Itamar Vieira Júnior, foto Zanone Freissat, FolhaPress
Itamar Vieira Júnior, foto Zanone Freissat, FolhaPress

Um rio que deságua na voz: uma saga brasileira em trilogia

 

Décio Torres Cruz*

 

De origem nórdica, do norueguês antigo significando tanto “o que é dito”, “história” ou “conto”, quanto “vidente”, a palavra “saga” também era o nome dado pelos romanos às bruxas e feiticeiras. O termo passou a se referir à tradição oral lendária e anônima dos escandinavos e islandeses e às narrativas e canções heroicas baseadas em tais lendas orais até o século XII, quando, a partir daí, as sagas passaram a ser redigidas. Também significa “narrativa fecunda em incidentes”, “história longa e muito movimentada de uma família que abrange várias gerações”. E é neste último sentido épico, como relicário das histórias familiares, que falaremos da obra do escritor baiano Itamar Vieira Jr.

 

Sagas brasileiras

 

O uso da palavra saga para se referir ao contexto brasileiro já havia sido utilizado por Guimarães Rosa no título de seu livro Sagarana (1946), neologismo que mescla a palavra “saga” (narrativa épica) com “rana” (sufixo tupi que significa “à moda de” ou “à maneira de”). Seus contos são verdadeiras sagas sobre personagens e cenários do sertão. Contudo, Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, pode ser considerada a primeira saga que retrata a vida miserável e a peregrinação de uma família de retirantes pelo sertão nordestino. Mais recentemente, a Trilogia Brasil (2022), de Antônio Torres, reúne as histórias de uma mesma família iniciadas em 1976 com Essa Terra, continuadas em O cachorro e o lobo (1997) e finalizando em Pelo fundo da agulha (2006). Agora temos a trilogia de Itamar Vieira Jr. que podemos chamar de “a saga do povo negro da Bahia”, composta por Torto arado (2018), Salvar o fogo (2023) e concluída com Coração sem medo (2025).

 

Recepção crítica, traduções e adaptações

 

Antes de enveredar pelo romance, Itamar Vieira Jr. já possuía uma bem sucedida história literária como contista, iniciada com os livros Dias (2012) e A oração do carrasco (2017, finalista do Prêmio Jabuti em 2018), e retomada em Doramar ou a odisseia (2021). O romance Torto arado que dá início à trilogia ganhou vários prêmios no Brasil e no exterior: o Leya (2018) e Oceanos (2020) em Portugal, Jabuti (2020) no Brasil, e Montluc Rèsistance et Liberté (2024), na França. Figurou durante muito tempo nas listas de best-sellers no Brasil, ultrapassando mais de um milhão de exemplares vendidos. Foi traduzido para 33 idiomas em mais de 50 países, chegando à lista de finalistas do Booker Prize 2024 nos Estados Unidos onde recebeu muitas críticas favoráveis nos conceituados jornais The New York Times Book Review e The Financial Times que o elegeu Livro do Ano. Também recebeu críticas elogiosas no The Guardian na Inglaterra e no Jornal de Letras, artes e ideias, de Lisboa.

O autor ganhou bastante destaque na imprensa mundial não só pelo livro e suas traduções, mas também pela adaptação teatral After the silence [Depois do silêncio], que circulou por 17 países, escrita e dirigida por Christiane Jatahy. O livro recebeu uma fantástica adaptação musical com roteiro de Aldri Anunciação e direção de Elísio Lopes Jr. O musical estreou em Salvador em 2024 e lotou os teatros brasileiros atingindo um público de 70 mil pessoas e irá retornar neste ano. O livro também está sendo adaptado para o audiovisual numa série da HBO Max, dirigida por Heitor Dhalia, com roteiro de cinco mulheres negras, lideradas por Luh Maza.

Embora possua uma estrutura polifônica dividida em três partes (cada uma narrada por uma diferente voz), com linguagem bastante inovadora e poética, e cenário e temática focando nas formas contemporâneas de escravidão, alguns (poucos) críticos brasileiros tentaram mitigar a qualidade estética e literária de Torto arado, classificando-o como uma simples continuação do regionalismo (termo que carrega em si o ranço do preconceito em relação à literatura brasileira que não seja produzida no Rio de Janeiro ou em São Paulo) do período modernista. O livro, suas continuações, suas adaptações e o seu sucesso nacional e internacional têm provado que ele está muito além de ser apenas um mero projeto regionalista ou um best-seller de qualidade questionável como tentaram classificá-lo.

 

Torto arado: A faca que corta o tempo

 

 

Torto Arado discorre sobre a infância e a vida adulta das filhas de Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau: Bibiana, que tinha o espírito inquieto de quem não nasceu para ser moradora de terra alheia e Belonísia, “a fúria que havia cruzado o tempo”. Ao brincarem com uma faca misteriosa encontrada numa mala de couro debaixo da cama da avó Donana, um acidente trágico deixa uma das irmãs sem língua. Após o trágico acidente, elas se unem numa relação silenciosa e profunda na qual uma assume a voz da outra.

Tendo por cenário uma comunidade quilombola na fictícia fazenda Água Negra no sertão baiano, e estruturada por diferentes vozes narrativas num tom bakhtiniano, a história trata do universo de trabalhadores rurais descendentes de escravizados e as dificuldades enfrentadas por esse grupo, denunciando a perpetuação do colonialismo no trabalho análogo à escravidão ainda encontrado na agricultura brasileira contemporânea em consecutivas gerações.

Apresentando algumas características do realismo mágico latino-americano, no qual personagens lidam normalmente com o inusitado que serve de crítica para questões político-sociais  e de identidade cultural, a avó Donana conversa com os mortos e o pai delas é um respeitado curandeiro espiritual. A trama descreve o sofrimento cotidiano de pessoas que enfrentam a seca e pobreza, a resistência contra a opressão de latifundiários e a busca pela dignidade. O romance enfoca a trajetória de vida, casamentos arranjados, trabalho pesado e a maturidade das irmãs que confrontam os ditames desse mundo arcaico. Os temas destacam, ainda, a luta pela terra, as injustiças sociais, o legado instituído pela escravidão, o machismo, a resistência das mulheres, e a religiosidade de matriz africana encontrada no apelo aos encantados no jarê, espécie de candomblé de caboclo celebrado na Chapada Diamantina.

 

Salvar o fogo: A chama que a Igreja não conseguiu apagar

 

 

Como em Torto arado, os protagonistas de Salvar o fogo são dois irmãos, Luzia, uma lavadeira estigmatizada por sua deformidade física e chamada de bruxa, e Moisés, levado pela irmã para ser educado num colégio de religiosos até ela descobrir os abusos por ele sofridos. O cenário continua sendo o interior da Bahia, mas desta vez em Tapera, pequeno povoado de agricultores que vivem à sombra de um mosteiro católico construído no século XVII no Recôncavo baiano. Como no período medieval, a terra onde moram e trabalham pertence à Igreja, refletindo uma dependência quase feudal que se perpetua por gerações.

Embora os dois livros tratem de famílias distintas e não haja um encontro direto dos personagens, há uma ligação geográfica, espiritual, temática e metafórica conectando as histórias através do fluxo de um rio. O Paraguaçu, que nasce na Chapada Diamantina perto de onde Bibiana e Belonísia viviam, é o mesmo que passa pelo Recôncavo e banha o povoado de Tapera. Junto com suas águas, o rio flui transportando as dores, os sonhos e as histórias de um povo de uma região à outra. Além disso, as sutis alusões aos movimentos de resistência camponesa e às figuras místicas de curadores e líderes de Jarê ressoam elementos do romance anterior, como se as entidades de um livro continuassem a observar os personagens do outro. O desafio ao poder colonial, seja simbolizado pelos coronéis ou pela Igreja, e a luta pelo direito à terra em ambos os livros, revelam que, embora de linhagens diferentes, todos pertencem à mesma “família humana” de excluídos que decidem, finalmente, levantar sua voz.

Como um mosaico de memórias, o livro aborda temas fundamentais: os traumas do colonialismo, o poder e os abusos da Igreja Católica, a busca por identidade e o racismo estrutural. A obra também disseca a força da religiosidade, a violência do patriarcado e a desigualdade social, evidenciando o choque das crenças ancestrais com o catolicismo institucional. A trama, dividida em quatro partes, enfoca a luta contra o latifúndio e a resistência familiar, ecos de Torto Arado. Contudo, a exploração aqui se expande, afetando não apenas a população negra, mas também os descendentes de indígenas e mestiços. Mantendo o discurso polifônico anterior, o autor alterna entre o coloquial, a solenidade bíblica e o lirismo contundente característico de sua escrita: “Mas o tempo foi me contando, o tempo fala, sim... o tempo fala de muitas maneiras, pela saudade e pelo abandono”. O fogo, que simboliza destruição e purificação, representa também a perpetuação da memória. A luz que Luzia carrega em si e em seu nome precisa ser salva. Salvar o fogo implica salvar o irmão, sua própria linhagem e essência em um espaço que insiste no apagamento. Transitando entre presente e passado, o livro desvela segredos de família como brasas ocultas sob cinzas, à espera de um sopro para voltar a arder.

 

Coração sem medo: O grito urbano da terra

 

 

Em Coração sem medo, Itamar Vieira Junior completa o ciclo das águas, transportando seus personagens pelo rio Paraguaçu, retirando-os do isolamento geográfico do Sertão e do Recôncavo para trazê-lo ao caos asfáltico de Salvador quando o rio deságua na Baía de Todos os Santos. Enquanto nos livros anteriores a luta era pela permanência na terra, neste, nos deparamos com a tragédia urbana após a expulsão, quando os sobreviventes do êxodo rural tornam-se os marginalizados da metrópole.

Embora a prosa poética do autor ainda prevaleça, sua linguagem mimetiza o ritmo da metrópole, adquirindo uma cadência mais rápida, refletindo a correria urbana e a angústia da protagonista. A narrativa continua polifônica, primeiro conduzida por um narrador que descreve Rita Preta como uma personagem forte, moradora de uma ocupação urbana. Depois seu filho assume a voz narrativa para descrever e tentar entender a morte do irmão, numa técnica metanarrativa bastante inovadora quando um personagem assume a condição e a voz do escritor.

A trama começa mostrando a rotina exaustiva que Rita e a classe trabalhadora enfrentam diariamente. Após uma incursão policial na comunidade, sua vida é completamente estraçalhada pelo desaparecimento de seu filho Cid. Abandonando o cenário bucólico anterior, o livro adota um tom de urgência e denúncia. A busca pelo filho leva a protagonista a uma peregrinação por becos, delegacias, IML e todo tipo de local onde possa encontrar notícias ou resquícios dele, exibindo as deficiências de um Estado que atua para preservar o silenciamento e o apagamento.

Na mudança geográfica do barro para o asfalto, o autor descreve a Salvador contemporânea com precisão e nos mostra uma cidade feita de camadas de história soterrada. Ao conectar as pontas soltas, o autor nos mostra que a exploração da população pobre e negra e o preconceito racial e social são iguais em qualquer lugar, pois independe de tempo e de cenário.

Rita não só herda as dores de Luzia e Bibiana como vai atrás de sua origem, retornando ao local onde nasceu, tentando conectar as réstias de lembranças de sua história que tentaram apagar. Ela também se conecta com os encantados e com seus antepassados num ilê axé, descobrindo a relação de seu nome com Santa Rita Pescadeira, fechando o círculo da trilogia e concluindo que, apesar de tudo, “viver pode ser maravilhoso”.

Ao tratar de feridas abertas como a violência policial nas periferias e o racismo estrutural prevalente, o “coração sem medo” da protagonista mostra a evolução final da resistência, quando a necessidade de justiça supera o medo da morte. A luta pela terra foi substituída na luta no asfalto pela sobrevivência dos filhos da periferia

Coração sem medo apresenta um desfecho surpreendente, levando o leitor a perceber a trilogia não apenas como um registro histórico de um passado centenário, mas como uma denúncia dos sofrimentos atuais causados aos corpos de pobres e negros e as consequências atrozes provocadas pelo preconceito e pela posse indiscriminada de territórios rurais ou urbanos, adquiridos pela força e grilagem.

Itamar Vieira Júnior se revela um grande cronista das cicatrizes da alma brasileira. A luta pela terra no sertão ou pela vida na favela é a mesma batalha contra o apagamento da história ancestral de um povo que busca sobreviver e retomar o direito de narrar sua própria história. A saga dessas mulheres não se encerra no final dos livros: ela ressoa em cada busca por justiça que insiste em florescer entre o barro e o concreto. Com sua experiência de geógrafo, Itamar cartografou a alma de um Brasil que, sem medo de se olhar, decidiu não mais silenciar. Nesta trilogia da terra, das águas e do fogo sagrado, ele reúne a saga da família dos despossuídos e excluídos que lutam pelo direito a uma existência digna.

 


* Décio Torres Cruz é escritor, membro da Academia de Letras da Bahia, autor de Viagens & travessias e A poesia da matemática, dentre outros.