CHUVA

     São 8:17 da noite desta segunda-feira em Teresina. Está caindo uma chuvinha tranquila, sem vento açoitando a cidade, sem relâmpagos nem trovões. Nem parece que aqui é a Chapada do Corisco. A temperatura, agradável, deve estar na faixa dos 20 graus centígrados. Durante o dia, o sol quase não apareceu, e um chuvisco quase imperceptível marcou presença.

     Mas agora um ganguji, nas cores preta e amarela, com duas antenas na frente, com suas muitas pernas, anda aqui pela minha sala, perto de meus pés, abaixo do computador. Olho para ele e fico refletindo sobre sua existência e a dos seres humanos. Qual será a preocupação que o domina agora? Encontrar comida? Encontrar uma companheira para acasalar? Encontrar um buraco onde se enroscar e dormir? Dirigir-se ao jardim para dormir sob um pequeno monte de folhas e gravetos? Sei quase nada sobre este bichinho de andar e meneios elegantes. Mas, com certeza, ele vive de acordo com a natureza, com o ciclo das chuvas. Talvez aquilo que o germina fique inoculado na terra durante o seco verão nordestino. Quando a água cai e vai embebendo o chão, sua semente acorda e o forma. Deve ser muito prazeroso quando as primeiras chuvas molham sua semente, umidificando-a juntamente com o barro. É certamente muito mais agradável do que qualquer beijo ou abraço humanos. E o aroma do barro molhado lá nas entranhas do chão onde está a semente do ganguji? Se os seres humanos o acham cheiroso aqui na superfície, imaginemos lá dentro, lá no seio aconchegante da mãe Terra...

     Mas tudo isso é suposição. Talvez esse pequeno inseto nem tenha olfato. Com certeza, porém, ele não tem decepção com governantes corruptos, com o preço exorbitante dos combustíveis, com nacionalismos e religiões que muitas vezes são causa de violência e guerra. Não tem nenhuma das paixões e disputas humanas. Não tem a tola vaidade de fazer um autorretrato, não espera elogio de ninguém. Como ele ficaria decepcionado se tivesse consciência e soubesse que, neste exato instante, há milhões de pessoas tristes e raivosas porque não têm dinheiro para aumentar seios, bunda e músculos e exibi-los nas redes sociais, pois é assim que se sentem felizes.

     O ganguji saiu da sala e dirigiu-se para a área aberta da casa. Parou perto de umas formigas mortas e de uns pontinhos pretos perto de uma parede, os quais ele parece comer lentamente. Foi no rumo do jardim. Talvez vá dormir sob folhas e gravetos úmidos enquanto a chuvinha continua a cair vagarosamente.