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Miguel Carqueija

Resenha do mangá “O cão de caça e outras histórias” (volume único) — adaptação e arte por Gou Tanabe. Editora JBC, São Paulo-SP, 2015. Título original: “The hound and other stories”, Kadokawa Corporation Enterbrain, Tokyo, Japan, 2014.

Muito interessante esse mangá que adapta tr~es das terrificantes histórias do mestre do horror H.P. Lovecraft (EUA, 1890-1937), o criador dos “Mitos de Cthulhu” e provavelmente do que hoje chamamos “terror cósmico”.
O traço de Tanabe, sombrio, sério e bem proporcionado, além de adequado ao clima das histórias, é muito artístico e gera um tom sufocante nas páginas em preto-e-branco do mangá.
“O templo” (The temple) passa-se nos abismos submarinos e é impressionante. Fala de um comandante de submarino alemão, durante a Primeira Guerra Mundial, um homem implacável, durão, que afundava navios britânicos e não poupava os sobreviventes. Foi a segunda história de Lovecraft que eu li, há mais de quatro décadas (a primeira foi “Na catacumba”). O mangá toma a liberdade de mostrar logo de início uma suástica, para deixar bem claro o caráter do protagonista; entretanto a história original é de 1920, Hitler não havia aparecido, a ação se passa na primeira e não na segunda guerra. Mas quem leu o conto percebe o quanto o capitão do submarino parece mesmo um nazista; é um pré-nazista.
Uma série de incidentes sinistros faz com que o Capitão karl Heinrich acabe sozinho em seu submarino que, danificado, afunda cada vez mais. Já sem chance de retornar à superfície, ele descobre nas profundezas um incrível templo afundado, uma espécie de Atlântida macabra, e onde brilha uma luz... espectral. E mesmo diante da morte iminente e aterrorizante, na solidão das profundezas, o comandante denota o seu orgulho militarista e nacionalista: “A primeira pessoa a caminhar nesta cidade esquecida só poderia ser um alemão, eu!”
“O cão de caça” (The hound”) mostra dois sujeitos insanos que moram juntos e que se dedicam a uma “arte” abjeta e infame, a profanação de túmulos. A narrativa fala do que acontece quando a profanação ocorre numa sepultura guardada por um cão misterioso e horripilante, que passa a persegui-los. O clima é desesperante e deixa bem claro que há coisas com as quais é melhor não mexer...
Já “A cidade sem nome” (The nameless city) acompanha um investigador solitário no deserto da Arábia, que busca, com característica temeridade, encontrar a ancestral cidade sem nome perdida no deserto, objeto de lendas apavorantes. Uma cidade oculta nas profundezas da terra e onde o viajante descobre os cadáveres mumificados de uma raça réptil que se extinguira mas de alguma forma sobrevivia num vento alucinante...
Lovecraft é o poeta em prosa do indizível, do inimaginável, do horror primordial. Nele não há espaço para a esperança, mas sua criação é tão artística e instigante que não há como deixar de reconhecer a sua qualidade, além do que, a riqueza de pormenores e imaginação convida a trabalhar com esse universo ou criar similares, sem necessariamente seguir o fatalismo do autor. E sim, o mangaká fez um trabalho muito apurado.

Rio de Janeiro, 5 de maio de 2016.