[WASHINGTON RAMOS]

                                          U M   L I V R O   P E R T U R B A D O R

     “E se este mundo for o inferno de outro planeta?” Lembrei-me dessa pergunta do escritor Aldous Huxley quando estava lendo o romance O prestígio do Diabo, de autoria do piauiense Assis Brasil. Não lembro quando exatamente a li pela primeira vez. Foi há uns dez ou quinze anos. Mas, bem antes de chegar à metade da narrativa do piauiense, lembrei-me dela. É perturbadora, mas é verdadeira infelizmente. É perturbador também o livro de Assis Brasil e inclusive já a partir do título.

     Desde quando surgiram na Terra que os seres humanos vêm se matando mutuamente, se agredindo, praticando atrocidades uns contra os outros, sendo o homem lobo do próprio homem, como disse o dramaturgo Plauto na Roma Antiga. Até mesmo na Bíblia, que é considerado um livro sagrado, há muitos casos de assassinatos frios como foi o de Caim, que matou o próprio irmão simplesmente por inveja. Com tanta maldade praticada diariamente, fica-nos a impressão de que este mundo é governado pelo Diabo.

     No romance de Assis Brasil, Lázaro, o personagem central, é perseguido pela própria sombra (um espírito maligno com certeza), que o derruba muitas vezes e o deixa ferido. Ele procura ajuda. Consulta-se com dois médicos, com uma cigana honesta, com algumas pessoas místicas; vai a um terreiro de macumba e lá é rejeitado. De todos,quem chega mais perto de curá-lo é a cigana. A cura não se efetivou por culpa única e exclusiva dele mesmo, Lázaro, que não seguiu devidamente o que ela lhe recomendou. Em vez disso, ele vai a um motel com uma vagabunda e despreza a própria namorada, que é uma garota decente, carinhosa e que jamais se recusara a ir à cama com ele. Será que isto não é uma coisa demoníaca, ou seja, o cara desprezar sua namorada, que é limpa, honesta e bonita, para ir transar com uma vagabunda que dá pra todo mundo, que inclusive tem o costume de ir a um terreiro de macumba para ser possuída por dois negros? Não é o Diabo sendo prestigiado? E olhe que não está no gibi a quantidade enorme de homens que fazem esse tipo de coisa. Deixam a mulher honesta e limpa em casa para irem atrás de vadias. É importante destacar que o diálogo que Lázaro mantém com a cigana é uma das partes mais interessantes do romance. É emocionante quando ela pede que ele vá pedir perdão a pessoas que ele ofendeu e que mantenha a fé em Deus.

     Agora toda a ação narrativa é permeada de questões existenciais como neste trecho: “Eu sou um bolha, uma folha seca sem destino.” Ou neste: “O dilema é que você não pode se prender ao seu compromisso social nem renunciar totalmente a ele.” Um diálogo que Lázaro tem com um professor de filosofia talvez seja a parte mais introspectiva do romance.

     Há ainda muitos aspectos interessantes no livro que merecem comentários. Mas, para comentá-los, teria que antecipar mais algumas partes do enredo. Já fiz isso demais. Agora cabe ao leitor ler esse livro perturbador do mais importante romancista piauiense.