Sob o signo do tempo, da memória e do amor

[Rafael Nolêto]

Elogio ao Zodíaco e outros poemas, de Igo Rafael, remete a uma inspiração múltipla e que envolve o próprio movimento da existência. Desde o título e da estrutura da primeira parte, dividida pelos doze signos (de Áries a Peixes), o zodíaco deixa de ser apenas referência astrológica e converte-se em arquitetura poética, numa espécie de engrenagem simbólica através da qual o autor contempla as diferentes experiências do humano. 

Conheço Igo Rafael como amigo e como um entusiasta da literatura, da cultura e da história. Professor, poeta e historiador, autor de O Signo da Cidade Nostálgica e presidente da Academia de História dos Municípios Oriundos de Campo Maior, ele traz para a poesia o olhar de quem compreende que nenhuma vida existe inteiramente separada do tempo que a atravessa, dos lugares que a formaram e das pessoas que nela deixaram suas marcas. Sua relação com a História aparece aqui como ofício intelectual, mas também se transforma numa maneira de sentir. O passado, em seus poemas, nunca está verdadeiramente morto; ele permanece, retorna, assombra, consola e pede para ser lembrado.

Talvez por isso o zodíaco lhe sirva tão bem como metáfora, até porque desde tempos muito antigos a humanidade olha para o céu procurando alguma ordem para aquilo que, na terra, tantas vezes parece incompreensível. Os signos marcam ciclos, passagens, estações e temperamentos; nesta obra, porém, mais do que determinar destinos, parecem oferecer ao poeta doze perspectivas para observar uma mesma matéria: o amor e tudo aquilo que aprendemos através dele.

Em Áries, o amor é risco, paixão e excesso; em Touro, aprende a permanecer. Em Gêmeos, torna-se diálogo e multiplicidade; em Câncer, casa, memória e acolhimento. Virgem revela a ética cotidiana do cuidado, enquanto Libra procura a difícil harmonia entre duas vontades. De signo em signo, percebe-se que o poeta não está propriamente descrevendo pessoas nascidas sob determinadas constelações, mas sim investigando maneiras de amar. 

Amar, nestas páginas, significa também aprender a permanecer e a partir, a desejar e a conter o desejo; significa aprender que cuidado não é ausência de paixão, mas talvez uma de suas expressões mais exigentes; aprender que alguns afetos não avançam em linha reta, mas regressam continuamente aos lugares onde um dia encontraram repouso. Em um dos momentos da primeira parte, o amor aparece como uma casa sem paredes, construída de memória, onde a dor pode descansar sem necessariamente ser curada. Aqui se encontra uma das chaves de leitura desta obra: o tempo.

O zodíaco gira, as estações passam, as pessoas chegam e partem, os corpos envelhecem, as casas mudam, os mortos se acumulam na memória e, apesar disso, alguma coisa permanece. Neste livro vemos uma permanente tentativa de compreender o que sobrevive depois que o instante termina e, por isso, a memória assume tamanha importância na segunda parte da obra.

A memória pode ser infância, quando o poeta retorna ao pé de goiaba, às frutas, às pipas, aos amigos e às pequenas geografias da juventude; pode estar nos livros, nos discos e na música herdada do pai; pode ainda assumir a forma de uma silenciosa procissão de parentes mortos, nomes que retornam como se a saudade tivesse o poder de reunir vivos e ausentes numa mesma sala. Mas memória, para Igo Rafael, não é apenas memória individual, pois ele nos mostra que existe também uma memória da terra.

O Piauí atravessa este livro como paisagem afetiva: carnaúbas, caatinga, estradas, serras, povoados, rios, festas, casas antigas, devoções e personagens. Campo Maior aparece como território de pertencimento e de história; o Riacho dos Negros torna-se espaço onde a paisagem conserva as cicatrizes da escravidão; o Museu Dom Paulo Libório é contemplado como uma casa na qual os objetos conseguem desafiar a erosão do tempo. Há nesse movimento algo profundamente coerente com a formação do autor: o historiador sabe que recordar é uma responsabilidade; o poeta sabe que recordar é também uma ferida. E algumas dessas feridas têm nome de amor.

A segunda parte aprofunda uma dimensão que já vinha sendo preparada no percurso zodiacal: a experiência amorosa deixa de ser contemplada apenas como ideia e ganha rosto, cabelos, olhos, perfume, pele, distância, hesitação e ausência. A própria abertura do livro dedica os versos a uma musa, chamada de “nota angelical” de uma lira triste, e alguns dos poemas mais íntimos retomam explicitamente essa interlocutora. É também nesse território que aparece o erotismo; mas não se trata, na maior parte da obra, de um erotismo ostensivo. 

O narrador parece preferir aquilo que quase acontece, pois ele descreve o intervalo entre dois gestos, a lembrança de uma fragrância, uma curva do corpo, a proximidade interrompida, a pele imaginada e o desejo que precisa conviver com a consciência de seus limites. Em Fenda, talvez uma das manifestações mais intensas dessa tensão, o corpo responde ao perigo da proximidade, enquanto o “quase toque” torna-se justamente mais poderoso porque permanece interdito. Em outros momentos, contudo, o véu se abre e o corpo surge sem tanta mediação: seios, lençol, calor, beijos e delírios fazem do amor também experiência física. 

Essa oscilação entre contenção e desejo me parece fundamental para compreender estes poemas. O erotismo de Igo Rafael está frequentemente ligado à impossibilidade. Deseja-se justamente aquilo que não pode ser inteiramente possuído. Talvez por isso o autor escreva, em No jardim da musa, que prefere aquilo que cintila no “intervalo”, no “quase”, no que se esquiva, chegando enfim à percepção de que algumas pessoas permanecem em nós como cifra, vestígio ou música baixa. 

Nestes poemas, amor e solidão se encontram. No poema Flamboyant, diante da árvore que floresce sabendo que também haverá queda, cinza e inverno, o poeta pergunta como suportar “o ofício da beleza”. Depois compreende que existem respostas que amadurecem silenciosamente nas raízes. A árvore converte-se, assim, numa espécie de mestre: ensina a permanecer durante as estações áridas e a confiar no retorno da beleza.

Os poemas reunidos neste volume possuem formas diversas: sonetos convivem com versos livres, elegias, hinos, confissões, cânticos e experiências de maior liberdade formal. Também dialogam com uma tradição literária conscientemente convocada pelo próprio autor: Camões, Dante, Goethe, Bandeira, Miguel Torga e outros surgem como companheiros dessa travessia. Não parece existir qualquer tentativa de esconder que todo poeta escreve cercado pelos fantasmas dos livros que leu. Ao contrário: Igo parece recebê-los à mesa.

Apesar dessas vozes, o que se revela ao final é uma experiência profundamente pessoal. Quando fechamos estas páginas, o zodíaco já não parece apenas desenhado no céu, ele está também dentro do homem. Há Áries nas paixões que nos incendiaram; Touro nas pessoas que permaneceram; Câncer nas casas às quais desejamos regressar; Escorpião naquilo que desejamos em segredo; Capricórnio nas coisas que o tempo nos obrigou a construir; Peixes em todas as ocasiões em que tivemos de aceitar que amar também significa deixar partir. Assim gira esta engrenagem: da solidão ao amor, e novamente ao amor. Talvez o verso derradeiro de Lance nos ofereça uma boa chave para toda a obra, onde depois de transformar o relacionamento humano numa partida de xadrez, o poeta conclui que o amor, além de conquista, é também um “xeque à solidão”.  É uma bela imagem para terminar esta apresentação.

Durante a vida: movimentamos nossas peças sob um céu que não controlamos inteiramente. Algumas partidas vencemos; outras abandonamos; algumas pessoas permanecem ao nosso lado durante anos, enquanto outras atravessam a nossa existência apenas por uma estação. Mas cada encontro modifica a posição das peças seguintes. E continuamos, sob signos, memórias e afetos; aprendendo, sobretudo, que o amor continua sendo uma das grandes forças pelas quais tentamos compreender aquilo que o tempo faz conosco.

D. Rafael Nolêto
(Jornalista, poeta e artista plástico)