Igreja matriz de Jerumenha
Igreja matriz de Jerumenha

Reginaldo Miranda[1]

Há mais de século e meio o capitão e comendador Antônio Ribeiro Soares, dorme o sono dos justos, desde seu prematuro falecimento em 9 de outubro de 1859, com apenas 54 anos de idade, na vila de Jerumenha, onde era abastado fazendeiro e importante prócer do partido conservador. Não mais existe a campa de sua sepultura, gasta pela ação do tempo. Foi figura de realce na repressão à Balaiada, assim reconhecido pelos contemporâneos e condecorado pelo Império, com a mercê de comendador da ordem de Cristo[2]. Foi um valente e destemido auxiliar do primo José Martins de Sousa, então comandante-em-chefe da Coluna do Oeste, em cujas fileiras combateu com destemor. Todos os historiadores que se preocuparam em relatar as marchas e contramarchas daquele movimento fazem alusões aos feitos desse honrado piauiense para combater os rebeldes e estabelecer a paz social. Nenhum lhe apontou opróbrios. No entanto, recentemente foi editado um panfleto denominado A Balaiada, de Clodoaldo Freitas, escrito em 1894, portanto há quase cento e trinta anos, onde externa seus traumas e recalques políticos com virulentos ataques ao visconde da Parnaíba e seus familiares, entre esses Antônio Ribeiro Soares, parente colateral e fiel aliado daquele governante. Freitas militou sem sucesso eleitoral no partido liberal, em cujas fileiras também militaram ao tempo de Ribeiro Soares, na vila de Jerumenha, seus parentes Gonçalo Manoel de Freitas e Matias Luís da Silva; mais tarde, o desembargador José Manuel de Freitas, respectivamente filho e genro desses dois últimos, vai se bater pela liderança política daquela vila com os descendentes de Ribeiros Soares, entre esses os deputados provinciais Horácio e Raimundo Ribeiro Soares, este último tendo se formado no Recife, na mesma turma do desembargador Freitas. Portanto, é por conta dessas querelas que Clodoaldo Freitas desfere duros golpes à memória de Antônio Ribeiro Soares e de seus parentes de Oeiras, onde também se lhes antepunha a família Freitas-Silva Moura. Por conta desses fatos vamos recompor a trajetória de vida e reavivar a memória desse obstinado fazendeiro, militar e político das barrancas do Gurgueia.

Antônio Ribeiro Soares, o moço, nasceu em 1805, na fazenda Lagoa Nova, situada no vale do rio Piauí, naquele tempo pertencente ao termo de Oeiras, depois passando sucessivamente aos de São Raimundo Nonato, São João do Piauí e Canto do Buriti. Foram seus genitores Antônio Ribeiro Soares, o velho, falecido em 24 de dezembro de 1805, na fazenda Lagoa Nova, deixando o filho órfão com poucos meses de vida e Josefa Maria da Conceição, esta falecida em 2 de maio de 1825, sendo o corpo sepultado na capela de Nossa Senhora da Conceição da Uíca, hoje pertencente ao termo de Floriano, naquele tempo de Jerumenha, deixando o filho com 20 anos de idade. Pelo costado paterno era neto de Gabriel Ribeiro Soares e Quitéria de Brito Pereira, residentes na referida fazenda Lagoa Nova, ambos filhos de colonizadores portugueses que desbravaram o rio Piauí e fundaram fazendas; ele filho dos portugueses Manuel Ribeiro Soares e Maria Josefa de Jesus, fundadores da fazenda da Onça, no alto curso do rio Piauí; ela filha de Francisco Xavier de Macedo e Felisbela Josefa da Purificação, fundadores das fazendas das Almas e Caiçara, vizinhas daquela.

Pelo costado materno era neto do capitão Gonçalo Francisco da Rocha, o velho, e de Maria Vieira de Carvalho, esta filha de Hilário Vieira de Carvalho, o moço e de Josefa Maria da Conceição[3]; trineto de Hilário Vieira de Carvalho[4], o velho e de Josefa do Rego Monteiro, fundadores e residentes na fazenda A Volta, no rio Canindé; e de Antônio Pereira da Silva e Maria da Purificação, casal português residente na fazenda Malhada, no vale do rio Piauí. Também, bisneto do português Manuel Alves da Rocha, da fazenda Craíbas, no Gurgueia, e de Ignácia da Conceição Miranda do Rosário, esta filha do capitão-mor de Oeiras, Domingos de Abreu Valadares e de sua esposa Francisca de Miranda de Vasconcelos do Rosário[5], residentes na fazenda Palmeira de Santiago, no rio Piauí, todos abastados fazendeiros e figuras de proa na política de sua época.

Ficando órfão de pai com poucos meses de nascido, Antônio Ribeiro Soares foi criado pela mãe e pelo padrasto Valentim Pereira da Silva, com quem mais tarde sua mãe convolaria novas núpcias. Era este primo materno da consorte, filho do capitão e ouvidor-geral Francisco Pereira da Silva[6] e de Izabel Francisca Soares[7]. Mais tarde, com a morte da genitora assume ele a administração de seus bens com vinte anos de idade, no que continuou sendo auxiliado pelo tio[8] e padrasto. Herdou de seu genitor substancioso patrimônio em terra e gado, que dividiu com a única irmã uterina, Maria Josefa da Conceição, que fora casada com o primo José Felipe de Miranda[9], também combatente na luta de repressão à Balaiada, quando foi nomeado comandante militar de Jerumenha. A herança materna foi dividida com mais três irmãos filhos do segundo consórcio de sua genitora: José Pereira da Silva, Ricardo Pereira da Silva e Ana Joaquina da Conceição, esta última também casada com o cunhado José Felipe de Miranda, depois da prematura morte da primeira esposa.

Não temos informações sobre a vida escolar de Antônio Ribeiro Soares, não tendo, porém, esta fugido à regra dos meninos de sua condição social, que se resumia em aprender a ler, escrever e contar. Era o suficiente para administrar o patrimônio familiar, comercializar os rebanhos anualmente nas feiras da zona litorânea e exercer os cargos públicos da municipalidade. Aprendiam mesmo com os genitores, no caso dele com o padrasto; com mestres convidados para ministrar aulas na própria fazenda e, às vezes, com o padre da freguesia. É possível que tenha recebido aulas com o padre da freguesia de Santo Antônio do Gurgueia, na vila de Jerumenha ou mesmo na cidade de Oeiras. No ano em que nasceu, seu primo Marcos de Araújo Costa, o famoso Padre Marcos da Boa Esperança, estava sendo ordenado sacerdote em Coimbra, mas somente retornou para Oeiras em 1813, abrindo a escola de Boa Esperança em 1820. Teria ele estudado com o primo ainda em Oeiras ou mesmo em Boa Esperança? É uma possibilidade. O certo, porém, é que se não era um homem culto possuía ao menos instrução mediana, no mesmo nível dos fazendeiros seus contemporâneos. Com essa instrução administrou seus haveres multiplicando-os, assentou praça na guarda nacional e ingressou na vida pública da vila de Jerumenha, onde seu padrasto exercia forte liderança.

De fato, logo depois da Independência do Brasil, de cujo movimento provavelmente não tomou parte ativa por ser ainda menor, alistou-se em um dos regimentos da capitania, depois também ingressando na guarda nacional, onde alcançou a patente de coronel e comandante superior do batalhão situado na vila de Jerumenha.

Por esse tempo convolou núpcias com a prima Maria Antônia das Neves Ribeiro (D. Mariquinha do São Dimas), filha do capitão Gonçalo Francisco da Rocha, o moço, e de Antônia Maria das Neves[10], esta conhecida por D. Antônia dos Prazeres, em alusão à fazenda onde moravam, também no termo de Jerumenha, hoje de Bertolínia. Desse consórcio deixou seis filhos, quatro varões e duas varoas, dois[11] deles e um genro[12] exercendo o mandato de deputado provincial; aliás dois deles estudaram na Faculdade de Direito do Recife, sendo que o primogênito bacharelou-se em 1858 e um mais novo faleceu às vésperas da formatura[13].

Vivia assim o então capitão Antônio Ribeiro Soares, cuidando de sua família e negócios, quando, em 13 de dezembro de 1838, estoura a Guerra da Balaiada, tendo seu início na vizinha povoação da Manga, do outro lado do rio Parnaíba, mas fronteiriça a outra povoação de igual nome, situada no termo de Jerumenha. Evidentemente, preocupou-se com a segurança de sua família, de seus conterrâneos e de seus haveres. Nessa altura, o presidente da província, seu primo Manuel de Sousa Martins, visconde da Parnaíba, convoca tropas para fazer frente aos rebeldes que salteavam a província do Maranhão e constantemente ameaçavam a fronteira piauiense. Ribeiro Soares não teve dúvidas, mandou pegar a cavalaria, reuniu os vaqueiros e agregados e apresentou-se no front de luta. Disse ao governo que estava pronto para servir à pátria, com sua vida e fazenda. Assim foi.

Para fazer frente aos rebeldes, disse Clodoaldo Freitas “o Visconde da Parnaíba abriu um assíduo e vigoroso recrutamento e deu os primeiros postos de comando das forças aos seus parentes mais conjuntos. Dividiu essas forças em três colunas que chamou de Norte, Sul e Oeste. A do Norte foi posta sob o comando de seu sobrinho capitão Antônio de Sousa Mendes, o qual partiu para Campo Maior; a do Sul foi entregue a seu sobrinho major José Martins de Sousa, prefeito de Parnaguá; a de Oeste ao major Manuel Clementino, que  na ação devia agir dentro do Piauí. Seu objetivo era Caxias cercada pelos rebeldes, aos quais devia bater e persegui-los no Maranhão de acordo com os dois outros chefes das forças piauienses. O desenrolar dos acontecimentos deu outra direção a essa marcha desordenada, como veremos adiante”[14].

Embora com essa organização inicial pode-se dizer que o então major José Martins de Sousa, comandou a coluna que agiu no sul do Piauí e Maranhão, denominada Coluna do Oeste. Dela fez parte e atuou com denodo o então capitão Antônio Ribeiro Soares. Segundo Clodoaldo Freitas, “ao receber a investidura de chefe, José Martins, então prefeito de Parnaguá”, fez uma proclamação mas esta “não induziu a população a alistar-se nas suas fileiras; mas o prefeito com seus agregados e alguns recrutas arranjou uma tropa com que pôs-se em marcha para a Manga, onde devia esperar o reforço, as munições e ordens do seu querido tio, o Visconde da Parnaíba”. Em seguida “dividiu suas forças em duas companhias, das quais eram comandantes os capitães Antônio Ribeiro Soares e [Domingos Antônio] Piauilino, ficando ele com o comando da cavalaria”.

De fato, Antônio Ribeiro Soares aguardou em Jerumenha a chegada de José Martins, que vindo da vila de Parnaguá, onde exercia o cargo de prefeito, descia o Gurgueia com sua tropa, ali incorporando-se com os seus à mesma tropa. Em seguida, se dirigiram à Manga, onde promoveram diversas diligências. Ali acampados, em janeiro de 1840, receberam o capitão Domingos Antônio Piauilino, que por ordem do presidente da província, trazia munições, um corpo de 117 homens, entre componentes da guarda nacional e da 1ª linha e instruções militares. O comandante José Martins, dividiu então a tropa em duas companhias, respectivamente comandadas pelos capitães Ribeiro Soares e Piauilino, ficando ele com o comando da cavalaria. Então, por frentes diferentes abriram fogo contra os rebeldes que estacionavam do outro lado do rio Parnaíba, que depois de renhido combate fugiram para o porto dos Veados, hoje Artur Passos, quatro léguas rio acima, onde se incorporaram a outros rebeldes ali estacionados. Seguindo-se-lhes as tropas legais montaram acampamento do lado piauiense, defronte aos rebeldes que se encontravam acampados na outra margem do rio, na fronteira maranhense, sendo o rio ali estreito e fundo. Por dias permaneceram as tropas antagônicas se injuriando e trocando tiros isolados e inofensivos, no dizer de Clodoaldo Freitas. Então, aproveitando-se de sua estada naquela região mandou o comandante José Martins uma expedição pela região adjacente para averiguar a situação e bater coiteros e rebeldes isolados. Ao mesmo tempo enviou à fazenda Buritizal, no vale do rio Uruçuí Preto, o capitão Antônio Ribeiro Soares com cerca de 80 praças a fim de observar as disposições do fazendeiro José Pereira da Silva Mascarenhas, simpático aos rebeldes. No entanto, a cerca de dez léguas de viagem torceu caminho pela fazenda Jucurutu, por lhe constar que o proprietário dela, capitão Antônio Pereira d’Ávila se comunicava com os rebeldes. Ali chegando tentou prendê-lo, encontrando resistência, de que resultou na morte do fazendeiro e de mais quatro aliados deste. Essa é a versão que foi comunicada ao governo pelo comandante da Coluna[15]. No entanto, Clodoaldo Freitas, sem citar fontes e ancorado apenas na memória oral de desafetos políticos diz que “o capitão Ribeiro cercou a casa e dela arrancou todos estes homens, amarrou-os como criminosos e os tocou para o acampamento”; matando-os a caminho com tiros e cutiladas[16]. Em seguida Ribeiro Soares se dirige “à Barra do Uruçuí, a destroçar um grupo que se reunia no Alegre”. Pressentindo sua chegada apressaram-se esses em atravessar a nado e em pequenas embarcações, o rio Parnaíba, tendo o militar legalista matado dois e tomado-lhes doze cavalgaduras “e a ridícula bagagem que tinham”[17].

Enquanto esses fatos se sucediam os rebeldes balaios recebiam reforços e munições, assim reforçando suas posições do lado maranhense. Era iminente que desfechassem seu ataque ao acampamento das forças legais. Então, por medida preventiva ao retornar o capitão Ribeiro Soares, concertou com seu comandante e demais oficiais antecipando-se ao ataque iminente. Abrigados pelas trevas da noite marcharam os capitães Piauilino e Ribeiro Soares, transpondo o rio meia légua acima do acampamento, na madrugada do dia seguinte. Conforme o plano traçado atacaram o acampamento rebelde pela retaguarda, do lado maranhense, enquanto o major José Martins atacou pela frente, mediando o rio entre eles. “O ataque teve lugar, de fato, ao primeiro clarão do dia. Depois de pequena, mas obstinada resistência aos dois fogos combinados, os balaios fugiram para a Manga, deixando no campo para mais de 40 mortos. As tropas legais perderam 12 mortos e alguns feridos. Findo o combate o comandante mandou queimar umas 60 palhoças que haviam sido construídas no acampamento dos Veados, ficando muitas famílias na maior indigência e desolação”, diz Clodoaldo Freitas.

No encalço dos rebeldes seguiram as forças legais para a Manga, onde os atacaram de surpresa, batendo-os em vivo fogo cujos estampidos ecoavam pelas chapadas, fazendo-os porem-se em retirada, não sem deixarem 6 prisioneiros e 60 mortos e feridos no campo de batalha. Durante os quinze dias seguintes as forças legais comandadas por José Martins, Piauilino e Ribeiro Soares, empreenderam diversas expedições para prenderem os fugitivos e arrumarem matalotagens. Nisso tudo Clodoaldo Freitas vê feiura, desonra, quando os militares cumpriam seu dever cívico demonstrando grandeza e bravura.

No entanto, chegando a eles “aviso de que os rebeldes se estavam fortificando na povoação dos Patos, termo de Pastos Bons” o “comandante deu ordens para os preparativos da marcha, nas quais dispendeu quatro dias. Afinal abalou-se com todas as suas forças, gastando dois dias e meio para vencer as 16 léguas que vão da Manga aos Patos, onde o inimigo, depois de simulada resistência, fugiu, deixando cinco mortos e 15 prisioneiros, que foram imediatamente fuzilados”. Demorando-se na povoação dos Patos, que tomou aos rebeldes, conforme se disse, durante dois dias, ao partir para a vila de Pastos Bons, mandou queimar as palhoças que arderam em chamas, anotou Clodoaldo Freitas. Porém, para empreender essa marcha seguiu o major José Martins com o capitão Piauilino pelo lado maranhense e o capitão Ribeiro Soares com 130 praças, pelo lado piauiense, a fim de irem batendo pelas duas margens do rio Parnaíba, combinando de se encontrarem na fazenda Sussuapara, onde Martins chegou a 5 de fevereiro daquele ano de 1840. No entanto, o capitão Ribeiro Soares teve sua marcha embaraçada porque “foram inesperadamente atacados na praia por uma multidão de rebeldes, ao tempo em que a mor parte da tropa ainda se achava do lado oposto, podendo por isso os malvados apoderarem-se de 7 armas, e da munição dos soldados que se achavam ocupados com as canoas, pelo que contando eles isto por uma grande vantagem, carregaram sobre o dito capitão, o alferes Antônio Martins da Rocha[18] e 4 soldados que se defenderam valorosamente; porém - disse o major e comandante José Martins -, providenciando eu logo (que me achava meia légua distante) com aquela presteza, que exigiam as circunstâncias, pude conseguir dispersá-los daquele lugar, com o prejuízo das armas, munição, e 4 feridos; perdendo eles 4 que ficaram mortos no campo, efetuando-se ultimamente a passagem da referida tropa; durando este ataque desde as 4 horas da tarde até quase as 6. – Ufanos os inimigos por terem aumentado o nº das suas armas, e munição, aproveitando-se da escuridão da noite, e das espessas matas que circundavam o meu acampamento, deram-me cerco na distância de 660 passos, e na manhã do dia seguinte romperam o fogo, que foi o mais vivo, que tenho sustentado na minha Coluna; no qual perdeu a Legalidade um 1º sargento, e 2 soldados, além de 12 feridos; e dos rebeldes ficaram 9 mortos no campo, de que nos apoderamos, não podendo conseguir maior vantagem, por se evadirem como costumam”[19].

Na fazenda Sussuapara teve um incidente porque o major Martins teve de prender seu proprietário, o rico e octogenário português Domingos do Espírito Santo, que havia fugido para a mata logo que avistara a tropa do governo. Em sua fazenda encontraram correspondências e canoas dos rebeldes. Seu filho, o major Victório do Espírito Santo era um importante líder dos balaios.

Por esse tempo uniu-se às tropas legalistas do Piauí um contingente de 600 homens capitaneados pelos capitães Francisco de Sousa e Cunha e Bento José Moreira, de Ribeirão da Lapa, no Maranhão[20]. No dia seguinte, 8 de fevereiro se encaminharam para a vila de Pastos Bons, que estava tomada e fortificada pelos rebeldes, o quais depois de ligeiro combate bateram em retirada deixando para trás um ferido e quatro mortos[21].

Em 13 de fevereiro mandou o comandante uma expedição de 500 homens comandada pelos capitães Domingos Antônio Piauilino e Antônio Ribeiro Soares, “para bater as forças combinadas dos rebeldes Victório, Correia, e Valério (Majores), Pio, Santa Ana, Luiz Ignácio, Polidoro, Mariano, Marcos (Capitães) e outros, que acossados talvez pelas forças de baixo vinham subindo, e se achavam a 4 léguas de distância desta vila, no lugar denominado Sobradinho; não obstante o vivo fogo que sustentaram, os nossos se apoderaram do campo com a perda do denodado, e nunca assaz lamentado capitão Piauilino, 2 soldados, e muitos feridos; perdendo eles 8 que ficaram mortos, e 2 prisioneiros. Não obstante terem os nossos ficado Srs. do campo, como fica dito, foi-me pedido socorro, o que hoje pela manhã prontamente mandei[22], visto que receavam serem cercados pelo inimigo, cuja desconfiança não foi infundada; porque na ocasião que acabava de chegar o socorro, romperam eles o fogo, e avançando com o maior furor sobre os nossos, e estes defendendo-se com aquela coragem própria de homens verdadeiramente livres, e que pugnam pela causa da razão, e da Justiça, não puderam sustentar-se pela falta de munição, cedendo por isso a posição, que já haviam ganho à custa de tanto sacrifício; e eu sem poder remediar por se achar esgotada toda quanta havia, não só de mosquetaria, como da peça, pelo que me acho na mais triste colisão, esperando o inimigo a cada momento, e sem ter com que repelir sua ousadia. Tivemos muitos mortos, e feridos entre os quais o capitão Bento José Moreira, e os alferes José Egídio da Costa Alvarenga e Leocádio da Costa Nunes; não podendo dar ao certo o nome de todos por ser já 11 horas da noite, e não restar tempo ainda para se passar revista por Companhias. Presumo que hoje queimaram-se para mais de 6$000 cartuchos; por isso que V. Exa., esforce-se quanto puder para me fazer remessa com a possível brevidade da maior porção que puder, assim como de munição para a peça, na certeza de que nenhuma das coisas mais resta; e quando seja aqui atacado me verei na dura precisão de retroceder a minha marcha, atravessando o Parnaíba para o lado na nossa Província”[23].

Sem munição para manter-se em Pastos Bons numa força respeitável, retirou-se para o porto dos Veados, aquém do Parnaíba, o dito major José Martins de Sousa. Fez que as 600 praças comandadas pelos senhores capitães Cunha e Bento José Moreira se fossem reunir-se ao Sr. tenente-coronel Diogo Lopes[24], que perseguia aos rebeldes evadidos para Grajaú[25].

De fato, carentes de munições as forças piauienses refluíram para a divisa piauiense deixando a vila de Pastos Bons e alcançando o rio Parnaíba na localidade Pedrinhas, onde hoje viceja a cidade de Nova Iorque, às 8 horas da noite. Embora o rio ali fosse estreito e fundo para o serviço de passagem existia apenas uma pequena e péssima canoa, que não lhes proporcionou segurança para a travessia. Então, ao romper do dia seguinte subiram pela margem ocidental do rio até a passagem conhecida por porto de Veados, hoje Artur Passos, onde atravessaram o rio alcançando o município de Jerumenha, do lado piauiense. Nessa altura chegou-lhes de Oeiras um grande comboio com a munição precisa e o mais de que precisavam, reforçando-lhes as forças. Foi quando chegou notícia de que no termo de Parnaguá, os irmãos Manuel Lucas de Aguiar e Sebastião de Aguiar, abastados fazendeiros residentes na fazenda Saco, daquele termo haviam aderido à Balaiada e se achavam à frente de 600 homens[26]. Inclusive, de que haviam convidado para sua companhia ao rebelde Vicente Bezerra e outros, afiançando-lhes que ali encontrariam amplos socorros de gente e munição. Então, o comandante José Martins, que tinha fazendas naquele termo, temendo que sobre elas se lançassem os rebeldes, pôs-se em marcha para aquele termo. Para isto despachou o capitão Antônio Ribeiro Soares, com 120 praças pelo lado d’além Parnaíba, combinados de se encontrarem em determinado ponto, seguindo ele com igual número pelo d’aquém; seguindo pelo rio Gurgueia acima, ao alcançar a vila de Jerumenha deixou para sua segurança um destacamento com a peça sob o comando do major José Felipe de Miranda, que o acompanhara desde o início da luta repressora aos rebeldes. Porém, continuando em sua marcha José Martins foi obrigado, por cautela, a assentar arraial na fazenda Mato Grosso, na divisa dos termos de Jerumenha com Parnaguá, por chegar-lhe a notícia de que os rebeldes haviam batido na fazenda Conceição, distante apenas 11 léguas da vila de Jerumenha, as forças do capitão José Raimundo de Carvalho, prendendo-lhes 12 soldados; e que ameaçavam atacar a vila de Jerumenha, onde já tinham sido repelidos numa primeira investida, pelo destacamento de Miranda.

Da fazenda Mato Grosso, que hoje fica no termo de Alvorada do Gurgueia, em data de 16 de março de 1840, Martins lança um manifesto aos parnaguaenses, concitando-os à paz, embora sem sucesso. Ali recebe um reforço de 120 homens, comandados pelo capitão Francisco Nunes de Sousa, natural e comandante da vila de Valença, que também trazia roupa, fardamento, sal, farinha e dinheiro para pagamento de soldos. Enquanto espera a remessa da peça que ficara em Jerumenha, envia o capitão Francisco Nunes de Sousa para bater uma partida de rebeldes balaios que se encontrava na localidade Jacaré, hoje cidade de Eliseu Martins, a cerca de três léguas de distância. Foram esses destroçados depois de pequena resistência, voltando o capitão ao acampamento triunfante e “orgulhoso pelo seu batismo de sangue”[27]. Na manhã seguinte cerca de 40 rebeldes destroçados, vieram render-se ao comandante incorporando-se às tropas legais. Por fim, partindo para o termo de Parnaguá com sua tropa recomposta, José Martins alcançou a fazenda Saco ao cair da tarde, estacionando no declive de uma vasta chapada, onde pernoitou armando trincheiras e entabulando o ataque. Ao romper do dia seguinte avançou sobre a casa, onde esperava resistência, mas a encontrou abandonada pelos rebeldes, ali apenas a velha matriarca Aguiar. Ao tomarem ciência da superioridade das forças legais e de ameaça de ataque por forças da Bahia, estacionadas em Santa Rita do Rio Preto[28], os irmãos Aguiar e seus comandados bateram em retirada para a mata. Acamparam então no Saco, as forças legais onde permaneceram por vinte dias, fazendo escoltas diárias onde prendiam rebeldes internados nas matas.

Cumprida com êxito essa diligência retornou a tropa legalista para o termo de Jerumenha, estacionando na fazenda Santo Antônio[29]. Ali chegando o comandante José Martins dividiu sua tropa em duas divisões seguindo-se-lhe uma para a vila de Jerumenha. Entregou 350 homens ao comando do capitão Antônio Ribeiro Soares, que o acompanhava desde o Mato Grosso na diligência de Parnaguá, devendo esta bater as matas da ribeira do Uruçuí por um e outro lado, mais tarde indo alcançá-lo em Jerumenha. Para isto esse contingente foi subdividido em duas companhias, sendo uma comandada pelo capitão Francisco Nunes de Sousa. E, de fato, partiram esses dois bravos miliares piauienses nessa longa, afanosa e estafante diligência. Mais tarde, o capitão Ribeiro Soares foi alcançado por um positivo de Martins na fazenda Patos, depois denominada Contrato de Dentro, de propriedade do capitão Francisco Cavalcante Xavier Gouveia, que o acompanhava, com ordem para continuar naquela diligência o capitão Nunes e retornar ele ao termo de Parnaguá, a fim de averiguar notícias alarmantes de que os irmãos Aguiar teriam retornado à frente de grande número de rebeldes. Assim, retornando à referida fazenda Saco, o capitão Ribeiro constatou a inveracidade da notícia, encontrando a fazenda no mais completo abandono.

De retorno dos campos de Parnaguá, novamente se embrenhou nas chapadas planas do sudoeste e baixões úmidos do vale do rio Uruçuí Preto, o capitão Antônio Ribeiro Soares. Alcançou seu companheiro capitão Francisco Nunes, ainda esperando-o na fazenda Patos, apesar da ordem recebida para seguir, tendo prendido um rebelde a caminho. Dali seguiram os dois capitães para a fazenda Olho d’Água, onde esperavam encontrar os rebeldes e a encontraram deserta. Logo mais alcançaram as águas escuras do rio Uruçuí, seguindo o capitão Ribeiro com 200 praças pela margem direita a baixo e o capitão Nunes, com 150 pela esquerda. Conforme anotou Clodoaldo Freitas, em sua diligência Ribeiro encontrou “na mata dos Macacos, um troço de rebeldes, que desbaratou sem resistência”; “mais abaixo deparou com uma ponte tosca colocada sobre o rio e conjecturando que os rebeldes se servissem dela e pudessem atacar o capitão Nunes, aí demorou-se esperando-o”. Por seu turno, “o capitão Nunes encontrou no lugar Estreito, uma porção de balaios, que foram destroçados sem resistência, apreendendo grande quantidade de salitre, enxofre, pólvora e os utensílios de fabricá-la”. Encontrando-se então as duas companhias se reagruparam e seguindo unificadas alcançaram a mata dos Caititus, ao fim de quatro dias. Então, junto a umas palhoças em que acamparam, enfrentaram alguma resistência que a desbarataram sem muita dificuldade, ficando apenas dois soldados feridos levemente. Depois de dois dias acampados na região seguiram para a ribeira do Riachão, afluente do rio Uruçuí, onde chegaram depois de mais dois dias de marcha, sem incidentes. Conforme as informações que tinham, na embocadura daquele ribeirão esperavam encontrar os rebeldes entrincheirados, como de fato encontraram. Então, seguiu o capitão Antônio Ribeiro Soares com 200 praças para atacar de frente, enquanto uma força que se lhe agregou de 60 cavaleiros comandados pelo capitão Raimundo Barreira de Macedo, fora incumbida de segui-lo fazendo o reconhecimento do terreno. Ao mesmo tempo o capitão Nunes, com a pequena força de seu comando, fora incumbido de contornar o rio para impedir a retirada do inimigo.

No entanto, ao adentrarem a pequena povoação improvisada encontraram suas palhoças desabitadas. É que pressentindo a chegada das forças do governo a abandonaram os rebeldes pondo-se em posição estratégica para tentar cercá-las. Essa movimentação rebelde foi notada por Barreira de Macedo, depois de subir em pequena colina, as avistando em movimentação para cercá-lo.  Então, para desvencilhar-se da armadilha que lhes preparavam os rebeldes balaios, o capitão Barreira investiu contra o cerco à bala sendo respondido pelos agressores que eram numerosos e avançaram sobre a cavalaria fazendo recuá-la quase em debandada. Foi uma luta encarniçada onde cada lado pôde provar a sua bravura. Felizmente, alcança o campo de batalha uma tropa de 100 praças comandada pelo alferes Antônio Soares da Silva, contornando o inimigo pela retaguarda e atacando com um fogo vivíssimo. Então o capitão Barreira, respirando com maior alívio reorganizou-se partindo para cima do inimigo com ferocidade. Depois de sete horas de fogo cerrado conseguem rechaçar o inimigo feroz, que fugiu deixando 12 mortos no campo de batalha. O capitão Barreira conseguiu recuperar sua bagagem que a havia perdido. “Era duas horas da tarde e a força fatigada, em jejum, foi acampar nas casas abandonadas, onde encontrou porção de mandioca, algumas quartas de farinha e os utensílios de fabricá-la”[30]. Depois atravessaram o rio e foram pernoitar em companhia do capitão Nunes, que ali estava.

Nesse conflito chefiava as tropas rebeldes, Vitório do Espírito Santo, filho do Senhor de Sussuapara. Era experiente na tática militar, tendo provado seu valor como um dos chefes do cerco de Caxias. Dali trouxera 40 soldados de linha e uma corneta, com os quais “exercitara a sua gente, de modo que esse fogo do Riachão foi um dos mais sérios e renhidos de quantos se deram nesses encontros”, disse Clodoaldo Freitas. “Entre os prisioneiros – acrescentou Freitas –, foi reconhecida uma mulher de nome Aninha Capivara, amásia de Vitório, por ele roubada em Caxias. Capivara trazia muito ouro, em obra, pilhado nos saques de Caxias”. Eram as histórias de amor entremeadas à revolução armada.

Continuando em marcha foram alcançados por um positivo do comandante José Martins, com ordens expressas para o capitão Ribeiro conduzir a tropa para a fazenda Olho d’Água, onde se encontrava um numeroso troço rebelde. Partindo em marcha forçada foram encontrando apenas casas abandonadas, vez que ninguém se sentia seguro nas fazendas por aqueles dias, descanando por três dias na fazenda Corrente, onde refizeram as forças. Clodoaldo Freitas, de forma temerária aponta atos de indignidade praticados pelo capitão Ribeiro nesta fazenda de seus próprios parentes, o que não se confirma em nenhum documento.

Deixando o Corrente na manhã do terceiro dia alcançaram o pretendido Olho d’Água, depois de dois dias de marcha, chegando ao pino do meio-dia. Fatigados, sedentos, abrasados pelo calor, “foram recebidos por cerrada fuzilaria das trincheiras inimigas, levantadas à margem do rio. A luta demorou uma hora. Os rebeldes fugiram atirando os mortos ao rio. Livres do inimigo, os soldados atiraram-se ao rio para desalterar a terrível sede, saindo em seguida em perseguição do inimigo. Foram aprisionados dois feridos, que foram mortos. Meia légua baixo alcançaram os rebeldes, que negligentemente descansavam à margem do rio. Atacados de surpresa, os rebeldes fugiram em verdadeira debandada, atirando-se muitos ao rio. Morreram uns 50, sendo preso o chefe do bando, um velho de 60 anos, de nome Francisco Tavares e dois soldados”.

A força, então, retornou para o Olho d’Água, onde pernoitou. No dia seguinte recolheram alguns cavalos e ainda prenderam algumas mulheres que foram surpreendidas aos beberem à margem do rio. Entre essas prisioneiras reconheceram uma de nome Florinda, moradora na vila de São Gonçalo[31], que andava em companhia do capitão José Raimundo de Carvalho, prefeito daquela comuna, e que caíra em poder dos rebeldes por ocasião da derrota daquele oficial. “Por ela soube o capitão Ribeiro que os rebeldes iam subindo o rio e que, depois do primeiro ataque do Olho d’Água haviam lançado ao rio grande quantidade de armamento. O capitão Ribeiro mandou imediatamente procurar esse armamento, o qual, depois de algum trabalho, foi encontrado, ainda em perfeito estado e conduzido ao acampamento”[32]. Em face da veracidade dessas informações, o capitão Ribeiro mandou o capitão Nunes transportar os feridos e doentes para o hospital que fora improvisado na fazenda Alagoa Comprida e sempre intemerato pôs-se em marcha na perseguição aos rebeldes. Seguia marchando à esquerda e os balaios à direita do mesmo rio, às vezes chegando tão perto que trocavam insultos e palavrões, entre rufos de tambores e toques de cornetas. Assim marcharam durante sete ou oito longos e cansativos dias, “sem se temerem, até que chegaram à serra do Saltão, nascente do Uruçuí, vasta cordilheira em que se ramifica a serra da Tabatinga, a vértebra granítica dos vastos sertões dos Gilbués”[33]

Enquanto isso, tomando ciência desses fatos com a chegada do capitão Nunes, parte em marcha forçada o major José Martins, para auxiliar Ribeiro Soares, seu valoroso e destemido primo, o alcançando no acampamento improvisado do Saltão, porém, sem mais saber o rumo que tomara os rebeldes. Retornaram, então, para o Olho d’Água, onde supunham novamente encontrá-los, o que não se efetivou. Porém, chegando-lhes notícias de que os mesmos se encontravam acampados em Santa Maria, a quatro léguas de distância, para lá se dirigiram pernoitando a apenas meia légua de distância do local indicado. Ao romper do dia seguinte puseram-se em movimento, prendendo a caminho um negro escravo que juntava a cavalhada no peador. Enquanto isso, avisados por suas sentinelas, os rebeldes contornavam as forças legais posicionando uma bem formada linha de atiradores pelo lado esquerdo, ficando-lhes à direita um impenetrável alagadiço entremeado de buritizeiros onde corria um caudaloso ribeirão. Então, pressentindo essa manobra do inimigo, ladearam o alagadiço deixando que este se aproximasse. E dividindo a tropa em ligeira manobra o ataca o major José Martins em um vivíssimo fogo de fuzilaria enquanto o capitão Ribeiro, que o havia contornado, atacou pela retaguarda. “Apesar de se acharem metidos entre os dois fogos, os rebeldes apresentaram séria e tenaz resistência e ao abandonarem o campo nele deixaram cerca de 60 cadáveres, muitos feridos e alguns prisioneiros. As forças legais perderam 20 soldados mortos e alguns feridos”.

Findo o combate acamparam as forças legais em Santa Maria. Na manhã seguinte puseram-se em marcha no encalço dos rebeldes remanescentes do conflito, que fugiam em direção à fazenda São Domingos. Pelas duas horas da tarde, alcançando um veredão ameno coberto por espesso buritizal, a cavalaria que fazia a guarda avançada avistou um troço de rebeldes, abrindo-lhes fogo. Ao dispersá-los pelo brejo conseguiram apreender-lhes a bagagem composta de mais de vinte cargas e cerca de trinta mulheres de todas as idades. Tomada de tanto terror uma delas abortou ali mesmo. A cavalaria deu caça aos fugitivos e quando o comandante chegou toda a ação já tinha terminado. “No mesmo dia a força marchou para o Riacho dos Cavalos, profundo e caudaloso corrente, coberto de enorme buritizal, onde chegou depois de três dias de marcha, sem incidente”[34]. Dali despachou diversas escoltas em busca de rebeldes remanescentes. Para a fazenda Saco, despachou os capitães Barreira e Nunes, em busca dos irmãos Aguiar, em cujas vizinhanças foi morto Lucas, pelo sargento Trajano, que lhes acompanhava. Também foi despachado para a fazenda Promissão, onde soube-se que um pequeno grupo de rebeldes se achava homiziado nas matas com os tapuias, o inferior Luiz Carlos Pereira de Abreu Bacelar, com 23 praças montadas. Encontrando na mata adjacente uma partida de rebeldes matou seis deles. De retorno, Bacelar foi designado para conduzir uma leva de 19 prisioneiros para a capital, “os últimos destroços dos inimigos vencidos”.

Então, para encerrar a prolongada expedição do Uruçuí, seguiu por ordem do comandante o capitão Antônio Ribeiro Soares palmilhando-o até sua foz no Parnaíba, que a alcançou depois de demorada marcha. Essa fase final não teve lances dramáticos somente encontrando rebeldes avulsos e pequenos ajuntamentos, prendendo uns e dispersando outros, inclusive, novamente passando pela fazenda Buritizal, de José Pereira da Silva Mascarenhas, que a achou deserta. Retornando à vila de Jerumenha, teve ligeiro recontro com um punhado de rebeldes na fazenda Santana, infligindo-lhes severa derrota. Por fim, chegando à vila de Jerumenha foi pelo comandante José Martins de Sousa, licenciada a tropa, de forma que encerrou-se o conflito, cada um retornando às suas casas e fazendas. José Martins para sua fazenda Conceição, à margem do riacho do Contrato, então termo de Parnaguá, hoje de Gilbués, onde faleceu em 23 de agosto de 1850, sendo aí sepultado; Antônio Ribeiro Soares, para sua fazenda São Dimas, à margem do riacho de mesmo nome, afluente do Gurgueia, então pertencente ao Município de Jerumenha, hoje de Manoel Emídio.

A verdade é que o capitão Antônio Ribeiro Soares voltou consagrado pelos contemporâneos depois de sua bem sucedida expedição pelo vale do rio Uruçuí, cujas margens ribeirinhas e adjacências palmilhou desde suas nascentes à foz, repelindo os rebeldes em diversas pelejas. Ali travou as mais renhidas batalhas que se desenrolaram na Balaiada em solo piauiense, pacificando o território e levando paz à população. Por isso mesmo assumiu forte liderança na política de Jerumenha e, por via de consequência, da província. De fato, desde o ano de 1840, com o fim do conflito da Balaiada, assumiu o comando do partido Saquarema e a chefia política de Jerumenha, em sucessão ao padrasto, nela permanecendo até à morte, por cerca de vinte anos consecutivos.

Desde então, ocupou as melhores posições, sendo eleito para o exercício de diversos cargos públicos. Foi promovido à patente de coronel e comandante superior do batalhão da guarda nacional situado na vila de Jerumenha. No mesmo termo, eleito por diversas vezes para os cargos de vereador e juiz de órfãos. Também, exerceu os cargos de censor da instrução pública, lançador da Junta de Lançamento do Imposto dos Dízimos do Gado Vacum e Cavalar do mesmo termo, delegado de polícia e juiz de direito interino.

Por decreto de 2 de dezembro de 1854, o capitão Antônio Ribeiro Soares foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo, no grau comendador.

Em 1859, gozando de largo prestígio e no fastígio do poder o comendador Antônio Ribeiro Soares começou a sofrer divisão em seu grupo político e familiar. Em 28 de setembro, um grupo de correligionários faz publicar no jornal O Propagador, abaixo-assinado dirigido ao presidente da província protestando que “os negócios de Jeromenha têm estado em efervescência, [pois] o juiz de direito interino o comendador Antônio Ribeiro Soares tem brilhado em matéria de jurisprudência, e com a sua esquisita lógica do quero, posso e mando”. Tratava-se de protesto pelo adiamento de uma sessão do júri, a quinta vez naquele ano, sendo os signatários “juízes de fato convocados para constituírem a primeira sessão judiciária” daquele termo e tendo sofrido grandes incômodos para deixarem suas fazendas deslocando-se para aquela vila. Esse protesto foi assinado por José Felipe de Miranda, Ignácio Francisco de Miranda, Francisco Raimundo de Miranda, Clementino Alves Carneiro, Manoel Medrado de Freitas, Joaquim Galdino de Miranda, Raimundo Nonato da Fonseca, Cândido José Hermeto Mousinho, Basílio Antônio da Fonseca, Manoel Ferreira Athaydes, Antônio José do Espírito Santo, Ignácio Francisco Ribeiro, Gonçalo Martins da Rocha, Manoel Borges Leal, Antônio Raimundo Saraiva, João Antônio Vieira, João Antônio Vieira Júnior, Antônio Lins de Barros, João Pereira de Andrade, José Fernandes dos Santos, Maximiano Lopes de Sousa, Manoel Gomes Oliveira Guimarães, Francisco Emigdio de Freitas e Gonçalo Alves da Rocha. Como se vê muitos deles eram parentes de Ribeiro Soares, sobretudo os Miranda e Rocha.

Também, o ex-deputado e então delegado de polícia Antônio Martins da Rocha[35] (1852 – 1853), fez publicar no mesmo órgão de imprensa declaração dizendo que “não podendo mais sofrer os caprichos do comandante superior Antônio Ribeiro Soares, chefe do partido saquarema de Jeromenha, declara, que d’agora em diante deixa de acompanhá-lo nos negócios políticos, visto que, tendo consumido a melhor parte de sua vida em ajudá-lo a ganhar o prestígio e influência de que goza, só tem merecido desse senhor, em compensação de seus sacrifícios, trabalhos e incômodos, ingratidões impossíveis de dizer-se”[36].

No jornal Pharol, edição n.º 299, responde Antônio Ribeiro Soares acusando Antônio Martins da Rocha, de ter tentado usurpar poderes de presidente do júri; de ter vendido um homem livre como escravo, em Caxias; de ter ferrado gado alheio no termo da vila de Riachão, no Maranhão, onde fora preso, juntamente com o pai e um filho menor. N’O Propagador[37], Antônio Martins da Rocha responde a todas essas acusações, fazendo outras tantas contra Ribeiro Soares. Acrescentando: “lembre-se que fui casado na mesma família que S.S. casou-se; que morei distante de sua casa três léguas, desde setembro de 1836 até maio de 1855, na fazenda – Água Branca – quando passei para o – Vale – uma légua somente distante; que S. S. tem governado o município de Jeromenha 19 anos! E que sua vida, sua história inteira, eu a tenho de cor e salteada. No dia em que eu levantar esse véu que encobre o seu passado, sua reputação, e seus ‘serviços conhecidos nesta e em todas as províncias do império’, desmaiarão ....”. Estava feita a briga entre os dois líderes, primos e concunhados, passando Martins, desde 1859, a chefiar a política liberal[38] em Jerumenha.

Em face do mesmo conflito, Antônio Ribeiro Soares faz publicar nota no jornal Pharol, acusando o liberal Mathias Luiz da Silva[39], de ser “protetor acérrimo dos réus presos na cadeira desta vila, Justo Rufino Guimarães[40], e outros, compreendidos no processo Eufrazia”. Em resposta este indaga que “há dezenove anos que S.S., tem fechado nas mãos este termo, sendo juiz, delegado, comandante superior, tudo enfim, e desde esse imenso espaço de tempo até hoje, quais os criminosos que têm cumprido sentença?”

Em meio desse conflito e no ápice do poder faleceu o comendador Antônio Ribeiro Soares, em 9 de outubro de 1859, na vila de Jerumenha, onde foi sepultado. Deixou viúva e numerosa descendência. Essas notas servem para contrapor inverdades sobre sua participação na repressão à Balaiada e como homenagem à sua memória.

 

 

 


[1] REGINALDO MIRANDA, advogado e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. E-mail: [email protected]

[2] Por decreto de 2 de dezembro de 1854, o capitão Antônio Ribeiro Soares foi agraciado com a comenda da ordem de Cristo. Na mesma data também Francisco da Cunha Castelo Branco. Na mesma data, com a ordem da Rosa também Fernando da Costa Freire, major José Francisco Nogueira Paranaguá e Dr. Simplício de Sousa Mendes.

 

[3] Irmã do capitão Francisco Pereira da Silva (pai de Teresa de Jesus Maria, esta mãe de José Martins de Sousa)

[4] Irmão de Domiciana Vieira de Carvalho, avó do visconde da Parnaíba e bisavó do então major José Martins de Sousa; eram ambos filhos de José Vieira de Carvalho e Maria Freire da Silva, casal paulista que entrou no Piauí em 1719.

[5] Biografada para o segundo tomo de Piauienses notáveis.

[6] Irmão de Teresa de Jesus Maria, esposa de Joaquim de Sousa Martins, pais de José Martins de Sousa.

[7] Irmã de Gabriel Ribeiro Soares, ambos filhos do casal português Manuel Ribeiro Soares e Maria Josefa de Jesus.

[8] Naquele tempo era comum chamar de tio os primos-irmãos dos genitores.

[9] Primo materno de Antônio Ribeiro Soares. Filho de Felipe Nery de Miranda e Quitéria Vieira de Carvalho, esta irmã de Maria Vieira de Carvalho, avó materna do biografado.

[10] Herdeira de grande fortuna que lhe foi legada por um tio e pai adotivo, alferes José Francisco Messias.

[11] Raimundo Ribeiro Soares, também foi juiz de direito em Amarante e Horácio Ribeiro Soares, major da guarda nacional.

[12] José Lino Alves e Rocha, seu sobrinho e genro, casado com Liduína Maria das Neves Ribeiro, filha caçula.

[13] Joaquim Ribeiro Soares, acadêmico de direito, faleceu solteiro, às vésperas da formatura, no Recife.

[14] FREITAS, Clodoaldo. A Balaiada. Coleção Centenário 142.  Teresina: APL, 2019.

[15] O Telégrafo, 2.12.1839.

[16] FREITAS, Clodoaldo. A Balaiada. Coleção Centenário 142. Teresina: APL, 2019.

[17] O Telégrafo, 2.12.1839.

[18] Muito jovem ao tempo da Balaiada, depois alcançou a patente de tenente-coronel. Nasceu em 1818, na fazenda Braço, do termo de Jerumenha, depois passando ao de Bertolínia, filho primogênito do tenente João Alves da Rocha, o moço e de sua primeira esposa Maria Angélica da Conceição. Exerceu influência política na vila de Jerumenha, onde ocupou os cargos de vereador, presidente da câmara municipal, delegado de polícia e deputado provincial, tendo votado a favor da mudança da capital piauiense de Oeiras para Teresina. Foram também deputados estaduais seus irmãos, padre José Marques da Rocha e capitão Joaquim Alves da Rocha. Era também primo e concunhado do capitão Antônio Ribeiro Soares.

[19] O Telégrafo, 24.2.1840.

[20] Chegaram em 7 de fevereiro de 1840, quando o contingente piauiense inda se encontrava acampado nos arredores da fazenda Sussuapara.

[21] O Telégrafo, 24.2.1840.

[22] No dia seguinte.

[23] Correspondência do major José Martins de Sousa ao barão da Paranaíba. O Telégrafo, 24.2.1840.

[24] Sobre o assunto disse Clodoaldo Freitas: “O perigo das forças legais era, realmente iminente, estando em face do inimigo, que as podia atacar a todo o instante maior foi o pânico quando espalhou-se a notícia de que as forças maranhenses deviam separar-se, para marchar sobre a Passagem Franca”.

[25] FREITAS, Clodoaldo. A Balaiada.

[26] FREITAS, Clodoaldo. A Balaiada.

[27] FREITAS, Clodoaldo. A Balaiada.

[28] Essas forças eram compostas de 300 homens, mas não tomaram parte no conflito, limitando-se a guardarem a divisa da Bahia com o Piauí.

[29] Hoje situada no Município de Manoel Emídio.

[30] FREITAS, Clodoaldo. Op. cit.

[31] Hoje cidade de Regeneração.

[32] FREITAS, Clodoaldo.

[33] FREITAS

[34] FREITAS, Clodoaldo. op. cit.

[35] Também lutou na repressão à Balaiada, no posto de alferes.

[36] O Propagador, 9.10.1859.

[37] O Propagador, 30.1.1860.

[38] Com o falecimento do tenente-coronel Antônio Martins da Rocha, em 1862, o sucedeu na liderança liberal seu genro e parente coronel Estêvão Alves de Carvalho (A Imprensa, 26.3.1872).

[39] Sogro do desembargador José Manuel de Freitas. Era um dos líderes do partido liberal em Jerumenha.

[40] Justo Rufino Guimarães, Nicolau Mendes Guimarães e Basílio Rufino Guimarães, acusados de homicídio, foram posteriormente absolvidos pelo júri (O Propagador, 26.2.1860).