ESCRITOS EM TEMPOS SOMBRIOS DE PANDEMIA E SOLIDÃO (1)

  CUNHA E SILVA FILHO

     Há mais de um ano, nestes tempos sombrios  de  pandemia entre nós e de bolsonarismo   nocivo, desorganização  social e sucessivos  retrocessos  na vida  pública   brasileira em quase todos os setores  da rex  publica,  organizei, leitor,  em casa, junto a meus  livros e papéis, alfarrábios, numa palavra, meus arquivos  de antanho  que, no conjunto,   chamei de Biblioteca  “Prof. CUNHA E SILVA”( Amarante, PI.,1905-1990). 

     Neste contexto histórico-social perverso, agônico e  trágico demais, forçado eu, assim como  outros  brasileiros pelo distanciamento provocado  pela pandemia que já ultrapassou, atualmente,   a  barreira das  600.000 vítimas fatais,  no país,  manifestei  um ato de coragem  e determinação que  me levou  a empreender algo  útil  e recompensador,  pelo menos, para mim:  organizar as obras de meu pai e as minhas  Foi um  trabalho  hercúleo de disposição física e mental.

      Foram horas dias,  meses  de  empenho árduo   e cansativo. Tive que  procurar  tudo em  muitíssimas folhas de  papéis  guardados  há anos,  em forma de artigos publicados ou de material literário  inédito,  cartas de diferentes   remetentes (em geral,  escritores, fotos em jornais,  revistas,  livros,  tanto   referentes a Cunha e Silva quanto    a quase tudo  que  escrevi  desde,  pelo menos, os meados dos  anos sessenta.

      Neste caso, valendo para mim e para meu  pai,  porquanto  não disponho de   material  jornalístico  dele relativo aos anos 1950  para  trás,  ou seja,  aproximadamente da  segunda metade da década  de  1920   e das décadas  de 1930 e 1940.

        O  resultado dessas  pesquisas caseiras  e contínuas  foi, no que diz respeito às cartas  trocadas com meu pai ( essa correspondência   ficou  mais   na forma passiva do que ativa.  esta última quase nula visto que  as minhas cartas a meu pai  sumirão   ou foram  jogadas fora após o falecimento  dele.  Com outras    cartas   trocadas  com   amigos  (geralmente,  escritores,  formam dois alentados  volumes.  Com relação aos livros de papai, as  pesquisas  resultaram   em dez  livros e,   finalmente,  quanto à  minha produção  geral, em    vinte e nove  obras.        

        A maior parte composta de  livros que, se forem   editados, constituirá  grossos  volumes, por enquanto, em cópias  extraídas  de jornais, revistas,    do meu Blog As ideias no tempo, por enquanto parado  por razões  técnicas e do site Entretrextos,  dirigido pelo escritor e professor piauiense   Dílson Lages Monteiro,  de  minha  produção  em jornais,  revistas   e livros. Em resumo, a minha correspondência  constituiu-se, no todo, mais    passiva do que ativa. A correspondência entre mim e papai tornou-se mais passiva, ou melhor, totalmente  passiva, porque a minhas família  não cuidou  do acervo  maior de meu pai. Nenhum membro da família poderia  ter sido  mais indicado  do que eu  para  guardar, a sete chaves, o  seu acervo,  os livros,  os  excelentes dicionários de latim,  francês, inglês.

         Os volumes de literatura brasileira, portuguesa,   gramáticas latinas, duas gramáticas  inglesas,  respectivamente,  dos autores   Frederico Fitzgerald e Jacob Bensabat,   uma obra   valiosa  para aprender  inglês,  de M.  de Oliveria Malta,  outra do  grande autor didático para o ensino do inglês,  J.L.Campos Jr. Outra ainda  do  grande   autor   de livros didáticos  de francês e inglês, o filólogo J. de Matos Ibiapina, este um dos co-fundadores da Academia Brasileira de Filologia (ABrafil ), da qual sou  membro efetivo,cadeira nº  30;  as  valiosas gramáticas latinas  de Mendes de Aguiar  e  de Ladislau Peter;   um tratado de filosofia em italiano,  ensaios em francês, ficção de autores russos, livros de ensaios de literatura  brasileira,  um de literatura francesa  da velha  coleção Berlitz, outro de mesma  coleção   para o ensino de inglês,  tratados de  filologia e, principalmente,  os referidos  artigos  das décadas  de 1920 a 1950.

       Quando adolescente em Teresina,  eu  era uma espécie de  “warder” voluntário do acervo de  Cunha e Silva, do já conhecido “quarto-biblioteca” descrito no meu livro Apenas  memórias (2016).  O que haveria de ser  encontrado nos seus  arquivos   pessoais,    não sei  onde está. Que pena! Os artigos   mais antigos   de meu pai  foram  colocados   em duas caixas grandes de papelão que ficavam  em cima das duas  estantes altas e entupidas de livros da melhor qualidade,  os   formavam a sua  modesta  biblioteca. (Continua)