Leia e ouça: "Breve saudação a um livro fundamental"
Em: 16/01/2026, às 08H49
(*) Dílson Lages Monteiro
Imagine um Piauí sem estradas. Um Piauí sem luz elétrica. Um Piauí sem escolas. Um Piauí desprovido de vida urbana, em sua maior extensão. Um Piauí sem os recursos da saúde e da ciência de hoje. Sequer antibióticos e mesmo médicos. Esse era o Piauí do século XIX: um estado marcado pela força da fé, da supremacia do mundo rural, dos valores e costumes das pequenas – e grandes – satisfações das necessidades mais imediatas.
É nesse contexto que vive uma geração de literatos, em cujas obras, o contexto local se faz representar em toda a sua pujança. Em Leonardo Castello Branco, Teodoro Castello Branco e Hermínio Castello Branco (pai, filho e sobrinho, respectivamente), espelham-se as representações geográficas, humanas e sociais do Norte piauiense e, ao mesmo tempo, a individualidade de família predestinada a legar ao mundo uma literatura que ressoará para todo o sempre.
Nascidos em fazendas da Vila de Barras do Marataoã, em região que hoje compreende o próspero município de Esperantina, polo de desenvolvimento regional na Região dos Cocais, Leonardo, Teodoro e Hermínio figuram entre os mais expressivos e pioneiros escritores das letras piauienses. A eles, a historiografia literária reservou um justo lugar, arrancando dos que registraram as narrativas de mais visibilidade sobre as letras piauienses, ou mesmo de historiógrafos de outras paragens, louvores do papel desempenhado por cada um dos poetas na construção da tradição literária.
Em sua Literatura Piauiense na Escola, obra de maior circulação didática da literatura local, Luiz Romero Lima frisa: “Como Homens das Letras, Leonardo não teve, em seu tempo, leitores-críticos suficientemente preparados para compreender sua obra. Talvez pela dificuldade de acesso às obras ou preconceitos ao censo épico adiantado em relação aos épicos clássicos, muito ao gosto do século XIX e parte do século XX”.
Lendo com os olhos fixados no plano da expressão, principalmente, o crítico literário Rogel Samuel ressaltou em crônica que Theodoro “é um poeta camoniano. É um poeta clássico, dos melhores da nossa literatura brasileira. E dia virá em que ele vai figurar ao lado dos maiores do Século 19”.
Diz o antologista e historiógrafo Herculano Moraes, autor de Visão Histórica da Literatura Piauiense, que Hermínio “Tornou-se inigualável na descrição de uma vaquejada, de uma farinhada, de uma quermesse em que predominavam os costumes regionais em toda a sua inteireza”. Acrescenta Moraes que ele “aprimorou-se tanto nesse mister que chegou a desafiar e a vencer cantadores famosos de seu tempo”.
Na década de 1970, Herculano Moraes prestou inestimável serviço à cultura e à memória de Esperantina e de Barras ao publicar Chão de Poetas, hoje uma raridade, exclusiva de poucas bibliotecas privadas. O livro trazia informações sobre a vida e a obra de escritores nascidos nas ribeiras do Marataoã e do Longá. Nela, os poetas da família Castello Branco do antigo Retiro da Boa Esperança receberam atenção especial. A publicação foi o primeiro esforço para assegurar às gerações da época a preservação, no gosto popular, do legado de Leonardo, Teodoro e Hermínio Castello Branco. Foi eficiente no que se propôs, garantindo que não apenas os mais jovens conhecessem alguns versos desses grandes poetas, mas também fossem tomados pelo encanto natural do que escreveram.
Agora, esse compromisso se renova em A Criação, A Harpa e A Lira Poética, com a palavra autêntica, espontânea e verdadeiramente sentida de Valdemir Miranda de Castro. Abro um parêntesis para frisar que, desde sempre, professor Valdemir reverbera as narrativas e os versos dos três famosos poetas de sua cidade natal. Reverbera também o amor por sua cidade-berço: ao propalar a plenos pulmões Leonardo, Teodoro e Hermínio, vive a identidade de sua Esperantina, nesses escritores representada tanto no significado coletivo de suas escrituras, quanto nas vivencias e valores da essência do lugar. Recordo, aliás, que a primeira vez que tive contato com a pessoa do autor ocorreu numa revisão de pré-vestibular no ano de 1990. Ali, em meio à aula de Literatura, ele interrompeu o professor para contextualizar Leonardo Castello Branco na cena cultural do País. Em sua fala, estava a literatura reencarnada e a permanência do que nasceu para não fenecer.
Logo me surpreendi, ao começar a estudar letras no início da década de 1990, e me deparar novamente com sua figura. De novo, os poetas Castello Branco voltavam a cena, agora na Universidade Estadual do Piauí, onde professor Valdemir, então estudante de Letras, não poupava oportunidades para que o mundo simbólico dos poetas esperantinenses-barrenses despertasse o vivo interesse de outras pessoas fascinadas pela poesia. Não tardou que escrevesse e publicasse um estudo biográfico sobre Leonardo Castello Branco, festejado por quem já se habituara a ouvi-lo declamar versos dos vates. A ação contínua divulgando os poetas Castello Branco de Esperantina ganharia novas cenas: sua atuação resultaria na edição de A Harpa do Caçador pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves e, depois, na publicação do denso estudo genealógico Enlaces de famílias, no qual os poetas e suas teias familiares se fazem compreender.
Toda essa história pessoal, convertida em muitas pesquisas, com ampla descoberta e resgate de farto material biográfico e literário de fontes primárias, fortalece-se neste novo trabalho com que presenteia os piauienses. Ao apresentar A Criação, A Harpa e A Lira Poética, em linguagem simples, sem academicismo ou retórica, Valdemir Miranda de Castro oferece uma rica oportunidade de convivência íntima dos leitores com dados biográficos, análises críticas e textos surgidos para a excepcionalidade. A grandeza do passado de Esperantina, de maneira didática e natural, ganha a forma de conversa da mesa de estar ou do sofá da sala e nos põe em contato com um tempo que nasceu para a eternidade, como este livro que, lido e relido, conquistará, de imediato, o coração e as mentes de quem lhe abrir as folhas.
Bendita uma cidade que ouve, vê, respira e sonha sobre as palavras mágicas de Leonardo, Teodoro e Hermínio Castello Branco. Bendita esta obra A Criação, A Harpa e A Lira Poética, de Valdemir Miranda de Castro. Para todo o sempre.
(*) Dílson Lages Monteiro, poeta, romancista e pesquisador, ocupa a cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras.
Ouça a apresentação de A Criação, A Harpa e A Lira Poética, de Valdemir Miranda

