Rogel Samuel: O amante das amazonas, 10




ESSE é o jovem que vemos sair do portaló do Comendador, que desce no cais dessa manhã de domingo; e são diferentes as manhãs de domingo, no Seringal: os coletores vêm, por princípio, por necessidade, por nada, por mecanismo de corda para a Sede - que é o barracão, saiba bem, não o Palácio, residência isolada da família Bataillon, de onde ninguém se aproxima - vêm eles aviar as pélas, trocar a produção por víveres, pois poucos vêem a materialidade do dinheiro, vêem buscar um quarto de cachaça fiada para o beber solitário. Sinistros, pesadamente armados, passam homens do Coronel. O ar cheira a caxiri. A baía do Igarapé do Inferno, interseção de dois planos, espelha, rachada, gritos das copas das árvores. Duas prostitutas peruanas chegam, de canoa. O movimento dos homens, dos barcos e das máquinas dão vida ao lugar, que transborda de agitação domingueira, que esta é uma manhã de domingo, apesar de tudo.
Percebo, na contraluz brilhante do vão da porta, uma figura humana. É o Coronel Bataillon, de colarinho duro, gravata rebelde, vermelha, o temo havana, as mãos nos bolsos, parecendo feliz na cumeeira da escadaria de mármore, olhos no fixo horizonte como um comandante de um mar sem limites, verde. Agora ele gesticula com o dedo indicador duro no ar, dita ordem inaudível para um curumim, o Mundico, que cabriolava perto dele e que logo sumiu em direção ao fundo da casa. Ferreira se aproxima, sobe os degraus, continua a sorrir em direção ao anfitrião, que o aguarda.
- Com que, então, por aqui ... - fez Pierre, estendendo as mãos, inclinando a cabeça à esquerda, orelha em direção ao ombro. “Você deve de ter feito uma excelente viagem, com esse tempo ... ”.
- Como vai? - pergunta Ferreira, um degrau abaixo, as mãos avançando para pegar o velho.
- Explico-lhe bem - continuou Pierre. Nesses dias tem feito o melhor, para as viagens até aqui. Conheço o ânimo dos viajantes que por aqui chegam. Cerca de quinze dias atrás, choveu soberanamente. Um dia de dilúvio. Se você viesse ...... (o acento soa afrancesado). Pierre conduz o jovem pelo braço. Entram lentamente. No meio do espaço, porém, Pierre pára, imóvel. Depois ergue os braços, teatral. E volta-se. Aponta o céu com a ponta do dedo: “Veja aquelas nuvens. O tempo mudou. São cúmulos em formação. Hoje à noite a floresta exalará o seu perfume de sabonete silvestre. Amanhã, as águas ficarão frescas e claras ... São as chuvas, par-dessus les autres. A água lava a água, não a turva de lama, como no Solimões. Tempo celestial, com o beneficio...”. Nada mais ouço, os dois entram e somem além do portal. Uma ararapiranga, vermelha e amarela, pinta no céu sua pincelada lendária.
Quando à tarde os dois reaparecem com no terraço, perto da galeria superior, a chuva já tinha passado e duas crianças se banhavam no Igarapé do Inferno em frente, na linha de visão da estátua elevada no pátio, de Stiasny, chamada “Esplendor da Amazônia”, alegoria da extração do látex, encomendada por D. Ifigênia Vellarde em Paris em 1894.
- O senhor tem a felicidade de viver entre obras de arte, disse Ferreira.
- Obras? Estas? - Pierre estocou, olhinhos de cobra. “As artes, meu senhor, corrompem o espírito e os costumes. São acúmulos de impurezas. Só o contato, a relação direta com o mundo natural, a selva ... ”.
- O senhor não prefere o mundo civilizado? Ferreira perguntou.
- Ao mundo bárbaro? (Pierre exultava:) A expressão da maldade, da maldade acumulada pela cultura, isto tudo, essa coisa toda não é bárbara? A desigualdade não é bárbara? Veja o senhor: estou implantando aqui, no Manixi, a Democracia Social. Veja este meu cão, o Rousseau. Eu o amo e, por isso, ele me é fiel. Protege-me, e por isso o amo, e me sinto protegido e amado. Que significa isto? Que é este cão? Nele se encontra o traço que separa os dois mundos, os sentimentos puros dos corruptos. E o senhor confia na pureza do coração? Confia?
Ferreira olha para ele como para um louco. Percebo, pelo olhar, que está apavorado. Como para acalmar o outro, pergunta:
- Quando seu filho volta da Europa?
Como se nada tivesse ouvido, Pierre continua falando: “Você já viu a, bordada em puro ouro, Cattleya Edorado, no fundo final da floresta? Conhece a famosa, rara e insuperável Cattleya Superba?”.
Os dois curumins são vistos e ouvidos e gritam como gritam pássaros. Estão na direção do olhar da estátua do átrio. O “Esplendor da Amazônia” é uma dama art-nouveau de mármore branco, e dança com um cesto sobre o ombro, representa a fertilidade, a riqueza, a abundância do látex. Ela está coberta de terra e esperma salpicada de látex. No cesto está plantada a muda de seringueira viva. A planta já sobe um palmo. Ferreira repara naquilo. Os dois estão no terraço. Pierre segura a crista exterior do parapeito, vejo o brilho do seu anel armoriado. O terraço é a parte velha da construção. Quatro cariátides encaram os tons verde-amarelos, amazônicos. O papa-cacau, no poleiro, grita.
Bruscamente, incompreensivelmente, irrompendo com fúria e fulgor como Febo no horizonte - alta, forte, violenta, vigorosa, portentosa índia maacu, como uma deusa, surge, aparece, explode pela porta e tem os braços tatuados de vermelho e azul, e quase nua, envolta num manto de seda prateada e em chamas brilhantes como o céu. Ela traz, redonda, espelhada nas mãos, como se fosse o próprio sol numa bandeja de prata dourada, incandescente, impossível de ver, milhares de megatons acima do suportável, o serviço de café e licor, de bacará rosado - um choque, Ferreira fecha os olhos cego pelo relâmpago de diamante, e ela deposita a bandeja na sua frente, quase no seu colo, sobre uma mesinha de mármore brecha vermelho plantada ali sobre um tripé de ferro floreado, feminino, num gesto da oferenda de simbolismo francês, um ramo de musácea, exótica estrelícia de lá, de pétalas retas em forma de pássaros comprimidas em cristas laranjas de inspiração art-nouveau, viva e em cima da felicidade equilibrada entre impulsos elegantes, entre sutis meditações do nó, do sarugaku acrobático, aéreo - Ferreira está tonto e não consegue compreender a mais bela das mulheres, das amazonas maacu, bronze puro, Diana saída do Teatro Amazonas, visão adocicada das delícias na suntuosidade do panorama, e no contágio, no inebriante que recende a romã, a inhamuí, a panquilé, que deve ter saído do banho de rosas, cabelos na fragrância do vento, força, paixão, limpeza e puro amor de um ser jovem, de vinte anos, que irradia viço, brilho, poder, Ferreira a vê da cadeira de palhinha, baixa, a força, a selvagem cor daquelas pernas longas.