WASHINGTON RAMOS

UMA BICICLETA GORICKE

     O escritor Eneas Barros já foi um bom ciclista. Lembro-me de que, nos anos 60, quando estudávamos no Ginásio Leão XIII, ele tinha uma bicicleta Goricke. Ia, algumas vezes, às aulas de Educação Física nessa magrela, ministradas na casa do diretor do colégio, que ficava na rua São João.

     Uma vez, ele me contou que fez um pedal, nessa Goricke, saindo de uma chácara ( foi a chácara Santa Irene? Ou foi a Meu Xodó? Não lembro mais exatamente qual foi ), que ficava na BR – 343, com um grupo de escoteiros, e foi o primeiro a chegar a Teresina. Todo entusiasmado, correu para contar essa proeza a uma pessoa querida e levou um carão, pois estivera sob o risco de se acidentar gravemente. Foi contundente o baque desse pito, mas ele deixou pra lá, relevou. Hoje ri dele.

     Que fim levou essa Goricke? Eu não sei, presumo que Eneas também não saiba. Se ainda existir e estiver bem conservada, é uma relíquia de valor altamente inestimável. Essa marca de bicicleta não é mais produzida. Era de origem alemã, mas fabricada também em São Paulo. Em 1967, foi incorporada pela Monark. Esta também saiu de linha.

     O sítio Meu Xodó sumiu do mapa. A chácara Santa Irene está em ruínas, inclusive sua bela placa luminosa na entrada. Está à venda.

     No Brasil, não temos o costume de preservar monumentos, praças, prédios, as coisas em geral. O pessoal do Patrimônio Histórico que o diga. Mais do que nos outros países, aqui tudo some muito rápido. Ficam, porém, as boas lembranças do passado, que são conservadas em textos impelidos por nossas insistentes recordações. Não sou passadista nem afirmo que a vida lá atrás era melhor do que hoje em todos os sentidos. Em alguns aspectos, sim; em outros, não.

     Concretamente, não há mais nada daquela bicicleta Goricke. Nenhuma foto, nenhum desenho, nenhuma peça remanescente. Fica agora esta crônica como resultado de uma insistente recordação e também como um alerta para que olhemos para o presente. O que foi bom no passado deve ser preservado e, se possível, produzir alguma coisa como um texto nos dias atuais.