O homem de vidro, romance histórico neomedieval de Américo Venâncio
O homem de vidro, romance histórico neomedieval de Américo Venâncio

Entrevista: Américo Venâncio e o gênero neomedieval no Brasil

 

Décio Torres Cruz*

 

Com sua ficção histórica, o escritor e professor Américo Venâncio Lopes Machado Filho inaugura um novo gênero literário no Brasil que podemos denominar de “neomedieval”. Seguindo uma trilha iniciada com o romance O nome da rosa (1980) do escritor, medievalista e semiólogo italiano Umberto Eco, Américo Venâncio nos apresenta um estilo bastante original, tornando-se pioneiro no País.

 

Apesar de o escritor mineiro Guimarães Rosa ter usado arcaísmos em Grande Sertão: Veredas e de Américo Venâncio fazer uma referência sutil a este livro no final de O Recobramento de Pelágia, Rosa não recriou o ambiente medieval, limitando-se ao uso de algumas expressões antigas do português, e criou palavras novas, muitas delas trazidas de línguas estrangeiras, como procedeu James Joyce na língua inglesa em seu Finnegans Wake. Coincidentemente, o português medieval utilizava algumas palavras (pero, jalnes, destra, sinistra etc.) que soam como e se parecem com palavras atuais em outras línguas, como francês, espanhol e italiano, palavras medievais que Venâncio retoma em seus livros.

 

De modo similar a Eco, mas diferente de Rosa, Américo Venâncio parte de narrativas encontradas em documentos medievais e recria essas histórias, utilizando o cenário, o vocabulário, a cultura e a estrutura encontrados nos textos deste período sem que o leitor contemporâneo encontre  qualquer dificuldade em sua leitura que não possa ser resolvida com uma busca rápida no Google e nos dicionários online. A novela neomedieval O Recobramento de Pelágia (2025) foi lançada concomitantemente no Brasil e em Portugal pela Ipê das Letras e Atlantic Books. O romance neomedieval O Homem de Vidro, também lançado em 2025 pela Uiclap, foi vencedor do Prêmio Ecos da Literatura 2026, na categoria Melhor Livro Original 2025. Ambos são textos que impressionam não só pelo estranhamento que a linguagem pode causar no leitor contemporâneo, mas, especialmente, pelo estilo bastante inusual e criativo adotado pelo autor e pelas surpresas que os dois textos vão nos proporcionando enquanto vamos prosseguindo na leitura. Os dois livros também se destacam pelas técnicas narrativas que criam um novelo textual que atrai e prende a atenção do leitor para o seu desdobramento, impulsionando-o a prosseguir com sua leitura até o desfecho final. Além disso, o autor faz uso de surpreendentes e extraordinários plot twists.

 

A seguir, vocês encontrarão a entrevista que o autor concedeu à nossa coluna.   

 

 

  1. Como professor e pesquisador, você trabalhou durante muito tempo com estudos da língua (e literatura) portuguesa medieval, linguística histórica, lexicografia histórica, história da língua portuguesa, português arcaico, e edição de manuscritos medievais. Quando teve início sua paixão por este período?

 

A. V.: No retorno de um curso de especialização em Literatura Comparada, que realizei, na condição de bolsista, em Portugal, querendo dar continuidade à minha formação acadêmica, inscrevi-me no final do ano de 1996, ainda na condição de aluno especial, no Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, da UFBA, na disciplina LET 666 A língua portuguesa das origens ao período arcaico, ministrada por uma das mais respeitadas especialistas na área, a professora Rosa Virgínia Mattos e Silva. Estava eu, então, a partir daquele momento, destinado a penetrar em um universo de um conhecimento, que ignorara quase completamente: o passado remoto da língua, nomeadamente seu período arcaico, seus processos de variação e mudança, a partir da leitura de manuscritos medievais raros, sob a batuta de uma disciplina que tinha o número da Besta, como registro (666). Traçava-se, assim, uma trajetória que iria definir toda minha existência acadêmica, nos âmbitos do ensino, da pesquisa e da extensão.

 

  1. O que o levou a passar da escrita do ensaio crítico-teórico ao romance histórico, tendo personagens e cenários da época medieval como temas?

 

A. V.: Durante a realização de minha formação stricto sensu, na pós-graduação da UFBA, mestrado e doutorado, e depois nos pós-doutorados realizados no exterior, para além de analisar, na condição de linguista, os processos de variação e de mudança, julguei que havia uma necessidade de renovação do espólio existente e passei a investigar a documentação medieval que ainda se encontrava inédita, isto é, que códices havia em arquivos históricos que ainda restavam sem qualquer tipo de edição filológica ou, sem uma transcrição com critérios condizentes ao trabalho de investigação da história da língua, nos modelos teóricos da linguística que eu praticava. Isso fez com que tivesse tido acesso a obras raríssimas, algumas delas de codex unicus, ou seja, obras de que se conheciam, até aquele momento, um único testemunho manuscrito, sem ter merecido qualquer leitura de base filológica. Dois deles merecem destaque: O Flos Sanctorum, do século XIV, única versão existente, e Os Diálogos de São Gregório, também do século XIV, de que se conheciam apenas três versões em língua portuguesa, todas variantes, até a minha intervenção com essa descoberta. Quando comentava com meus alunos em sala de aula sobre a riqueza estrutural do português arcaico, com exemplos extraídos dos textos que editei, alertava para a beleza textual desses códices e para a necessidade de se resgatarem alguns de suas histórias e narrativas, muitas das quais fantásticas e extremamente aliciantes. Dizia que algum estudante interessado na literatura medieval deveria utilizar esse material e trazer à luz da contemporaneidade os modelos das mentalidades da época. Ninguém jamais se interessou por isso. Como sempre convivi com um dos pés na Literatura, planejei, a partir do início de minha aposentadoria em 2003, voltar a escrever textos literários, produzindo em dois anos três novelas: duas medievais, O Recobramento de Pelágia e O Homem de Vidro, e uma novela existencialista, de pretensa voz feminina, intitulada Memórias da Ausente, um monólogo sobre a morte em vida, em sociedade. Quanto às duas primeiras, embora me tenha baseado nos textos medievais que editei, nomeadamente os quatrocentistas, anteriormente citados, criei uma narrativa que não corresponde à essência estrutural linear nem temática de nenhum desses manuscritos, já que me reaproprio de seus discursos com a voz ativa de um narrador, buscando trazer o passado como um modelo de compreensão dos anseios do homem contemporâneo.

 

 

  1. Em O nome da rosa, o medievalista e semiólogo Umberto Eco adotou o tom, o ritmo e a estrutura dos cronistas da Idade Média, e escreveu um trabalho fantástico de mimetismo linguístico. Especialista no período medieval, você não somente escreve sobre este tema, como também intercala a linguagem do período, procedendo de forma similar àquela utilizada por Eco, tendo o cuidado de deixar a língua compreensível para o leitor contemporâneo. Existem outros escritores brasileiros ou estrangeiros que procedem de forma similar? Se sim, quem foi sua principal influência neste gênero?

 

A. V.: Nas minhas novelas medievais já publicadas e nas que ainda se encontram em produção, como O Monge Confesso, em andamento, me aproprio de estruturas lexicais, morfológicas, morfossintáticas e sintáticas, que investiguei, para permitir que a mentalidade do homem medieval se perceba também pelos elementos disponibilizados pela língua em uso naquele período. O leitor comum pode mesmo, em alguns trechos, ter alguma dificuldade de entendimento, que pode ser facilmente sanada se recorrer a um dicionário especializado, a exemplo de meu Dicionário Etimológico do Português Arcaico, que também publiquei. Mas o mais importante é que se possa difundir que estruturas linguísticas, que possam hoje ser consideradas “incorretas” pelos detentores das “verdades da língua”, foram, em algum momento da história o real padrão da escrita. Ninguém diria “seenço”, por silêncio, “probrema”, por problema, “soterranha”, por subterrânea, ou mesmo “siia”, por estava, sem que o estigma do erro lhe pudesse perseguir. Quando um falante de normas vernáculas diz “broco”, por bloco, é condenado ao degredo linguístico, por aqueles que desconhecem a história da língua. Pelos mesmos senhores do poder que, se tivessem o verdadeiro conhecimento das tendências históricas do português, jamais estariam autorizados a dizer “prazer”, já que se trata do mesmo fenômeno de rotacismo existente em “broco”, pois seu étimo latino é “placere”, com <PL> e não <PR>, portanto. Veja que todos aceitam a forma “chão” e a intercalam com seu latinismo tardio “plano”, sem qualquer pudor. Por isso é importante resgatar a história da escrita em língua portuguesa, através da literatura, que tem o poder de encantar leitores. Quanto a outros escritores que fazem uso desse tipo de material histórico, só me lembro de Guimarães Rosa, sobretudo no uso do léxico do português arcaico, que ele bem conhecia. Aliás, Rosa, o Guimarães, e a Virgínia, minha grande mestre, parecem que serviram sempre de baliza intelectual para mim.

 

  1. Você é um escritor eclético que adota diversos gêneros: Ensaios teóricos, estudos linguísticos, dicionários, conto, novela, romance, poesia, e livro infantil. Como você classificaria a sua escrita ficcional?

 

A. V.: Sinceramente, ainda não me consegui classificar como gente, mesmo depois dessa longa jornada de 66 anos. Como trabalho com variação e com mudança, sou mais ou menos como “uma metamorfose”, como diria Raul Seixas, mas não tão “ambulante”.

 

  1. Em O recobramento de Pelágia (Ipê das Letras, 2025), você utiliza seu conhecimento do período medieval e combina elementos extraídos de documentos reais ao texto ficcional. Em resenha para o blog HH Magazine Humanidades em Rede, Thiago Pinho compara sua obra a de escritores como Dostoiévski e a classifica de “literatura iconoclasta, uma forma de escrita ousada, ácida e perigosa” e percebe uma “estrutura ‘nietzschiana’ de narrativa” em seu livro que ele descreve como “uma espécie de psicanálise literária, talvez uma busca pelo inconsciente religioso, aquilo que escondem, aquilo que temem, aquilo que negam, aquilo que são, mas não confessam”. Discorra um pouco sobre este romance e como surgiu a sua ideia.

 

A. V.: A ideia presente em “A Vida de Sancta Paaya”, leia-se hoje “Pelágia”, no seu formato latinizante, que se encontra nos fólios 17v, 14r-v, 1r-v, 2r-v e 3r, do Flos Sanctorum, é de alguma forma subvertida por mim na sua estruturação textual, assim como na inserção da maior parte dos fatos presentes na novela, pois não fazem parte do original. Até o narrador original da história de Pelágia, que é Jacobo, passa a ser personagem apenas. Ele é substituído por um escritor ácido e contestador da pretensa verdade, camuflada nos mitos e ritos da narrativa. O que o resenhador citado diz de a novela se tratar de uma “psicanálise literária” traz algum grau de razão, pois busco sempre criar as condições para que o leitor desconfie do que se defende nas bocas de cada um dos personagens, procurando, a partir de suas verdades, toda a inverdade que os assombra. Afinal, a própria Pelágia é aquela que é obrigada a se abandonar em prol de um amor que jamais pôde revelar. A ideia de usar a história de Pelágia como condutor desse, por assim dizer, texto existencialista histórico-medieval, decorreu da necessidade que tinha de tratar a questão da identidade de gênero e a dificuldade pela qual passara, e continuam passando as mulheres para um reconhecimento de sua “santidade” humana.

 

  1. Sua novela O homem de vidro (UICLAP, 2025) conquistou recentemente o importante Prêmio Ecos da Literatura. Fale um pouco sobre a concepção, o desenvolvimento, e dificuldades encontradas no percurso da escrita deste livro.

 

A. V.: O Homem de Vidro foi a terceira novela, das que produzi em dois anos. Mereceu da Comissão Julgadora do Prêmio Ecos da Literatura o primeiro lugar em Melhor Livro Original 2025, em 2026. Diferentemente de O Recobramento de Pelágia, O Homem de Vidro parte da perspectiva masculina, de um homem misterioso que só se vai revelando aos poucos, durante sua trajetória pelo deserto em busca do autoconhecimento. Quis fazer uma obra que pudesse refletir os conflitos que se constroem em torno do que se convencionou chamar de condição humana e na crença ou não a uma divindade, sem que o leitor tenha acesso direto e imediato a essa questão e não possa ter a mínima ideia do que venha depois de cada capítulo, conquanto todos estejam diretamente interligados até o termo da narrativa. Nesse livro imponho uma reflexão maniqueísta e solitária a meu leitor, em função do que o personagem sem nome se lhe possa oferecer em sua jornada de dúvida e de mistério. Proponho também um deslocamento da Idade Média para o espaço africano, pois parece ser do senso comum que quando se fala em Idade Média se pensa imediatamente na Europa. O real e o imaginário também se confundem na obra a ponto de, na página 113, constar: “Minha vida tinha sido assim, cheia de inconstâncias, contradições e de fatos inusitados, embaralhando em minha mente o que julgava real ou mesmo lógico ao que efetivamente se passava de extraordinário à minha volta”.

 

  1. Qual a importância de prêmios literários para um escritor e o que isto significou para você: Reconhecimento, boas vendas?

 

A. V.: Escrevo porque preciso escrever. Pinto porque preciso pintar. Toco porque gosto de música. À exceção da música, a escrita e a pintura precisam, na minha ótica, de outros olhos para existir. Não preciso que me ouçam tocar, pois toco para mim. Mas não escrevo nem pinto para meus olhos. Quero deixar marcas do que pensei, de como interpretei a vida, do que julgo ser importante para as pessoas. Mas parece que o mundo inteiro passou a escrever e não há tantos leitores disponíveis, sobretudo no Brasil. Por isso, um prêmio é uma forma de dar visibilidade, de impor algum grau de confiança a quem queira se arriscar a ler um escritor ainda desconhecido. Não creio que o Prêmio Ecos da Literatura já me tenha dado algum reconhecimento e não sei se me dará. Isso vai depender de muitas variáveis, que só o tempo vai revelar. Por enquanto, as vendas são pequenas, mas com alguns poucos feedbacks de gentis leitores.

 

  1. Você percebe um crescimento do interesse por temas e pelo período medieval na literatura, mangás, filmes e séries atuais? Se sim, a quê você atribui este fato?

 

A. V.: Acho que a Idade Média é um dos períodos mais instigantes da história ocidental, juntamente com a Antiguidade. Há muito mistério, muito mito, muita curiosidade, sobretudo quando se viaja e se vai à Europa. A questão é que na literatura as pessoas precisam saber da existência de obras voltadas a esse período, mas infelizmente as editoras não criam estratégias para colocar os potenciais leitores em contato com trabalhos dessa natureza. A distribuição de filmes e de séries é feita sobre uma ótica correta que busca apresentar a um mercado carente temas como os do medievo que têm por onde escoar. Na literatura, vive-se à espera de milagres.

 

  1. Acrescente algum comentário que você gostaria de fazer e sobre o qual não foi perguntado.

 

A. V.: Creio que me resta agradecer a generosidade e elogiar a sua sagacidade nas perguntas. Forte abraço.

 

 

Sobre o autor

 

Américo Venâncio Lopes Machado Filho é escritor, professor titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, aposentado. Titular da Cadeira 53 da Academia Brasileira de História e Literatura (ABHL). Dedica-se atualmente à literatura, à pintura e ao estudo da música. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia (2004), Pós-Doutorado na Universidade de Coimbra (2006), na Université Paris 13 (2010) e Estágio Sênior, na Universidade de Coimbra, com bolsa da CAPES (2017). Sua vida acadêmica foi dedicada à pesquisa em Língua Portuguesa, com ênfase em linguística histórica, lexicografia histórica, história da língua portuguesa, português arcaico, e edição de manuscritos medievais, que resultaram em diversas obras publicadas. Em 2025, publicou três livros de ficção: a novela medieval O Recobramento de Pelágia, concomitantemente no Brasil e em Portugal), pela Ipê das Letras e Atlantic Books; a novela existencialista Memórias da Ausente: monólogo da morte em vida em sociedade; e o romance medieval O Homem de Vidro, pela Uiclap, São Paulo, vencedor do Prêmio Ecos da Literatura 2026, na categoria Melhor Livro Original 2025.

 

 


* Décio Torres Cruz é escritor premiado, membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia Contemporânea de Letras de  São Paulo, da Academia de Letras e Artes do Rio de Janeiro e membro correspondente da Academia Petropolitense de Letras. Autor, dentre outros, de Viagens & travessiasA poesia da matemáticaHistórias roubadas Paisagens interiores.