O BOSQUE DAS ILUSÕES PERDIDAS
Por Washington Ramos Em: 23/07/2026, às 15H47
[WASHINGTON RAMOS]
O BOSQUE DAS ILUSÕES PERDIDAS
Leitor, conheces a flor de sapucaia? Se não, podes ir, nos arredores de Teresina, a alguma região de mata nativa ou mesmo a um sítio de algum ecologista para conhecê-la. Ela não está na moda, não é badalada nas redes sociais, não é vendida nas floriculturas, mas é linda e cheirosa. Podes pegar a estrada para Altos e entrar numa das várias florestas na margem esquerda ou na direita da BR, inclusive na Floresta Nacional de Palmares, que toparás com vários pés de sapucaia. Mas, primeiro, te acompanha com alguém que seja da região e a conheça bem. Não vás te perder no mato. Outra coisa: esquece a paranoia contra cobras. Não tenhas medo, porque a cascavel, balançando o chocalho, avisa quando alguém se aproxima dela. A ti cabe apenas se afastar. A jiboia é, na aparência, a maria besta das matas, anda bem devagar e não tem veneno. Ela mata no acocho e engole. As outras cobras se afastam quando veem um homem. Elas sabem que não existe bicho mais perigoso na natureza do que o ser humano.
Mas voltemos à sapucaia e suas flores porque isto aqui é uma história de amor infeliz que aconteceu num parque ecológico no sítio do Januário. Ele chama esse parque de Bosque do Amor, que fica a uns 700 metros da casa de morada. É uma área pequena dentro do sítio. Além da relva, tem árvores de grande porte como oitizeiros, oiticicas, tuturubás, ipês, cedros, jacarandás, mangueiras e três pés de sapucaia. No período da floração, a grama fica recamada de flores brancas com estrias levemente arroxeadas. São flores de sapucaia. Foi esse lugar que Januário escolheu para comemorar seus 23 anos de idade e seus 3 meses de namoro com a Janete.
Ela era sua segunda namorada. A primeira terminou com ele porque é uma garota alegre, extrovertida. Gosta de sair, de festas e detesta mato. É uma urbanoide como ele mesma gosta de se denominar. Seu nome é Márcia. Com muito custo, Januário conseguiu levá-la ao sítio e a apresentou aos pais.
“Agora vamos ali no Bosque do Amor”, ele disse.
“Bosque do Amor? Ah! Sim, quero conhecer”, ela falou.
Saíram de mãos dadas. Mas, como havia chovido na noite anterior e ainda não eram nem oito horas da manhã, a grama e os arbustos estavam bem molhados. Márcia, que calçava uma sandália, usava uma saia azul-clara que lhe descia até um pouco acima dos joelhos e uma blusa vinho que lhe deixava os braços nus, começou a se incomodar com a frieza de gotas d’água e o roçar de arbustos em suas pernas. Sentia arrepios. Porém nada falou. Quando chegaram perto das árvores, cada uma mais frondosa e alta do que a outra, Januário falou:
“Agora estamos à sombra das sapucaias em flor.”
“Que lin...” Não terminou a frase porque uma mutuca atacou sua perna direita, picando-a. Ela reagiu com uma palmada certeira, matando-a.
“Ô, Você matou, Márcia. Não devia ter matado, bastava espantar. Aqui nós preservamos tudo.”
“ Ah! Lá vem Você com suas frescuras ecológicas! Minha reação foi instintiva depois de ter aguentado tanta terra em minha sandália, tanto mato e água fria roçando minhas pernas.”
“Por que Você não veio de calça comprida?”
“Porque não é de sua conta a maneira como me visto. E quer saber mais? Quero ir embora daqui agora mesmo!”
“Márcia, Você acabou de chegar...”
“É... Mas vou pra Teresina agora, até logo.”
Saiu, pegou o carro e nunca mais ele a viu.
Agora, Januário e sua mãe estão recebendo os convidados para a festa. São onze horas da manhã, corre uma brisa suave.
“A Janete está demorando a chegar, mãe.”
“Será que ela vem mesmo, filho?”
“Vem, sim, ela tem que vir.”
Não veio. Quem veio foi uma prima dela com um bilhete. Januário recebeu e leu: “Não tenho nenhuma queixa contra Você, nenhum motivo para terminar nosso namoro, mas quero terminar. Não estou bem. Nunca estive bem. Minha única vontade é ficar sozinha. Sempre foi e vai continuar sendo. Não se preocupe nem se martirize, que eu não vou procurar outro rapaz para namorar, e, se algum me pedir em namoro, não vou aceitar. Além disso, Você é um rapaz muito bacana para eu continuar lhe enganado, pois, quando Você me acaricia, eu finjo gostar, mas no fundo eu não sinto nada, não estou gostando, há um vazio enorme dentro de mim. Amigas minhas me falam que suspiram e gemem quando estão trocando carícias com os namorados. Eu não sou assim. Gostaria de ser. Mas nada sinto a não ser um vazio que me aperta o coração e a vontade de chorar. Não me queira mal pelo fim de nosso namoro. De hoje em diante, somos só amigos. Talvez nem isso, pois a possibilidade de eu sair de casa é muito rara. Tranquei minha matrícula na faculdade. Não venha me visitar. Não quero visita de ninguém.
Com sinceridade
Janete Vieira
“Olha aí, mãe, lê.”
A mãe, que é leitora e fã de Balzac, após ler o bilhete, sugeriu:
“Filho, é a segunda garota que termina com Você neste bosque; é melhor Você mudar o nome dele para Bosque das Ilusões Perdidas.”

