VICISSITUDES DA VIDA

Elmar Carvalho

Recebi, nesta manhã, telefonema de meu pai, que noticiava o falecimento do poeta Cunha Neto, ocorrido em Campo Maior, de madrugada. Meu pai havia ido ao velório. Não pude ir ao sepultamento do bardo. Tenho recordações antigas dele. Quando eu tinha por volta de nove anos de idade, vi um folheto de sua autoria, que o meu pai recebera na missa matinal de domingo, a que tinha ido assistir na matriz, hoje catedral. O cordel falava sobre o festejo de Santo Antônio do Surubim, padroeiro da cidade. Cantava as proezas e a coragem dos vaqueiros, que são homenageados na festa religiosa, com um dia a eles dedicado. Senti orgulho do conterrâneo, e – por que não confessar? – uma certa inveja. Imaginei o meu nome estampado em um livro. Mas só fui despertar de verdade para a literatura um pouco mais tarde.

Tempos depois, vi outros livretos do poeta, com poemas que falavam da lagoa do Corró, da saudade, e das belezas arquitetônicas e naturais de Campo Maior. Zé Cunha Neto era um autêntico cordelista, também chamado de poeta de gabinete, porque manejava a palavra escrita, mas não era um repentista, cuja principal característica é improvisar, acompanhando-se por uma viola. Foi meu amigo e amigo de meu pai. Quando tomei posse de minha cadeira na Academia do Vale do Longá, Zé Cunha me prestou uma enternecedora homenagem, declamando um poema de sua autoria sobre a minha pessoa. Não precisaria acrescentar que fiquei deveras comovido. Isso significa que o poeta era despojado da mesquinha inveja e sabia reconhecer as qualidades de outra pessoa, de outro poeta.

Era um cidadão de bem e do bem. Sua mulher, dona Ana, foi uma boa e sábia companheira, que soube amparar e compreender o grande poeta popular. Nos últimos anos, vinha amargando forte depressão, que torturava seu espírito, tornando-o quase recluso, retraído, quando outrora fora alegre, expansivo e sociável. Lembrando-me dos seguintes versos de Antero de Quental: “Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração”, tenho a certeza de que o coração bondoso e tão sofrido do poeta Cunha Neto encontrou abrigo, amparo e lenitivo na destra do Senhor.

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À tarde, quando eu voltava de um passeio a um balneário de Timon, vi, na avenida Joaquim Ribeiro, um rapaz tentando entrar num casebre, batendo vigorosa e insistentemente na porta, que permaneceu fechada. Não sei se alguém respondeu às insistentes batidas, com alguma negativa. Sei que o rapaz afastou-se e foi sentar em uma soleira de porta, próximo. Começou a sorrir, aparentemente sem nenhuma razão. Talvez risse de si mesmo ou da possível negativa, que recebera. Seus cabelos eram esquálidos, maltratados; as roupas, velhas e manchadas, e o seu aspecto geral era de sujeira, como se ele não cuidasse de si mesmo. Os que estávamos no carro, achamos que ele parecia estar drogado.

Por tudo que tenho visto, lido e ouvido, considero que a droga foi o grande flagelo do final do século passado, e parece que continuará a ser o mal deste século XXI. Traz grandes malefícios ao viciado, que termina sendo um tormento, inicialmente, para a sua família, ao exigir dinheiro para o sustento do vício, e depois para a sociedade, quando começa a furtar e a roubar, para poder adquiri-la. Segundo os estudos e as observações, o crack vicia logo na primeira ou segunda vez em que é fumado, prejudica o cérebro e a saúde do dependente e muitas vezes o leva à morte.

Na ansiedade e na compulsão pela droga, o usuário é capaz até mesmo de assaltar e matar, e nesses momentos a sua consciência e freios inibitórios morais ficam completamente desativados. Às vezes, o crime hediondo é cometido contra parentes próximos e pessoas que o dependente amava. E a sociedade se queda perplexa, impotente, diante da brutalidade e da barbárie que se instaura, sem nenhum sentido e de forma avassaladora.

7 de fevereiro de 2010