ANIVERSÁRIO

Sessenta anos! Talvez 60% de sua vida! Talvez o fim! Talvez o começo da mais cruel ironia humana: a melhor idade!

De manhã, ao acordar, se deu conta de que sua solidão continuava. Os filhos, que passaram a detestá-lo ainda mais após a separação, não telefonaram nem mandaram mensagem pelo Whatsapp. Os irmãos, inclusive os que lhe deviam dinheiro, também não deram a mínima. Os primos, esses há muito tempo não respondiam a suas mensagens.

Sessenta anos de idade! E ele não plantou uma árvore, não escreveu um livro, não construiu uma casa. Tem cinco filhos, mas nenhum o procura. Todos vivem com a mãe e mal se lembram de que ele existe. O mais novo o procurou há uns dois meses e foi apenas para pedir dinheiro. Foi simpático só até o momento em que botou a grana no bolso. Deu-lhe as costas e não mais o procurou.

Sessenta anos! E agora como arranjar uma companheira de verdade? Que mulher vai querer um homem na idade em que ele está?

Não realizou nenhum grande feito em sessenta anos. Foi criança, foi jovem, foi adulto, hoje é um idoso. Começou a trabalhar aos catorze anos. Sempre bateu ponto, sempre chegou na hora certa e muitas vezes saiu do expediente depois de todo mundo. Algumas vezes, suportou calúnias e injustiças para não perder o emprego e criar os filhos com dignidade. Casou-se aos 25 após anos de economias. Casou-se porque foi vítima de uma paixão muito intensa que o arrebatou inteiramente. Ele nunca havia namorado uma garota tão bonita como a mulher que há cinco meses o mandou embora. Jamais sentira aquilo. Das poucas namoradas que tivera, nenhuma foi tão carinhosa com ele; nenhuma jamais o chamara de meu querido; nenhuma jamais o beijara e abraçara espontaneamente como sua ex-mulher fez no começo do namoro. Foi avassalador. Não havia como ele não se apaixonar. A paixão se transformou numa afeição profunda e permanente até o dia em que sua esposa, que também tem sessenta anos, lhe disse que estava tudo acabado, que ela, de agora em diante, iria se dedicar somente à igreja, que ela não tolerava mais as investidas dele por sexo embora fossem raras, que ela não tinha mais desejo sexual e agora considerava o sexo algo sujo e pecaminoso. “Você pode procurar outra mulher, mas vá embora daqui”, ela disse.

Foi um choque imenso para ele e maior ainda quando descobriu que ela dissera aos filhos que a culpa da separação era toda dele, pois estava traindo-a com outra mulher. Como ela fora capaz de tamanha calúnia? Como é que ele ia procurar outra mulher se com ela mesma as relações eram meio fracas, pois ele já não tinha a potência sexual de antes? Mas ele já devia ter percebido que ela deve estar com alguma perturbação mental. A maneira como ela lê a Bíblia, quase gritando, e como ela reza com olhar fixo no chão só podem ser coisa de quem está meio debiloide.

Agora na quitinete alugada por ele, onde mora sozinho, prepara-se para sair. Vai andar a esmo pelas ruas de Teresina. Não tem a quem visitar, não tem mais amigos. Muitos já morreram, outros foram embora para S. Paulo. Sente-se meio envergonhado de ter recorrido a sítios de namoro na internet. Mas é o jeito. Recorreu ontem à noite, e até agora nenhum contato de retorno. É provável que nenhuma mulher o procure. Viu fotografias de garotas e senhoras muito bonitas e elegantes. Como é que pessoas assim estão sozinhas? Será que são pessoas más, mal-educadas e com graves defeitos como a avareza?

Lembrou-se da solidão do planeta Terra, um hiperinsignificante pontinho azul na astronômica vastidão do universo, situado na periferia da Via-Láctea. Talvez seja o único habitado em todo o universo e, inconformado com sua solidão, transmitiu-a a seus moradores como uma herança indestrutível, mas principalmente a ele, um homem sozinho numa quitinete. Astrônomos profissionais e amadores, através de seus equipamentos, veem belíssimos corpos celestes como luas, cometas, quasares, planetas, constelações, galáxias, mas nenhum desses corpos celestes é tão lindo quanto a morena-jambo de cabelo curtinho e sorriso à Mona Lisa que ele viu numa página de namoro na web. Então ele, o perfeito protótipo do homem sozinho, disse a si mesmo: “A meiguice, o brilho do olhar e o afeto dessa morena-jambo jamais virão iluminar e aquecer minha vida.”

Decidiu não sair mais.