Rogel Samuel: O amante das amazonas, 6

TRÊS: NUMAS.

 CERCA de 500 metros acima do tapiri havia um trecho do rio onde o Igarapé do Inferno fechava - ainda que corrida, funda, escura e fria - a Curva do Tucumã, acima da qual nunca ninguém passava adiante, universo regido pela povoação Numa - “Você não passa”, disse tio Genaro, naquela tarde. “Você nunca atravesse o rio”. E na margem se lançavam os limites que se sobrepunham sobre as marcas da significação da vida, alerta e alarme, nos traços insondáveis e infratores (“Não passarás!”), e por isso aquele lugar atraía tanto quanto o Proibido, o Outro, na lâmina de aço da imagem duplicada e interior, aquilo que libertava a atenta direção do salto da novidade. Pois do lado de cá ficava como um sapo em sua poça, condenado ao que seria a família constituída, dois machos protagonistas do enigma do meu silêncio e angustiosa comunicação gestual, parentes quase mudos bichos, que salvavam a vida do deserto por resmungos monossilábicos, viventes sem mulheres e amizades, existindo na prisão geográfica onde só recordar era possível sob a pressão da materialidade selvagem e da solidariedade de guerra: que de madrugada partiam para a estrada como para a morte, impulsionados por uma ordem biológica, ficando eu nos afazeres do de sempre: defumar as pélas, e no de sempre o mesmo conhecimento de que tinha errado a rota do Paraíso - sim, eu esticava caniço de pesca que durava as horas inúteis, os dias inúteis, o tempo inútil, nem pensar pensava - semanas, meses e ia a ser anos a fio até a morte, a vida somente aquilo, o mundo somente a espera - desde que chegara tudo se estagnava no mudo e no nulo do anônimo de uma monotonia circular e estéril, de uma mecânica vida mascarada de impessoal catástrofe - porque eu sabia que ia adoecer - e que doente ali ia morrer sem perdão. Eu me adivinhava insignificante individualidade da classe condenada a morrer de malária no antro da floresta comida de bichos. 

MAS a vida é um caminho que de repente se bifurca. E passa que, um dia, naquele dia - e eram certamente três horas da tarde, de tarde calma, quente e sobretudo verde entre árvores - estando eu sentado no tronco de espera que na Curva do Tucumã havia - bem defronte à curva plena do rio: o lugar era de pesca porque o igarapé, naquela altura, projetava-se numa rápida e solta volta quase em sacado, enseada de poço, piscoso e escuro, encobriria um homem alto logo sobre a margem, debaixo do cântico geral daqueles pássaros de bico largo e penas coloridas - quando, acintosamente, surpreendentes, de modo escandaloso e palerma, apareceram aquelas duas indiazinhas nuas.

Era certo que os Numas sempre voltavam das suas lendárias e por ninguém conhecidas montanhas peruanas. E certo também que voltavam gigantescos e ferozes, movendo-se sempre nas igualmente imaginárias áreas do Rio Pique Yaco, do Rio Toro, e do além mais. Mas nunca apareciam, qual seja: não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos, senão de viés, difusamente entrevistos, só pressentidos na obliqüidade do olhar. Mas aquelas meninas - a poesia apronta um mundo, a prosa outro - estavam ali excessivamente reais, muito mais reais e humanas do que os sediciosos machos seus irmãos. Nem aquilo era mais revide a todas exações suportadas pela floresta durante a ocupação seringalista. Onde há poder, ele se exerce? Para mim, elas estavam uma na outra, se abraçando dentro d’água por baixo o que era tão fácil as mãozinhas tal como eu enxergava na minha perspectiva sexualizada. Reais, humanamente reais, lá, do outro lado - as primeiras fêmeas Numas que apareceram em todo o mundo, belas como o sol sobre a risca da Terra.

E eu sufoquei de emoção. E fui largando o anzol. E fui empurrado, abaixado chulo sobre a terra, e protegido pelo capão de mato. E sabia que os Numas estavam próximos, na vazante. Nunca os vira de todo, mas sabíamos, porque a caça desaparecera! - lugar que tem índio não tem caça, que ele come toda - o porco, o mutum, a anta - depois de as abater com flechas de cana brava e arco de palmeira, a pupunha, a bacaba, o patauá, o paracoúba, o itaúba. Tudo pau d’arcos? E as antas, principalmente as antas, de que eles gostavam muito - saborosas, passando sempre pelos lugares. Oh, sim, e sim. Que eu fiquei ali até elas se retirarem. Era o êxtase! Que nem contei para o tio e o irmão, que me perceberiam abatido se tivessem alguma vez olhado para mim. E, no meio da noite, sonhei forte. Eu estava doente e doído. Sonhei com a índia maior - inteiro corpo jungido ao meu, no meio da noite meu tio acordou com meus gemidos e veio não sei por que com a arma na mão, me sacudiu mas se foi, se aquietava, ressonando leve - meu tio, ele sempre dormia armado, sono levíssimo.

No dia seguinte, quase à mesma hora, as meninas reapareceram e eu era o navegador da minha obsessão e buscava a intimidade perdida no substancial interesse daquela representação, escorregando por aquela terra úmida da Amazônia de meus antigos dias.

Porém no terceiro dia aconteceu isso: Quase à mesma hora estavam lá, no banho, e eu - para vê-las melhor, mais de perto - meti-me numa folhagem de imbaubeira caída de onde tive de sair, estabanado - quase aos berros - de cambulhada, minuciosamente coberto por um manto de formigas saúvas carnívoras. Pulei n’água. As índias olharam para mim. Não se espantaram. Não se mexiam. Era como se já soubessem de mim. Já me tinham visto, aquelas, nas outras vezes, anteriores. E continuavam onde estavam. Sem medo. Sem surpresa. Na impessoalidade. Eu me limpava das formigas agarradas por ferrões - coberto de sangue. Eu, com barulho e escândalo, a perna sangrando. Depois, rindo-se eu, que dentro d’água estava, e, pondo a cabeça de fora, gritei-lhes: “Fala!”. Elas não me responderam, sérias. Estátuas. Aquele inesperado banho me reanimou. As duas meninas estavam lá, quase ao alcance de minha mão. Pacíficas. Gozosas é o que eram, na linha de talvegue seca. Eu jogava na água. - “Fala alguma coisa!” - gritei-lhes. A correnteza rápida e fria do rio e o meu espanto me levavam. Para aproximar-me, saí das dimensões do poço e entrei, vigoroso, na corrente. Nadei, cego. Saí mais além, abaixo, puxado pela correnteza. - “Posso chegar?” - eu gritava, certo de que me entendiam. Com poucas braçadas as alcançaria. Torturado, mergulhei fundo nas águas, atravessei. Algumas vezes fazemos o que manda o impulso de nosso coração, mesmo que seja a última coisa na vida. Emergi adiante, metros além. Vim andando pela réstia de praia, nu e sem cuidado, aproximando-me. Elas não eram tão crianças, conforme então vi. Me olhavam sem medo. Os corpos abriam irradiações de forte luz. Eu, cada vez mais cego, mais perto. Eu nunca as tinha visto, assim. E tentava vê-las através da luz.

Foi então que a menor se aproximou de mim e me tocou o ventre com a pequenina mão, como se atraísse e admirasse a pele branca. Era coisa bonita de se ver. Súbito avancei a mão para tocá-la, também, na cabeça, - e foi então que ela mordeu. Dentada rápida. Senti e gritei. De dor, de surpresa. O sangue brotou na minha mão, animalzinho rápido e feroz. Foi isso. Assim, a impessoalidade, então, rapidamente se dissolveu. Desencantaram-se? Eu estava agora diante de gente. As duas começaram a rir, e vieram me segurar, juntas, e riam-se muito. E ih, ih, ih, elas se riam. E eu também me ria. E se riram e me seguraram rindo-se que foi assim conforme o digo eu, o Narrador.

 No quarto dia não apareceram.

O rio era um deserto. Eu não tinha conseguido, na loucura do dia anterior, a plenitude daquilo que, há tempo, em mim, era só desejo impulso obscuro e sem nome: eu tinha arriscado a vida. Tinha sido capaz de cambiar a vida pela verdade, o que valia a pena, o que valia a vida, na equivalência surpreendentemente torcionária - a vida não é de caminhos retos -, mas na iniciação às Parcas, esboço de serpentes, nome de demônio. Minha verdade. Tampo do tempo. Última verdade a ser implantada, cabeça a dentro, no elenco das melhores e das mais remotas profundezas, na subversiva imaginação do terror e da violência - amá-las para mim seria desmistificar: As meninas fugidias, no mais rápido do ato, no átimo, não as pude pegar, na desiderabilidade do aceno, do acerto de contas.

 NO meio da noite, súbita, acordo: toda a floresta está em chamas! Mas não era sonho não, conforme logo vi, e ouvi os disparos da arma de meu tio. Gritos e gritos. Na claridade aberta e vermelha, entre rolos negros da fumaça, meu irmão na contorcedura da grande dor, especado por flechas feito porco espinho - agulheiro de dor! E meu tio, atrás das pélas, parecendo mal, morrendo. Os Numas nos atacavam no meio da noite, mas... eu ainda estava vivo e não ferido.

Foi aí que não soube de mais nada do que se passou pois não sei como fugi e mergulhei na invisível água do igarapé de treva fria e rápida, e fui levado e me afastei dali. De longe, os tiros silenciaram de vez, não vi mais o fogo da labareda da serpente, e uma correnteza negra me abraçou, me envolveu, me levou. Eu batia em paus e pedras, mas prosseguia e prossegui, noite a dentro, breu a fora, sem pensar, por dentro, extasiado e sem pensar, com as estrelas, como se tudo aquilo fosse o prosseguimento do meu sonho na noite velada e muito burra e muito cega, hipnótica, horrorosa, continuando assim por muitas horas entre sombras, segredos e lágrimas de tudo se dissolvendo ...  Sim.

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