4. Sobre histórias da literatura  piauiense a partir de um quase diálogo com  Francisco Miguel de Moura. 3ª Seção da Primeira Parte do livro O espelho de Carroll (resenhas, ensaios e alguns artigos  sobre autores piauienses
           

         A esta altura de sua poética, caro poeta, vejo a que nível de nobreza estética chegou um poeta nascitur como  V. ., tanto quanto o foram só para dar alguns nomes  da prata de casa, ou seja, no circuito poético piauiense: Da Costa e Silva, Martins Napoleão, Clóvis Moura, Hardi Filho. H. Dobal, Paulo Machado, Rubervam Nascimento, Menezes e Moraes,. H. Dobal, Mário Faustino, Celso Pinheiro Filho, Carvalho Neto, Torquato Neto, entre  outros bons ou excelentes poetas do Piauí. Contudo,  voltemos um pouco  ao seu soneto "A falta que faz;" Antes,  vou-lhe ser franco.  V. ainda   se encontra numa fase fértil, produtiva,  de seu percurso  literário. Diria, mais na poesia. V. é um poeta que trabalha em outros gêneros e é igualmente um polígrafo, uma vez que  cultiva   outros gêneros literários: ficção, (romance, cont, crônica,  e ainda faz, vez por outra,  uma tradução do francês  e inglês.
          Registrarei, em ordem de grandeza  estética,  o seguinte: ensaio, sobretudo, o poético, mas trabalha bem no ensaio sobre ficção. V.  escreveu   uma  história literária que,  no meu juízo. é superior, em formação acadêmica, à história literária   do  Herculano Moraes, mas  V. redundou  em erro por omissão nas  duas versões da sua  obra historiográfica,  uma vez que deixou de citar-me     e de citar, por imparcialidade requeridas por    protocolos   da esfera historiográfica, outros tantos autores bons e ótimos, velhos e jovens, de forma independente como fez com outros piauienses, os quais  são comentados  na forma de verbetes. 
       Não estou me reportando a esse assunto por cabotinismo   ou  por dor de cotovelo,  neste segundo caso, segundo diz o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ao ironizar  poetas que, por dor de cotovelo,  se veem  compelidos  a  escrever  versos  lacrimosos e  sem  criatividade  alguma.  Longe disso, mas sim em face de um dado bibliográfico em moldes acadêmicos, ou seja, com uma obrigação de um historiador literário que não pode deixar de registrar um nome de um autor, pois estará incorrendo em erro de omissão ou silêncio. Involuntário ou adrede pensado.
       O mesmo problema ainda mais grave foi a omissão por completo do poeta e historiador Herculano Moraes (1945-1918) quanto à minha produção acadêmica. Ele nunca me havia  citado nem sequer com uma linha nas duas versões de sua história da literatura piauiense. Simplesmente, me ignorou.  Mesmo quando    já havia escrito antes dele um bom número de artigos juvenis sobre literatura brasileira em jornais de grande circulação em Teresina no início dos anos 1963.
         Moraes é um bom poeta. No entanto, como historiador, lhe faltava uma formação mais completa, máxime do ponto de vista teórico-metodológico, domínio de algumas línguas, do latim, do grego, conhecimentos de teoria literária. gramática, filologia, linguística e uma considerável e multidisciplinar cultura geral. Era talentoso, sim, daí ter sido admirado como poeta por muita gente do Piauí, visto que a originalidade, o talento são fenômenos da criação literária que não precisam de ter tanto saber erudito. Mas, Herculano  Moraes tem o seu lugar assegurado de justiça e de direito na vida da inteligência piauiense
         Ninguém lhe pode sonegar esse aspecto de sua dinâmica atividade literária, de sua capacidade de escrever bem e de forma clara. Era um jornalista nato. Foi um intelectual batalhador e incansável no campo das letras piauiensse. Seu nome está citado, por exemplo, em, pelo menos, duas histórias literárias de dois autores e historiadores literários de peso: um, o brasileiro Wilson Martins (1921-2010), com os dois grossos volumes de sua também monumental obra de pesquisador, scholar e estudioso da literatura brasileira, que é A crítica literária no Brasil (Primeiro volume. 1983; segundo volume, 3 ed. Atualizada. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial do Paraná.: Franciso Alves Editora, 1992. 
     As citações  se encontram no segundo volume, p.236-243. O outro Rio de Janeiro, RJ: Francisco Alves,1983;  O segundo historiador que cita o Herculano   é uma historiadora italiana, a Luciana Stegagno Picchio, que escreveu uma monumental História da Literatura brasileira.2ª edição revista e atualizada (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. 
 Entretanto, acentuamos  que o crítico e historiador Wilson Martins cometeu dois deslizes. O primeiro se reporta ao título da obra do Herculano, chamando-a, à página 236, de A nova literatura piauiense e, contraditoriamente  denominado-a, à página 243, pelo seu título correto (sic!), Visão histórica da literatura piauiense, título  da obra de Herculano Moraes de desde a sua  primeira versão ...
          O segundo deslize se refere ao sobrenome do historiador piauiense, ortograficamente grafado “Morais” e não “Moraes,” usado pelo Herculano  na capa de seu livro, cuja versão, num único volume, tem data de publicação de 1976. Foi até V.,  poeta Miguel de Moura,  quem me ofertou  um exemplar  da estreia do Herculano  como historiador  literário
          A obra era muito fraca e só valia pelo seu sentido  histórico - documental,  ou sejam  de quase catalogação  relacionar  nomes de escritores mais em evidência  no Piauí. Não empregava metodologia  alguma  em todos os aspetos, mas o esforço despendido pelo então  jovem historiador piauiense levou-o a reescrevê-la e melhorá-la muito mais, expandindo-a na exposição e na sua forma de entendimento do que seja um história literária melhor estruturada. 
        Todavia, ainda veio com muitas falhas, na publicação em três volumes.  No historiador, a parte de análise de alguns autores é desproporcional em qualidade e aprofundamento de visão analítica com relação a outros  autores que, na obra,  recebem tratamento analítico  mais    generoso  de que outros autores e, agindo assim, incorre  em  armadilhas  grosseiras   de omissão, injustiça   e de falta de maior  pesquisa  e conhecimento mais  íntimo  dos autores.  No  entanto,  nem tudo  está perdido   e há sempre  um tempo  para tud: “..pour le plaisir et pour le travail.”
         A roda do tempo  vai  arrumando tudo,  ou quase tudo.  E não é  que que o antigo vizinho  meu  da Rua São Pedro , amigo  de adolescência do meu irmão Winston, já citado,  velho Herculano  de Moraes, bom  poeta, bom  escritor  e ótimo analista  de ficção e  poesia,  escritor   já maduro, com os seus livros  publicados, membro da APL.    me escreveu uma carta à mão, datada de janeiro de 2010, perguntando quando iria   ao Piauí,  a fim de tomar  posse da cadeira  que pertencia ao meu  pai., uma vez que  os membros dessa  instituição literário-cultural amarantina me  elegeram  em “pleito  regular, pois a vaga na  Academia  de  Letras de Amarante me esperava  para tomar nele  posse,  cujo  patrono  é meu  pai.  
       Não lhe respondi. Tempos depois,  me vem pelos Correios  um bilhete se  me lembrando da vaga    de membro  da Academia de Letras do Médio-Parnaíba, de Amarante, Dessa vez,  datilografou  o bilhete, sempre bem  polidamente  escrito  e muito  claro  no que respeita ao seu estilo de escrita  objetivo  e límpido. No bilhete,  percebi,  pela primeira  vez,  que tinha um visão  mais   profunda de mim. Era   um  bilhete  bem cordial e educado,   um bilhete até  elogioso e animado, cujo teor me permito     transcrever,    em parte, mais adiante, enfim,  bilhete com todo aquele estilo  próprio  e impecável que usava  nos  artigos saídos   em jornais  de Teresina, Na verdade,  ele me enviou uma carta e uns quatro  bilhetes  em  diferentes  intervalos de tempo., que  Eis  um parte de um dos bilhetes em que me fala de uma 6 edição de sua  Visão histórica  da literatura  piauiense e que  até gostaria de  que   a examinasse. Vejo aí uma prova de que  Herclano de Moraes já me  via com  olhos  outros  na condição  de historiador. Veja parte do bilhete:
“Caro  professor Cunha e Silva Filho:
     Mesmo acompanhando  com interesse o sucesso que os seus ensaios e análises têm causado  entre nó,  só agora  decidi   tomar a iniciativa de conversas  que o destino interrompeu. Muito me agradou sabê-lo um bem sucedido  professor  de literatura, cujos textos tenho lido  com muito  interesse (...)
      Um historiador literário mais bem  aparelhado  tem que  ter um faro   de bookworm, de caçadores  de novos autores não somente  dos que já têm livros editado( o que significa  não necessariamente, é óbvio, serem os melhores), mas também  daqueles que não tiveram  ainda, por  um razão  ou  outra,  oportunidade de o fazer. E só o faze mais tardiamente. Tal foi o meu caso  particular. Demorou muito para que fosse   editado. Meu  primeiro  livro,  originalmente, um dissertação de mestrado, Da Costa e Silva: uma leitura da saudade, é de 1996, quando  já estava  com  cinquenta anos e inédito em livro!. Talvez aí resida   um atraso  de  visibilidade  da minha atividade  de escritor e crítico explique   um silêncio  intencional.
         Por outro lado,   o que me deixa com  um pé atrás, no que diz respeito  a omissões   decho historiográfico de historiadores piauienses,  é que  venho publicando  artigos na imprensa  piauiense em Teresina, desde , grosso modo,  1963.A questão de uma história literária depende de uma capacidade de síntese, a  qual  demanda uma habilidade de dizer muito em pouco espaço da página em branco, além de um planejamento de um corpus que sirva ao desenvolvimento da história literária com organicidade e harmonia no tocante às apreciações e críticas necessárias na interpretação dos autores selecionados e examinados. Em suma, o primeiro passo na feitura de uma  história literária, a meu juízo e  no que tange à escrita de uma história  literária,  se refere ao desenvolvimento de um projeto de história literária. 
            No que diz respeito ao historiador, é fundamental  a utilização de uma metodologia, empregando este termo na sua acepção etimológica, ou seja, encontrar um caminho certo, com um roteiro bem delineado a ser colimado com sucesso a fim de que a obra assuma uma unidade convincente quanto a valores estéticos de cada autor, e bem assim quanto à  coragem de assumir de verdade o papel que lhe cabe neste gênero de pesquisa, que é narrar e expor com independência e sensibilidade à dimensão estética e aos valores da linguagem literária - dois pilares que se completam como elementos-chave, fundamentais e decisivos à compreensão de uma obra literária no campo da historiografia
         Para tomar esta atitude, o historiador deve demonstrar seriedade de analisar  um livro e, se possível, julgar do mérito e/ ou defeitos de uma obra nos vários gêneros conhecidos de quem lida com o fenômeno literário, não faltando azo para, se possível, fazer julgamentos coerentes e ter respeito às diferenças de escritor para escritor, seja em poesia, seja em que outro gênero for, tendo em vista sempre como inerente a qualidade ou não das obras literárias em exame .O historiador, enfim, deve estar consciente de que, na história literária, encontrará livros fracos estruturalmente falando, autores medianos, bons autores e ótimos autores
        Já disse alguém que a literatura, mesmo a chamada de alcance mundial, não é só feita de gênios. Sabendo julgar com equidade e sem uma tendência a preferências e desacertos de visão da história literária de um estado do país é uma tarefa árdua e extenuante. Dado um número enorme de autores, principalmente em tempos atuais, torna a tarefa do historiador ainda mais complexa.  Por outro lado, deve-se louvar o esforço e a perseverança de Herculano Moraes que se salvou como historiador graças ao seu talento de escritor, talento para escrever bem, num estilo próprio. compensando as deficiências de sua formação intelectual e autodidática na esfera literária. Foi, assim, que atingiu a 4ª edição de sua obra na nova versão, em três tomos, com data de 1997, revista e atualizada.
      A minha produção, hoje, é extensa. Comecei  como  um escritor que não havia ainda   editado  um livro, só escrevendo para jornais de Teresina. Fiz o mestrado .e o meu  trabalho  foi publicado pela UFPI em convênio com a APL. em 1996. Esse é um marco significativo  na  minha  carreira de escritor,  conforme V. deve ter visto em postagem da minha Coluna "Letra Viva"  do Site  Entretextos, dirigido pelo dinâmico escritor e professor Dílson Lage Monteiro. 
       São dez livros editados e quinze livros inéditos, um dos quais escrito em inglês e francês. Pretendo também editar  om  obra de memórias  bibliográficas   concernentes   a autores didáticos  que escreveram e  lecionaram  línguas estrangeiras no país. São pequenas  anotações, escritas  ao correr da pena, pois as faço à mão  aproveitando o  espaço em branco  das capas artesanais mesmo  que  venho   fazendo   nos últimos  anos.   Também faço referências a estrangeiros que vieram morar no país. Faço,  igualmente, com alguns autores ou não, e até com dicionários  de alta  relevância, assim como  gramáticas estrangeiras, ou não,  de línguas que domino. Tudo começou  com um  hobby que há tempos cultivo:  colecionar   livros  didáticos,   principalmente. os do me  tempo de ginásio  no Domício e de científico no  Liceu Piauiense.       
         Não acha, caro Miguel de Moura, que eu deveria merecer  de sua parte, enquanto  obrigação acadêmica,  um verbete  mostrando que livros escrevi e foram publicados, inclusive fazendo alguma apreciação positiva ou negativa, não importa, sobre a minha produção científica ?Não sei, querido poeta, por que motivo não destinou um verbete na sua obra de historiador literário. Apenas me citou, "à vol d'oiseau." Quer dizer, nada de relevante comentou sobre a minha produção científica atualizada, porém me citando em apenas minguadas quatro  ou  cinco linhas, bem lacônicas e ainda cometeu um erro de historiografia. Não verificou o que eu venho produzindo ao longo de quatro  décadas! 
         Por exemplo, apenas afirmou que eu havia defendido uma tese sobre Da Costa e Silva “ (1885-1950), quando não foi tese, mas uma dissertação de mestrado estudando a saudade na poesia de nosso poeta maior, Da Costa e Silva (1885-1950).A minha tese de doutoramento foi acerca do contista João Antônio (1937-1996) e tem por título: O conto de João Antônio: na raia da malandragem, defendida, em 2002, na Faculdade de Letras da U.F.R.J. 
       Entretanto, sobre a minha produção ensaística, de crítico literário, de tradutor, de cronista, de articulista de política brasileira e estrangeira. V,,  caríssimo poeta,  nada disse sobre mim, nem tampouco se reportou,  em verbete  próprio  -  e não com  nota  de rodapé ou referências  nanica    -,  segundo deveria ser um trabalho de historiador meticuloso, a outros tipos de escrita literária que tenho produzido desde muito jovem, com  textos  de cunho literário que cultivo de forma praticamente ininterrupta. Lendo a sua boa História da literatura do Piauí me dá, por vezes, a impressão de que não pertenço ao sistema literário piauiense.
       A razão seria por que moro distante do Piauí? Todavia, isso não seria uma desculpa plausível, de vez que sempre escrevi mais para o Piauí. Nasci em Amarante e, portanto, pertenço à história literária piauiense, malgrado os historiadores da "Cidade Verde" não me tenham mencionado. Não queiram tirar a minha raiz literária que está fincada no Piauí.
       Escrevo, desde adolescente, vale reiterar, para jornais e revistas de Teresina. Fiz dois lançamentos de livros em Teresina, na própria Casa de Lucídio Freitas e mais uma conferência sobre o bardo Da Costa e Silva. Fiz outro lançamento fora da APL Fiz, em Amarante, a mesma conferência sobre o “Poeta da Saudade.” Escrevi, por muito tempo, para os jornais Diário do Povo, Meio-Norte, Revista Presença, e um pouco para os Cadernos de Teresina, Revista De  Repente. Isso só para me cingir ao espaço literário de Teresina e, por extensão, do Piauí todo
      No passado mais remoto, anos 1963 até 1980, grosso modo, colaborei para os jornais: Estado do Piauí,  Folha da Manhã,  Jornal do Piauí, O Liberal Estou mencionado assim de memória. Certa vez, conversando com o meu correspondente aí, em Teresina, o saudoso amigo e escritor M. Paulo Nunes (1925-2021), ele me afirmou que, na Academia Piauiense de Letras (APL), não entraria escritor que não morasse no Piauí, opinião que era compartilhada pelo saudoso  e muito  ilustre  escritor Celso Barros Coelho (1922-2023). Fiquei achando aquilo estranho, pois sou um escritor piauiense nato, enquanto o ilustre jurista e ensaísta Celso Barros Coelho e outros não são piauienses, porém se tornaram piauienses de coração. No caso de. Celso Barros, maranhense. Por que essa discriminação? O Carlos Castelo Branco (1920-1993), piauiense, foi residente em  Brasília e no Rio de Janeiro, o Félix Pacheco (1879-1935, idem, o Da Costa e Silva (1855-1950), idem, o Afonso Ligório, idem.
         Por que esse “apartheid" contra mim tendo em vista que sempre estive ligado ao Piauí e, a par disso, tendo analisado obras de vários autores piauiense novos nunca analisados por  autores  piauienses  residentes em Teresina. Isso é um absurdo e diria até reducionista, quer dizer, sem cabimento. Historiografia  literária  é uma tarefa  de alta envergadura  intelectual e compromisso com  a vida literária. Exige de seu cultor muito e variado conhecimento,   muita sensibilidade  para a área literária  e  um   elevado senso de equilíbrio.   
           Ao contrário de Graça Aranha (1868-1931), que renunciou à Academia Brasileira de Letras (ABL), não critico quem entre para membro efetivo de uma Academia de Letras ou de outra natureza cultural ou científica. Só há pouco tempo,  o poeta de Poemas ou/tonais(1991), obra notável  que,  por sinal, tive o prazer  de ser um dos    reveiwers, sendo  publicado,  primeiro,  na Revista Lavra, de Brasília.  Terminei este capítulo  não havendo  tecido comentário algum sobre um soneto tão bem literariamente mentado, que é "A falta que faz."