Clarice

{Maria do Rosário Pedreira]

Há muitos escritores brasileiros de excepção – desde logo Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, e tantos outros; mas as mulheres que se celebrizaram por escrever romances no Brasil são menos conhecidas do público em geral – e se calhar não nos vêm logo à cabeça quando pensamos, grosso modo, em ficcionistas do país irmão. Excepto, claro, se se tratar da grande Clarice Lispector. Nascida na Ucrânia, judia, estudou Direito mas trabalhou sobretudo como jornalista e tradutora. Inventou um estilo que não se parece com mais ninguém, mesclando cenas da vida normal e doméstica com uma respiração ofegante e transgressora, com palavras-gritos, com um lado absurdo mas absolutamente humano (desculpem se pareço pretensiosa com estes termos vagos, mas é que ela é muito mais sensação do que racionalidade, pelo menos para mim, que fiquei logo marcada por Perto do Coração Selvagem). Escreveu a biografia desta “pernambucana” o fenomenal Benjamin Moser (está disponível em Portugal) e a óptima notícia é que acabam de sair, com um grafismo espectacular, quatro livros seus de uma vez: o romance que acabei de mencionar e ainda Água Viva, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida. Leiam-na!