CADÊ MEU CHEIRO - PARTE II
Por Washington Ramos Em: 25/06/2026, às 11H09
[WASHINGTON RAMOS]
C A D Ê M E U C H E I R O - P A R T E II
Pois é! Só agora nesta segunda parte nomeio nosso herói. Chama-se João Mendes. Na verdade, ele não tem envergadura de herói nem de vilão. É um jovem comum como centenas de milhares de outros em Teresina. Não é lindão. Mas é um cara bonito, tem o rosto de proporções adequadas entre queixo, boca, nariz, maçãs, testa e olhos negros. Em seu comportamento, o que mais se destaca é a facilidade em aprender idiomas. Domina o francês e o inglês. Ministra aulas particulares dessas duas línguas. Mora no bairro Vermelha, perto da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes.
Uma amiga de João Mendes lhe contou que encontrou a nerd e, ao perguntar por ele, ela respondeu: “Sei lá daquele chato! Hoje em dia, só o que me interessa é ganhar a Medalha Fields, um dia ainda irei ganhar a Medalha Fields, eu a amo.” Ele nada comentou, mas ficou um pouco triste por ser chamado de chato só por não gostar de Matemática. Isso aguçou sua percepção de que ele talvez estivesse marcado pelo destino para não ter sorte com mulheres; talvez seu fado fosse mesmo continuar sozinho, se agarrando à máxima “antes só do que mal acompanhado.” Se conformar com a solidão faz parte da vida.
Ora, mas se deu que um belo dia chegou à sua rua uma família procedente de São Luís do Maranhão. O pai, a mãe e cinco filhos tinham traços cafuzos e brancos. Eram morenos de olhos verdes. Apenas um dos filhos tinha olhos castanhos. No Brasil, a mistura étnica é enorme.
Não tardou muito para que essa família se enturmasse na rua. Eram pessoas dadas, gostavam de fazer amizade. Numa noite em que uma turma de jovens estava conversando na calçada da casa da Rejane, nosso João Mendes foi chamado e apresentado à filha primogênita daquela família:
-João - disse a Rejane - esta aqui é a Cilene, ela quer te conhecer, está precisando de ajuda em Inglês.
- Prazer, Cilene! Onde Você estuda?
- O prazer é nosso, João. Eu estudo no colégio Paulo Ferraz e estou com dificuldade nas aulas de Inglês. Será que Você pode me ajudar?
- Posso, sim, será um prazer para mim ajudar uma garota tão elegante como Você.
- Ah! Quanta gentileza sua! Pois eu lhe espero amanhã de manhã ali em casa a partir das oito horas. Tá bom pra Você esse horário? Eu moro na terceira casa depois da casa da Rejane.
- Combinado.
João sentiu que o aperto de mão foi mais demorado do que o normal. Cilene reteve a mão dele mais do que o necessário. Sentiu também que a mão da garota é mão de quem faz serviços domésticos, mão de quem ajuda a mãe em casa. Mas é uma mão perfumada. Depois, já em casa, antes de dormir, ele ficou cheirando a própria mão como quem aspira o perfume de uma rosa vermelha orvalhada. Adormeceu assim.
No dia seguinte, às oito da manhã, ele bateu palmas na porta da casa da Cilene. Foi ela mesma que o atendeu:
- Pode entrar, João. Seja bem-vindo.
- Obrigado, Cilene. Então, quais são as dúvidas?
- São muitas, mas vamos para o quintal, lá tem uma mangueira que dá uma ótima sombra; vamos estudar lá. Já deixei tudo preparado lá com uma mesa e duas cadeiras.
Foram ao quintal e sentaram-se. Ela abriu o caderno e foi dizendo que tinha dificuldade em transformar frases afirmativas em interrogativas. Falou isso olhando fixamente nos olhos dele. João nunca tinha sido olhado com tanta insistência, com um olhar tão brilhante, com olhos tão vivos. Pareciam duas esmeraldas boiando num copo de leite morno com canela que pedia para ser degustado.
( Continua na quinta-feira da próxima semana )

