo em espelho para todas as gerações. De hoje e do porvir. Com simplicidade e sentimento natural de bem-querer às suas raízes.

