[Bráulio Tavares}

 


O romance gótico celebrizou a imagem da casa mal-assombrada, muitas vezes uma casa para onde uma família se muda, feliz da vida, para descobrir pouco tempo depois que a casa é habitada por um fantasma. As histórias de horror da vida real seguem uma dinâmica parecida, só que adstrita, evidentemente, às limitações do Real.

Um bom exemplo é este fato singular ocorrido no nordeste da Espanha em 2007. Um sujeito comprou uma casa num balneário, oferecida em leilão depois que o dono deixou de pagar as prestações. Comprou, fez seus preparativos e foi para lá passar o veraneio. Ao entrar na casa pela primeira vez, viu algo pior que um fantasma. Sentado no sofá, estava o corpo de uma mulher, morta há muitos anos, mumificada. Descobriu-se em seguida que era a ex-esposa do antigo dono da casa. A polícia chegou à conclusão de que a mulher havia morrido de morte natural e a maresia tinha ajudado a preservar seu corpo, evitando a decomposição. O que a polícia teve dificuldade de entender foi por que razão a mulher morreu ali e nem o ex-marido (que pagava a casa) nem os filhos dela, que moravam em Madri, tinha sentido falta dela ou se preocupado com o seu desaparecimento.

Em 2008, em Londres, um homem comprou um apartamento por 350 mil libras e foi fazer a primeira vistoria pra valer. Foi uma vistoria tão bem feita que encontrou, no closet do quarto principal, o corpo de um homem de seus 40 anos, enforcado com um cinturão. Verificou-se que era o proprietário. A mãe dele falecera algum tempo antes, e ele havia colocado o apartamento à venda. Deduziu-se que ele devia ter entrado em depressão e se suicidado mais ou menos na época em que a venda foi consumada.

A casa mal assombrada da literatura corresponde em grande medida àquilo que na vida real chamamos “uma casa com muita história”, casa onde morou muita gente, aconteceu muita coisa. Daí que um casarão com 200 anos de funcionamento seja mais propenso a assombrações do que o apartamento com sala, três quartos (duas suítes) e dependências, com vista para o mar, comprado na planta. Nada aconteceu ali, ninguém morou ainda, ninguém morreu jamais. Houve no máximo uma carraspana dos pedreiros e um bateboca por causa de futebol. Como diria o pessoal místico, não se deu qualquer ruptura do plano energético-astral.

A casa antiga, no entanto, pulula de resíduos e nesse sentido a história gótica, por mais “de terror” que seja, é uma afirmação da vida. Dentro do imóvel existe algo se movendo. Dentro do que está morto existe algo que teima em não morrer nunca. Dentro do passado existe algo se manifestando no presente. Dentro do silêncio existem vozes, dentro da treva existe uma luminosidade, um reflexo, uma imagem. A história de terror é também a história da sobrevivência implacável do tempo no tempo, e a sugestão de que cada objeto material tem no seu interior uma coisa viva, ou alguma coisa que não morreu por completo.