A poética da interrupção e o resgate da memória em Anacolutos
Por Décio Torres Cruz Em: 10/05/2026, às 10H42
A poética da interrupção e o resgate da memória em Anacolutos
Décio Torres Cruz*
Anacolutos (Letras e versos, 2022) é o novo livro de poemas do escritor carioca Marcelo J. Fernandes, presidente da Academia Petropolitana de Letras. Com prefácio de Gerson Valle, escritor, acadêmico e ex-presidente da APL, o livro está dividido em três partes: “Poemas de circunstância”, “À janela de ontem”, e “As coisas do fogo”. São 55 poemas muito bem escritos e que nos convidam à reflexão.
A poética da ruptura
Inspirado pela estética de e.e. cummings (poeta estadunidense conhecido por abolir as maiúsculas até em seu próprio nome), Fernandes adota o minimalismo gráfico em sua obra. Ao grafar em minúsculas seu nome, o título do livro e dos poemas e o início das frases, o autor rompe com a norma culta para reforçar sua proposta artística. O título da obra, inclusive, remete a uma figura de linguagem, o anacoluto, que carrega em sua etimologia grega os sentidos de desarmonia e descontinuidade (equivalente às expressões latinas non sequitur ou nominativus pendens). É uma expressão sem solução de continuidade que não se liga a outra, quebrando a estrutura sintática da frase, muito comum na linguagem oral quando o falante explicita o assunto ou tópico da fala, interrompendo-o com outra construção, como neste exemplo clássico no poema “Confissão” de Carlos Drummond de Andrade: “O homem, chamar-lhe mito não passa de anacoluto” (As impurezas do branco). Partindo da descontinuidade presente na etimologia da figura que a nomeia, a obra estabelece sua identidade nesta poética da ruptura, traduzindo a essência da construção poética do autor. Como enfatizou o jornalista e escritor mineiro Afonso Borges (criador e curador de diversos festivais literários e da Bienal Minas de Literatura) em seu blog Medium e no podcast Mondolivro da Alvorada FM: “O título já indica o caminho. Anacoluto é uma figura de linguagem que quebra a estrutura da frase. Interrompe, desvia, recomeça. E é exatamente isso que o livro faz. Faz o que a poesia contemporânea mais precisa fazer: interromper o fluxo automático da leitura — para que a gente volte a pensar.”
O álbum de memórias e afetos
Essas incompletudes e interrupções que caracterizam nossas vidas ‘anacolutas’, onde o que um dia foi importante logo deixa de ser e dá lugar ao novo, constituem o tema motriz da poesia de Fernandes, principalmente quando ele se coloca “à janela de ontem” para contemplar, “entre quatro memórias”, a “memorabília” do “futuro do pretérito” num jogo de “faz-de-conta”, como expressam alguns dos títulos de seus poemas. Neste olhar retrospectivo, o que passou e deixou de ser fundamental volta a ganhar vida. E como em um álbum de fotografias, encontramos homenagens à mãe, aos avós, ao filho Leonardo, e réquiens pelas vidas interrompidas do amigo do filho, João Carlos, do gato Eugênio e da cadela Lila.
Labirintos do tempo e espaços vividos
A memória passeia também por lugares de um tempo não definido da infância-adolescência. Casas e ambientes onde viveu ou por onde passou (Ipanema, Ilha do Fundão, Brasília, São Paulo) evocam um “mormaço que não passa / como a dor de um tempo sem história”. Cheiros e resíduos de objetos e afetos assomam e assumem o controle das lembranças no registro poético destes momentos para que eles não se deixem fenecer nos labirintos do olvido da nossa vida prosaica, mesmo aquelas recordações cuja extinção é desejada quando “uma dor oblíqua [nos] assalta, / amplia, dilata”, ou como descrito nestes versos de “recorte”: “reúno laudas da memória, / algumas já desfeitas, puídas / de mágoas que não expiram.” Contudo, mesmo o futuro facilmente se esvai como fumo, transformando-se em pretérito, pois, enquanto “na velha gare”, o eu poético, busca “o futuro, em vão”, o chefe da estação lhe informa que este “passou há pouco”.
No texto de apresentação na quarta capa do livro, o crítico literário Rogério Lobo afirma que Anacolutos “amalgamam as visões que pareciam inconciliáveis: palavras trabalhadas com cuidado, arranjadas meticulosamente a serviço de uma profundidade que surpreende”. Este cuidado meticuloso com as palavras perpassa todos os poemas, como em “dia de sol”: “os velhos nos portões despedem-se dominicais. [...] / o sacristão que eu nunca fui / atrasa as seis badaladas terminais. / minha vida conta tempo, / desde sempre, / entre o sábado e a segunda.” A elegância e a precisão na escolha e no uso das palavras aliam-se à organização dos versos para transformar o cotidiano em uma liturgia poética, onde cada palavra ocupa seu lugar com intenção e brilho. Nessa contagem minuciosa do tempo e dos silêncios, Fernandes mostra, com maestria, que domina a técnica e, especialmente, a alma da palavra. Sem deixar-se aprisionar pelo sentimento, seu rigor formal contribui para que a profundidade da obra seja plenamente enaltecida.
O escritor Gerson Valle, no prefácio, destaca a forte sensibilidade do autor “pelas tendências de sua geração com a eterna postura perplexa do ser ante o tempo e a solidão”. O tema da solidão aparece de maneira recorrente, desde o poema “mitológica” na abertura, quando fala de druidas: “Sob paredes de limo e feno, / resumiram ao fundo / dos cônjuges caldeirões, / a febre inexata / da solidão”. Reaparece em “o lado de cá”, na descrição de uma sala vazia que “nos espera cheia de cantos”, com “bacilos / velhos fantasmas e mobílias diminutas; / mesas e cadeiras sem braço / reconhecem meu afago distante / e meus cheiros de mar, / enquanto um martelo mordaz / telegrafa nos corredores / o eco surdo da solidão.”
As imagens de Fernandes fazem com que a solidão deixe de ser um mero vazio e se transforme numa presença concreta cuja voz ressoa incansável pelos corredores da memória. A nostalgia que emana dos objetos e espaços desnuda uma face íntima da obra, na qual o isolamento torna-se o palco onde o eu poético se apresenta, tentando decifrar os enigmas da própria existência. Convertendo o silêncio das salas e dos mitos em matéria poética, o autor revela que mesmo na ausência e no “eco surdo” reside uma profundidade que clama por ser lida.
Diálogos culturais e colagens Pop
Além do tempo e da solidão, o poeta perambula por diferentes mitologias, pretéritas e futuras, revisita quadros, livros, teorias, músicas e filmes. Homenageia pintores como Van Gogh (“Vincent”), Tarsila do Amaral (“garoa”) e Paul Klee (Angelus Novus); teóricos como Walter Benjamin e o ensaio “Sobre o conceito de História” (“de costas para o futuro, o tempo insiste nas pessoas”); escritores como Borges, Goethe/Mann (Mephisto), João Cabral, Lúcio Cardoso, Mário Quintana, Neruda, Sartre, Umberto Eco (O nome da rosa); cantores como Cole Porter; e cineastas como Ridley Scott (Blade Runner), Lawrence Kasdan (film noir), Carlos Saura e Tarantino.
No poema “Bodas de sangue”, a solidão reaparece: “quando fiz cinquenta anos / não houve festim, rumor, balão. uma solidão nunca vivida / levou-me ao cinema pela mão”. [...] “no útero seco deste vazio da sala, / só Tarantino / e eu”. Como numa colagem da Pop Art, além das referências fílmicas e lembranças de cenas, pessoas e objetos de consumo de diferentes décadas, surgem, ainda, alusões a ícones de uma era que se foi: J. Silvestre, japona, kichute, Tele-Catch.
O rigor das palavras e o nonsense
O uso criativo da linguagem para produzir imagens inusitadas é uma das características da poesia de Fernandes que chama a atenção do leitor. Às vezes, o autor cria imagens com pitadas do nonsense e do surreal, como destacou Fernando Py na orelha do livro, fato comprovado por estes versos de “réquiem”: “a Morte não debuta aos 15 anos. / os imortais se consolam / entrecortando silêncios e soluços. / um pai inundado, / desfeito, se esvai, / acaricia o rosto sem vida e imberbe.”
Anacolutos convida o leitor a passear por imagens surpreendentes e pelas nuances da linguagem poética, proporcionando uma experiência de leitura gratificante e prazerosa. Marcelo J. Fernandes não apenas realiza um exercício de estilo; ele executa um mergulho profundo na fugacidade da condição humana. Ao utilizar a figura de linguagem para nomear o livro, ele enfatiza, de forma deliberadamente descontínua, as fissuras entre o que fomos e o que restou de nós e de nossas vidas descontinuadas. Referências da alta cultura se unem a ícones do cotidiano e do pop para criar um mosaico onde a solidão e o tempo deixam de ser temidos para se tornarem matéria-prima de uma rara sensibilidade. Sua obra cumpre o papel essencial atribuído à arte, fazendo com que o leitor desacelere seu olhar e se permita adentrar no vácuo de suas interrupções para reencontrar suas próprias memórias e reflexões no espelho da poesia.
Sobre o autor

Marcelo J Fernandes é Doutor e Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), com estágio pós-doutoral em Estudos Literários (UFMG), professor de Língua Portuguesa, tradutor e revisor. Foi diretor do Colégio D. Pedro II, do Colégio de Aplicação da Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e do Colégio Santa Teresa d’Ávila, e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da UCP. Lecionou nos colégios Andrews, A.Liessin e Escola Parque do Rio de Janeiro. Avaliador de cursos para o INEP, atualmente é docente na Escola da Magistratura do Estado do RJ, nas redes estadual e municipal. Curador do Flipetrópolis, foi presidente da Academia Brasileira de Poesia e é o atual presidente da Academia Petropolitana de Letras. Estreou na escrita com o livro de poesia No dissecar do tempo em 1985. Premiado no Brasil e no exterior, é autor de 13 livros, dentre os quais, destacam-se: anacolutos (Rio de Janeiro, 2024, vencedor do Prêmio Carauta de Souza da Academia Petropolitana de Letras como melhor obra poética); Futuro do pretérito (poesia, Buenos Aires, 2019); Amanhã não tem mais (conto, Amazon, 2015); e Coleção Noturna (poesia, Brasília, 2007).
* Décio Torres Cruz é escritor premiado, tradutor, crítico literário e professor. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, da Academia de Letras e Artes do Rio de Janeiro e membro correspondente da Academia Petropolitana de Letras. Autor de Viagens & travessias, A poesia da matemática, Histórias roubadas, e Paisagens interiores, dentre outros livros publicados no Brasil e no exterior.

