O.G. Rego de Carvalho em registro visual de 1956 quando da publicação de Amor e Morte
O.G. Rego de Carvalho em registro visual de 1956 quando da publicação de Amor e Morte

[*Halan Silva]

Se o romancista O. G Rego de Carvalho fosse vivo, no dia vinte e cinco de janeiro de 2026, completaria noventa e seis anos de idade. Pode ser coincidência, mas, justo nessa data, veio-me à lembrança o primeiro encontro que tive com ele, em 1986. Para mim, esse ano foi singular, porque se comemorou o centenário do poeta Manuel Bandeira.  Eu tinha dezesseis anos e uma “força estranha” moveu-me até uma residência na rua 13 de maio, próxima à rua Benjamin Constant, no centro de Teresina - a residência de O. G Rego de Carvalho. Como não havia campainha, bati palmas duas ou três vezes. O próprio O. G Rego de Carvalho veio me atender. Ao se aproximar, perguntou o que eu desejava. Acanhado, respondi-lhe que gostaria de comprar um de seus romances, o que estivesse disponível no momento. Ao invés de recomendar uma livraria, O. G Rego de Carvalho abriu o portão e me convidou para entrar. Na sala de visita, esclareceu que somente dispunha de “Ulisses Entre o Amor e a Morte” e “Rio Subterrâneo”. Com um gesto, ele me pediu que esperasse um pouco, levantou-se e foi a um dos cômodos da casa, de onde voltou com uma caixa cheia de livros, da qual retirou dois exemplares e autografou, dizendo-me: - os demais livros você pode doar para quem quiser. Na cidade, comentavam que O. G Rego de Carvalho era um homem arredio, de pouquíssimos amigos. Sendo um jovem que acabara de descobrir a leitura, confesso que não esperava ser tão bem recebido.

A vida me proporcionou outros encontros com O. G Rego de Carvalho, mas nenhum deles foi previamente agendado. Tempos depois, ao pesquisar sobre o poeta H. Dobal e sua geração, pude compreender melhor a razão porque O. G Rego de Carvalho me fora receptivo: ele foi precoce na literatura.   Mais novo que M. Paulo Nunes (1925) e H. Dobal (1927), O. G Rego de Carvalho foi o primeiro a publicar uma obra literária bem como o primeiro a conquistar a autonomia financeira. Lúcido, direto e sem filtro, pagou um preço elevado por expressar seu pensamento dissonante: seus romances foram duramente combatidos pela intelectualidade local. Muito jovem, movido sabe Deus porque razão, cometi a ousadia de procurar um dos autores mais consagrado de nossas letras e, de posteriormente, escrever notas ensaísticas sobre o seu itinerário literário e o de seu companheiro de geração, o poeta H. Dobal. Curioso é que em nenhum momento, esses autores se incomodaram com o fato de essas notas serem escritas por um jovem anônimo. E H. Dobal foi mais além, manteve comigo uma amizade que perdurou até a sua morte. Em breve completarei cinquenta e seis anos, olho para trás e me vem o desejo de recitar um verso de Violeta Parra: “Gracias a la vida que me ha dado tanto”.

*Halan Silva é mestre em Filosofia, advogado e escritor.