João Paulo dos Reis Velloso foi membro da Academia Piauiense de Letras e da Academia Parnaibana de Letras
João Paulo dos Reis Velloso foi membro da Academia Piauiense de Letras e da Academia Parnaibana de Letras

JOÃO PAULO DOS REIS VELLOSO (1931-2019): PATRIMÔNIO INTELECTUAL E HUMANO DO BRASIL

 

Por Diego Mendes Sousa

 

 

O primeiro ocupante da cadeira 11 da Academia Parnaibana de Letras foi João Paulo dos Reis Velloso, nome, com justiça, muito propagado pela Parnaíba. Sua denominação batizou um bairro, um campus universitário, um centro cultural. E o que é mais emocionante, Reis Velloso foi reconhecido e ovacionado em vida.

 

Tenho a curiosa sorte e a regalia de suceder ao Ministro João Paulo dos Reis Velloso, homem erudito, afeito às artes, que dialogou com gente de proa, que também pertence ao meu universo enquanto apreciador de cultura: Clarice Lispector (cujo centenário de nascimento comemora-se ainda em 2020), Nelson Rodrigues, Carlos Castelo Branco (piauiense, jornalista, cujo centenário de nascimento ocorrerá neste ano), Bárbara Heliodora, Cacá Diegues, Nélida Piñon, Adonias Filho, Odylo Costa, filho, Nelson Pereira dos Santos (que veio até Parnaíba a convite do Ministro e se encantou com o paradisíaco no Delta do Rio Parnaíba), Ascendino Leite (que também foi meu amigo) e tantas outras personalidades brasileiras que foram íntimas de João Paulo.

 

Reis Velloso não era leitor assíduo de poesia. Isso ele confessava. Gostava de Fernando Pessoa, de Carlos Drummond de Andrade e de Manuel Bandeira. Era amante da literatura. Seu livro de cabeceira se chamava Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Leitor dos russos, deleitava-se com o universo ficcional de Tolstói, Dostoievski e Gogol, seus prediletos.

 

Devoto ao Catolicismo, ao rito Apostólico Romano, o Ministro declarava que “a religião era algo de importância essencial, habituada aos valores básicos da vida, bem como uma relação de amor”.

 

João Paulo dos Reis Velloso pensava a Igreja e escrevia sobre o Cristianismo. Ressalto os livros “Cristãos que se beijam e o crepúsculo dos deuses”; “O Reino de Deus, na Terra e no Céu”; “Cristo e a Viagem (“Paraíso Reconquistado”) corpo e alma do Cristianismo – ontem e hoje”; "O Messias – Das premonições (Antiguidade Clássica e Profetas) ao filho de Deus (e à Virgem)”; "Amor e Vida em Mulheres da Bíblia”; “Memorial da Virgem”; dentre outros, em que demonstrava o seu elã compreendido sobre as paisagens sagradas de relevância.

 

Sua dona era a granfina Izabel, de olhos azuis, irmã do indomável jornalista Zózimo Braúlio Barrozo do Amaral e filha do magnata Boy Barrozo do Amaral, com quem casou em segunda núpcias em 1975.

 

O menino Velloso nasceu na Parnaíba (PI), em 1931 e morreu em fevereiro de 2019, no Rio de Janeiro.

 

A sua infância foi vivida na casa 570, da Rua Visconde de Itaboraí, ali onde hoje mora o maestro e compositor Beetholven Cunha (louvável amigo que se despede da Parnaíba em busca do largo horizonte do tempo e que nos brindará com um concerto de piano e violino ao término desta cerimônia), em uma casa de dois janelões frontais, que pertencia ao português Justino Vieira, proprietário de outras casas naquela estreita rua da Coroa.

 

Fui, recentemente, até a antiga morada de Reis Velloso, adentrei a sua porta alta para imaginar em entretempo, a infância do Ministro. Como sou poeta, risquei o espaço com o olhar intimista de um juliano. João Paulo era do signo de Câncer, que nem este poeta, que se mistifica nas patas dos caranguejos e dos siris do litoral do Piauí, berço do Delta do Rio Parnaíba.

 

João leva o nome do seu avô. Sua mãe, Maria Antonieta dos Reis Velloso, morreu jovem, aos 38 anos de idade, legando ao filho o apreço pela leitura e pela pintura. Seu pai foi seu Castrinho (Francisco Augusto de Castro Velloso), servidor dos telégrafos. Ambos piauienses.

 

Reis Velloso foi alfabetizado aos cinco anos, no Grupo Escolar Luís Galhanone pelas mãos da professora Maria do Carmo Sampaio, irmã do Padre Antônio Sampaio.

 

João Paulo foi garoto de rua, gostava de jogar futebol, inclusive, em uma entrevista que o Ministro concedeu à autora de “Perto do Coração Selvagem” e “Laços de Família”, Clarice Lispector indagou a Reis Velloso se ele havia sido “moleque de rua” e ele respondeu, imediatamente, e com alegria: “fui!”

 

Estudou no Instituto São Luís Gonzaga. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, Reis Velloso foi aluno de Contabilidade e professor na União Caixeiral, sendo inclusive orador e paraninfo de uma turma, em 1951. Mudou-se para o Rio de Janeiro estimulado por sua mãe, que queria ver o filho com curso superior. Formou-se pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Reis Velloso ainda trabalhou na Moraes S/A, antes de partir da Parnaíba em busca do seu glorioso destino.

 

Passou por Teresina. Lá se hospedou na casa do seu tio Totonho Velloso, que era proprietário de um casarão com janelas para a Praça João Luís Ferreira, como descreve perfeitamente, de maneira romanceada, o escritor Eneas Barros, neto do escritor e juiz de Direito Fontes Ibiapina, seu Nonon, um dos fundadores desta Casa de Letras (Academia Parnaibana de Letras), em sua obra ficcional “O mistério das bonecas de porcelana”:

 

“O sobrado em que a família passou a morar possuía dois pavimentos e um pequeno sótão, que ficava sobre o quarto do casal. Na entrada, um pequeno portão de ferro gradeava um belo jardim, que deixava no ar o cheiro agradável das rosas, magnólias e jasmins, sempre bem cuidadas pelo jardineiro contratado, e algumas trepadeiras que se enroscavam nas hastes perfeitamente colocadas para aquele fim. Adiante, havia uma porta que dava para a cozinha e para dois quartos usados como dependência dos empregados (...) No térreo também ficava a sala de jantar (...) Um pequeno caminho por entre as plantas do jardim dava acesso à escada que levava ao andar superior (...) Após a sala de estar, ainda no primeiro andar, um corredor dava acesso aos cinco quartos, sendo dois de cada lado e um ao fundo. (...)”

 

Reis Velloso era discípulo do professor de português José Rodrigues, cujos ensinamentos foram de fundamental importância para a sua formação como humanista e intelectual. João Paulo declarava: “Zé Rodrigues é o meu guru”. E essa admiração era tão profunda, que em um livro publicado em 2013, “O Vale da Decisão”: “O Piauí é Rico” – Em grandes oportunidades”, encontro a sensível dedicatória: “Ao Professor (José Rodrigues)”, assim com P em letra maiúscula.

 

Em entrevista ao jornal O Bembém, edição 47, de novembro de 2011, João Paulo dos Reis Velloso esclarece a Benjamim Santos sobre o seu fascínio por cinema na Parnaíba dos anos 40 do século passado:

 

“Eu ia ao cinema todo dia. Toda vez que mudava o filme. Tempos modernos, por exemplo, eu vi cinco vezes. Nós tínhamos um permanente no Cine Éden porque o Miguel Carcamano (dono do Éden) procurava o papai no telégrafo pra ele localizar filmes. Meu pai então, pelo código Morse (que eu aprendi a usar), ele ligava para São Luís, Fortaleza, Recife para localizar filme tal e tal. Como compensação o Miguel dava o permanente pra nós.”

 

Reis Velloso foi um predestinado. Desembarcou no Rio de Janeiro e por sua mente estudiosa, ganhou logo uma bolsa de estudo e foi aprovado, por concurso público, para o Banco do Brasil.

 

Escrevia artigos para o jornal A Manhã, que era, no final dos anos quarenta e início dos anos cinquenta do século XX, o melhor suplemento literário brasileiro. Ganhou destaque com o artigo “A tragédia burguesa de Otávio de Faria” e caiu nas graças do diretor de A Manhã, Jorge Lacerda, que havia sido eleito Deputado Federal.

 

Da amizade com Jorge Lacerda, Reis Velloso cooperou para o desenvolvimento do Projeto de Lei que criou o Museu de Arte Moderna.

 

Belas Damas e Nobres Cavalheiros,

 

João Paulo dos Reis Velloso foi arraigado pela cultura, que era o seu “teatro mágico”, como ele mesmo definia, onde atuava como ator e como espectador. Homem simples, educado, culto e muito gentil. Adorava a Parnaíba, para onde vinha passar os seus aniversários em meados do mês de julho.

 

Declarava: “Parnaíba, para mim, é um caso de amor permanente.”

 

Sua mente talentosa passou pelas Universidades americanas de Yllinois e Yale.

 

Em 1969, em O Globo, o dramaturgo Nelson Rodrigues enaltecia as qualidades de Reis Velloso: “Desde Yale que o nosso Velloso chora pelo Piauí. E a Universidade, que finalmente vai sair, tem muito de sua obstinação dramática.”

 

João Paulo era um cultor da Educação. Foi ele que sedimentou o surgimento da Universidade Federal do Piauí.

 

E concordo com José Francisco Paes Landim, quando declarou que “O Dr. João Paulo dos Reis Velloso, esse grande professor emérito, é um pedagogo por natureza. As conferências de João Paulo dos Reis Velloso são aulas. É um pedagogo. É difícil ter pedagogia com aquela simplicidade e profundidade.”

 

João Paulo gostava de Bossa Nova e Jazz!

 

Mas o seu fascínio era mesmo o Cinema!

 

O filme “Dona Flor e seus dois maridos” escapou da censura, pelas mãos de João Paulo dos Reis Velloso.

 

O Ministro também dançava em blocos de sujo, do carnaval carioca. Era irreverente e nada convencional, com gestos e atitudes de vanguarda.

 

A escultura da formosa mulher com um pote na cabeça, exposta na Parnaíba, na Praça Constantino Correia, é herança de Reis Velloso a sua cidade. E advém de uma outra efetivação cultural, a construção de Nova Jerusalém, onde é encenada a tradicional “Paixão de Cristo”, em Pernambuco, uma idealização de Plínio Pacheco.

 

Depois de tudo exposto, alguém sentirá a ausência de outras realizações.

O Reis Velloso, político, todos já conhecem. Dez anos como Ministro do Planejamento durante o regime militar.

Ressaltava: “Queremos uma revolução! A verdadeira revolução é a integração de desenvolvimento e democracia.”

Além de extraordinário pensador da Economia, o revolucionário economista consagrou o seu nome em milhares de siglas: IPEA, FINEP, CDES, INAE, BNDS, IBMEC, FGV, EPGE, PAEG, PED, CPDOC...

 

Esclarecia: “Eu não acredito em milagres, a não ser no plano espiritual. Em economia nunca houve milagre, o que acontece é relação de causa e efeito.”

 

No Fórum Nacional, Reis Velloso reunia as mais expressivas vozes da inteligência do país, para debater temas ultra relevantes para a vida e a dignidade dos brasileiros.

 

Por suas publicações passaram Arnaldo Jabor, Elio Gaspari, Luiz Paulo Horta, Walnice Nogueira Galvão, Laurentino Gomes, Mary Del Priore, Ricardo Cravo Albin, Luiz Carlos Prestes Filho, Luiz Carlos Barreto, Raul Velloso (seu irmão), dentre outros articuladores de cepa.  

 

João Paulo deixou uma vasta bibliografia, com destaque para o seu opus máximo: “A Solidão do Corredor de Longa Distância”. Dizia gostar de escrever livros e mais livros.

 

Encerro as minhas palavras, com a bandeira da mocidade audaz exposta por João Paulo dos Reis Velloso em seu periódico, O Arauto, onde já expunha, aos 18 anos de idade, os ideais de um exemplar parnaibano:

 

“Cultivar a inteligência é caminhar para a imortalidade”.

 

E de maneira mais profunda, na imagem de John Donne: “Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor (a Parnaíba fica menor), como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”

 

 

Trecho do discurso de posse de Diego Mendes Sousa na Academia Parnaibana de Letras.

Parnaíba, costa do Piauí, 24 de janeiro de 2020.

Cadeira 11 - Patrono Poeta Thomaz Catunda - Academia Parnaibana de Letras.

 

Tinteiros por Diego Mendes Sousa