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Apesar da ignorância da rota desses navios

 

 

 

Apesar da ignorância da rota desses navios

que descem o tejo, da mulher que nos subúrbios

os vê passar tão rente à sua mágoa,

da moça tímida espiando o mundo

da janela que em breve o escuro virá selar,

 

ficam bem os sinos esvoaçando sobre a tarde

de inverno em que buscas a justa palavra

e não vê deus a tua aflição: o que cala,

o que finge, o que mente — agreste destino

que te cabe, tingido pelo clarão da dúvida.

 

Mas ficam bem, ficam bem as meretrizes

de rápido volteio, as matronas alvoroçando-se

para o chá, o aplicado médio funcionário

calculando o produto interno bruto, o amoroso

pagando diária corveia de soluços, os altos

dignitários recebendo honras e tributos.

 

Sobretudo fica bem a mulher gorda espremendo-se

num ginásio desfeita em suor e penitência.

Mas também ficam bem o contrafactor vigiado

pela lei, o usurário de sebo nos fundilhos,

o proxeneta de olhar felino e os desabrigados

desta rua (embora sobre eles caia o duro

gume do inverno, deles é o reino dos céus).

 

Ficam bem os poetas pobres que padecem

todo dia a fome da beleza, os críticos

impotentes ficam muito bem, os pretos desta praça

que são alegres e passam bem, o cívico

que ganha o dia de olho no parquímetro

fica bem apesar dos amáveis impropérios.

 

Ficam ainda bem os canídeos que defecam

nos passeios e as madames que os trazem

pelas trelas sempre prontas a pregar civilidades

a esses que falam alto e têm modos estrangeiros.

Mas que fiquem bem as raparigas de cabeças ocas

que têm como único tesouro a juventude

para que não seja a lamentação

o tributo dos vindouros dias.

 

Só eu não fico bem, senhor meu,

que aguardo toda a tarde pelo poema

que não vem, embora navios subam

o tejo aulindo através do nevoeiro.

Mas tudo está bem quando é o deus

quem assim o quer.

 

(JOSÉ LUÍS TAVARES*, in Agreste Matéria Mundo, 2004)