[WASHINGTON RAMOS]

                                                        A M O R   E   ÓDIO   -   PARTE 1

     Esta é mais uma história de amor infeliz. Aconteceu naquele prédio que fica na Praça Saraiva e foi casa de morada do Barão de Gurgueia. Hoje está abandonado. É um prédio histórico. Não vou descrevê-lo. Quem mora em Teresina o conhece muito bem. Quem não mora saiba que ele se assemelha a casas de fazendas coloniais com duas escadas na frente, uma à direita e outra à esquerda, que dão acesso ao piso superior. Janelas e portas são em ogiva.

     Lá, nos anos 90 do século XX, funcionou a Casa da Cultura de Teresina. Mas a história aqui contada ocorreu em 1989, quando lá funcionava o Colégio Pedro II, uma escola particular de Ensino Médio, a qual não existe mais. Não sei onde andam as figuras envolvidas nos fatos aqui narrados. A possibilidade de elas lerem isto é muito remota. Mesmo assim, mudei-lhes os nomes e apelei para a ficção, resumindo algumas situações e alargando outras, pois todo cuidado é pouco, já que, hoje em dia, por qualquer bobagem,  gente pode ser vítima de um processo.

     Mas vamos lá. Tudo começa com Marcelinho, um jovem de 16 anos de idade, que cursava a segunda série do Ensino Médio numa turma de 32 alunos, formada por rapazes e moças. Sua pele era morena assim quase negra. Seus olhos eram castanho-claros. Os cabelos, lisos. Muito inteligente, dominava bem todas as matérias, inclusive Matemática e Física. Nos dias de prova, era colocado à mesa do professor, pois era grande o número de colegas que iam sentar perto de sua carteira, querendo pescar. Percebendo isso, os mestres o levavam à mesa e ficavam em pé e de óculos escuros. Ninguém na turma ficava com despeito do Marcelinho por causa disso. Ele era, digamos assim, a reserva moral e intelectual da turma. Era de uma família de boa condição financeira. Mas era um rapaz humilde, sem arrogância. Todos no colégio gostavam dele. Do porteiro ao diretor, todos o admiravam. Tinha carisma natural. Sabe aquele tipo de pessoa que a gente aprecia e gosta de ficar perto? Aquele tipo tranquilo e que jamais levanta a voz? Pois é! Esse era o Marcelinho. Não era raro alguém do colégio vir se aconselhar com ele.

     No mesmo colégio, mas em outra sala, estudava uma garota muito bonita, a Januária. Morena-clara, quase branca, olhos azuis, cabelos negros lisos e ondulados, era a sensação estética da escola. Muitos rapazes queriam namorá-la, mas ela não dava bola pra nenhum. Jogava vôlei na equipe do Pedro II. Os alunos iam assistir aos treinos e partidas só para vê-la de xorte e camiseta. Seus saques raspavam a rede e eram quase indefensáveis de tão bem colocados. Suas cortadas raramente não eram mais um ponto.

     Ora se deu que um certo dia o Antero, colega de sala de Marcelinho, se aproximou e disse:

     “Olha, Marcelinho, vou pedir a Januária em namoro; acho que ela está a fim de mim. Não fale pra ninguém, mas amanhã mesmo vou falar com ela. Já estou preparando tudo.”

     “É mesmo, Antero? Você acha mesmo que uma menina linda como aquela está querendo Você? Você não é um cara bonito nem rico. Muito cuidado para não levar um fora.”

     “Ora, amigo, não se trata de ser rico ou bonito. Trata-se dos sinais que ela tem me dado. Ontem eu ensinei a resolução de um problema de Matemática pra ela. Se Você visse como ela me agradeceu: olhou para mim com muito brilho naqueles lindos olhos azuis, pegou na minha mão, piscou o olho direito e disse muito obrigada com uma ênfase tão forte, que eu me assustei e meu coração disparou no meu peito. Sei não, mas eu acho que ela me quer. Por que ela pegou na minha mão? E que mão macia, Marcelinho! Fui nas nuvens e voltei. Veja bem que, se era só pra agradecer, não precisava pegar na minha mão. Ah! Ela me quer, sim. Acho mesmo que ela me ama.”

     “Antero, meu amigo, não confunda gratidão e gentileza com amor. Calma! Amor não é uma coisa tão fácil assim como Você está pensando, principalmente nas mulheres.”

     “Sou otimista, Marcelinho. Vai dar certo. Estou preparando uma surpresa bem romântica para conquistá-la. Agora tem um detalhe: já está com duas vezes que eu vejo o Queiroz conversando com ela. Que cara nojento e metido! Já tô com raiva dele. Ela não quer ele não. É a mim que ela quer.”

     “Antero, não vá destruir sua amizade com o Queiroz por causa de uma garota. Pense bem.”

     Na noite desse mesmo dia, Marcelinho atendeu a um telefonema em casa:

     “Alô! Eu gostaria de falar com o Marcelinho.”

     “É ele mesmo que está falando.”

     “Marcelinho, aqui é o Queiroz; tudo bem contigo?”

     “tudo bem, sim.”

     “Olha, Marcelinho, estou apaixonado, muito apaixonado.”

     “Por quem, Queiroz?”

     “Pela Januária, meu irmão. E vou pedir ela em namoro amanhã. Acho que ela está gostando de mim também. O que Você acha?”

     “Quais são as evidências de que ela está gostando de Você a ponto de querer namorar contigo?”

     “Hoje ela pagou merenda pra mim.

                                   ( Continua na quinta-feira da próxima semana )