MARCOS FABRÍCIO LOPES DA SILVA
MARCOS FABRÍCIO LOPES DA SILVA

>> 𝗕𝗢𝗖𝗔 𝗟𝗜𝗩𝗥𝗘: Brasília-DF, 26 de junho de 2026.

𝗗𝗘𝗠𝗢𝗖𝗥𝗔𝗖𝗜𝗔 𝗩𝗘𝗥𝗗𝗘

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

 

Entre os sistemas políticos, a democracia é o que mais demonstra capacidade de transformação e evolução. As culturas democráticas possuem mecanismos internos para corrigir falhas, superando limitações conceituais diante dos desafios da interdependência global. Por meio de debates e consensos, conseguem lidar com a complexidade e a diversidade de opiniões e experiências, encontrando soluções relativamente seguras para o futuro da humanidade. No cenário internacional, a democracia moderna já evidenciou sua aptidão para enfrentar problemas ambientais e dialogar com sistemas políticos menos adaptáveis.

Num cenário profundamente alterado pela intervenção humana na natureza, a democracia política procura ajustar-se às novas condições. A proximidade das crises climáticas extremas e do aquecimento global pode estimular um sentimento renovado de solidariedade mundial. Nesse contexto, instituições democráticas tradicionais têm a possibilidade de serem reformadas e modernizadas para enfrentar riscos existenciais inéditos e os desafios que deles decorrem. A reflexão conduz à ideia de uma democracia verde. Nesse modelo, o cidadão isolado e mal informado tende a perder relevância. Apenas indivíduos livres, conscientes e bem instruídos podem redefinir o papel da democracia em um tempo em que o futuro da humanidade depende cada vez mais de si mesma e de padrões que superem o individualismo possessivo. Assim, a presença de uma cidadania esclarecida e de grupos ativos, em diferentes dimensões, torna-se essencial para sustentar o processo democrático e para que os cidadãos possam alcançar seus objetivos.

A democracia ecológica não se impõe apenas pelo reconhecimento dos perigos que rondam a ecologia planetária, mas nasce da força das reivindicações de cidadãos educados para compreender e enfrentar os desafios ambientais. A sobrevivência tanto da democracia quanto do mundo exige a criação de vínculos em larga escala com diversos atores, sobretudo na esfera ecológica, sem limites territoriais. Somente uma renovada democracia verde, dotada das qualidades necessárias, pode conduzir de maneira equilibrada os acontecimentos globais. Esse projeto busca expandir-se internacionalmente, fomentar consensos, dissolver fronteiras e engajar a humanidade na defesa entusiástica do meio ambiente.

 

Pode ser uma imagem de ‎uma ou mais pessoas, barco e ‎texto que diz "‎epood ভা DIEGO MENDES SOUSA Igaraçal سمانا فدنهد‎"‎‎

Em Igaraçal (2026), o poeta Diego Mendes Sousa sustenta a literatura como meio de preservação e de diálogo entre o humano e o planeta. Entre o local e o cósmico, o eu-poético retrata as águas em uma moldura ensolarada. O sentimento expresso pelo autor ao longo do livro muito se assemelha com a concepção de 𝘣𝘪𝘰𝘧𝘪𝘭𝘪𝘢. Trata-se de um termo criado pelo psicanalista e sociólogo alemão Erich Fromm (1900-1980) nos anos 70 e significa “o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo”. No caso de Diego Mendes Sousa, sua poesia sublinha a tendência essencial do ser humano de se integrar à natureza, marcada por conexões físicas e emocionais com outros seres vivos.

“Hoje penso!/Sou terra em abundância./Couro seco de boi/Para a minha terra./No rio do céu./No rito rebocador/do curso/que se salga no mar./Creio: sou água corrente,/bucho de peixe/do rio Igaraçu,/que rega a terra/na secagem do sol./No céu espelhado do rio,/a terra,/sempre as toras da terra/e a vagação nas sombras/das lamparinas invisíveis/da torrente”. Em Chinelos do mar, Diego Mendes Sousa apresenta um contraponto ao processo de urbanização, destacando como a degradação da paisagem natural — poluição da água, do solo e do ar, além da destruição de ecossistemas — tem provocado uma dissociação generalizada e o enfraquecimento dos vínculos entre as pessoas e a natureza. O “teatro agônico”, termo cunhado pelo poeta, parece significar a dramatização dos conflitos existenciais e sociais, em que a linguagem se torna palco de tensões entre vida e morte, esperança e desespero, natureza e cultura.

Frente às ameaças à sobrevivência da humanidade, Igaraçal, de Diego Mendes Sousa, propõe o desenvolvimento de uma consciência ambiental abrangente e responsável, que valorize e preserve as conexões criativas entre o homem e o espaço vital, articulando meio ambiente, cultura e literatura, em diálogo com outras artes e saberes. O poeta aborda as conexões entre literatura e meio ambiente de forma ampliada, indo além da denúncia da degradação ecológica e destacando, em seu alerta implícito, um dos desafios mais cruciais para o futuro da humanidade. Definido por Ana Maria Bernardelli como “paradoxo luminoso”, o livro de Diego Mendes Sousa amplia a compreensão da diversidade contemporânea e inspira reflexões ambientais sensíveis diante das transformações globais. Em 𝘊𝘢𝘷𝘢𝘭𝘰, o poeta sustenta a dignidade humana, revitalizando a língua para dialogar com uma natureza ecologicamente disposta: “Meu caminho/é escrito/com papel mata-borrão./À deriva, a chuva banha o meu-ser-se-fiel/enquanto o relógio de algibeira/do destino/encerra as léguas/no infortúnio dos pés”.

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* Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Literatura do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, crítico 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023). Participante do Coletivo AVÁ e apresentador do Sarau Marcante.