NORMALISTAS
Por Washington Ramos Em: 09/07/2026, às 18H39
[WASHINGTON RAMOS}
Vi muitas quando era menino nos anos 60. Vi-as indo a pé à escola, subindo a escadaria da ENAF, voltando alegres para casa. Povoaram meus sonhos de criança. Mas, pessoalmente, conheci apenas três normalistas. A primeira foi dona Sílvia, que ministrava aulas particulares em sua casa e aperfeiçoou minha alfabetização. Ela era preta retinta e tinha uma linda voz argentina, aveludada, calma. Nós, seus alunos, sempre a respeitamos e lhe obedecíamos. Não reparávamos se ela era negra. Era, para nós, uma pessoa agradável. Estar com ela era como estar com nossa mãe ou outra pessoa querida. Era algo natural como o céu azul, como o ar que respiramos. Não havia, naquele tempo, a obsessão sobre cor de pele como existe hoje.
Um dia, dona Sílvia nos deixou sozinhos na sala com uma tarefa e entrou no quarto cuja porta era apenas uma cortina. O Dé, que era o mais danado de nós, abriu um pouco a cortina e olhou. Virou-se para nós e disse: “Ela tá dançando.” Realmente num rádio tocava uma música. Dona Sílvia falou: Menino, vai fazer a tarefa.” Alguns anos depois, ela faleceu, o que nos deixou muito tristes. Era jovem ainda.
A outra normalista era minha vizinha, a Neusa, que morava numa casa quase em frente da minha na rua Rui Barbosa entre a Pará e a Piauí. Nesse quarteirão, do lado da sombra, a casa da Neusa é a única que ainda existe quase do mesmo jeito de quando ela morava lá. Continua firme. Parece indestrutível como indestrutíveis são as lembranças que tenho daquela linda normalista entrando e saindo fardada daquela residência. Usava sapatos pretos, meias brancas, saia azul-marinho e blusa branca com bolso no lado esquerdo do peito, onde figuravam as iniciais ENAF - Escola Normal Antonino Freire. É claro que Neusa nunca me olhou detidamente. Eu era um menino de dez anos de idade mais ou menos. Porém meu coração pulsava mais forte quando via aquela normalista morena. Contra a vontade da mãe, ela se casou com o Arnaldo, e os dois foram morar em Brasília. Nunca mais eu soube notícias suas.
A terceira normalista foi minha professora no Grupo Escolar Professor Oscar Clark, que ficava na esquina da rua Ceará com a João Cabral. Hoje lá funciona a UESPI. Chamava-se Rosa Leal. Era uma linda mulher: branca, maçãs do rosto levemente vermelhas, nariz delicado, olhos negros e cabelos curtos. Era um pouquinho gorda. Mas isso para nós, seu alunos, só aumentava sua beleza. Não havia, naquela época, a fixação por magreza esquelética como sinônimo de pessoa elegante e bela. Ela era de Picos. Aqui em Teresina, morava no Patronato Dom Barreto, um internato para moças do interior que de lá só saíam para estudar ou trabalhar. Ficava onde hoje é o Instituto Dom Barreto, na esquina da rua Gabriel Ferreira com a Benjamin Constant.
Nunca vi Rosa Leal com a farda de normalista. Mas ela nos falava muito da Escola Normal Antonino Freire, onde ela estudava ou já havia estudado, não lembro bem. Esse educandário ficava onde hoje é a sede da Prefeitura Municipal de Teresina, o Palácio da Cidade, na Praça da Bandeira. Contou-nos uma vez que suas colegas normalistas deram outro significado para a sigla ENAF. Rindo, diziam: “Espera Neném Antonino Freire.”
Depois das aulas, Rosa Leal abria uma sombrinha e encarava o percurso do grupo escolar até o patronato.
Às vezes me pergunto se existe ou já existiu algum tipo de estudantes tão famosas quanto as normalistas. Parece que não. Elas foram tão famosas e lindas, que marcaram mais da metade do século XX. Marcaram corações também; o meu, inclusive. Deixaram uma presença tão indelével, que existe até uma bela canção composta por Benedito Lacerda e David Nasser, interpretada por Nélson Gonçalves, louvando aquela figura inesquecível: a normalista.

