Lucas Villa em lançamento de Bestiário, em São Paulo.
Lucas Villa em lançamento de Bestiário, em São Paulo.

[Scheila di Sodré]

O bestiário, de Lucas Villa, é um romance singular desde o título, que remete a um gênero literário comum na Idade Média e Renascimento, o livro sobre animais, em prosa ou verso, que tem como ilustres antepassados clássicos os livro História natural, de Plínio, o Velho, e a História dos animais, de Aristóteles. Porém, não se trata, aqui, de uma investigação zoológica, discurso filosófico, alegoria ou sátira: esta é uma história de um homem e uma mulher, tão iguais, tão desiguais. Ele, Adeodato, um cirurgião que abandonou a profissão para viver em uma antiga casa, em estado bastante precário, já em ruínas, assim como o próprio personagem, abalado pela perda da família em um acidente. Isolado nesse estranho ambiente, que recorda o mofo, o bolor, a decomposição, ele dedica-se ao seu hobby, a taxidermia – em possível alusão possível ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock. Ela, Ariadne, uma artista visual, é discípula da escola cirenaica, que defende ser o prazer imediato, sobretudo o físico, a meta última da existência (lembremos que a Ariadne grega foi esposa de Dioniso). Ou seja, ele, que empalha corpos de animais “que já não são”, como a rasga-mortalha, está mais próximo de Thanatos, a morte, do que é sombrio e da desolação; ela, que retrata animais impossíveis, está mais próxima da vida, das cores fortes, da imaginação. De certa maneira, os dois personagens buscam um sentido para o simples fato de existir, algo que justifique a mera jornada biológica no planeta. Há um ceticismo radical ao longo desse estranho romance, no qual nenhuma redenção é possível: “Alma é coisa que nem há, mas se houvesse, seria isso: corpo que não apodrece”, escreve o autor, talvez escutando no Spotify um concerto para piano de Mozart ou Floyd e Amy Winehouse – ampliando o diálogo entre o erudito e as referências da cultura pop e do rock. Não há redenção, sequer há destino; tudo será uma sucessão involuntária de acasos? Essa é uma dimensão existencialista da narrativa, mais próxima, talvez, do Estrangeiro de Camus do que de Sartre.

A prosa de Lucas Villa é ágil, substantiva, precisa, por exemplo quando ele descreve o ofício do taxidermista: “Apesar de conhecida por ‘empalhamento’, a taxidermia, desde o século XIX, já não usa palha para preencher o interior do animal. Com os avanços da anatomia comparada e da química de conservantes, o enchimento com palha foi substituído por manequins esculpidos com madeira, arame, gesso e, mais tarde, espuma de poliuretano”. Não são poucas as referências, citações e descrições detalhadas que aparecem no romance, que se aproxima de um ensaio enciclopédico, pela diversidade de saberes do autor. Ao mesmo tempo, é uma prosa que apresenta forte poeticidade, pela concisão, cortes elípticos e forte imagética, como acontece nestas linhas: “Foi antes do meio-dia. Era uma quinta-feira de setembro e o céu ardia em azul metálico. O sol, imenso e cruel como um olho divino, sangrava em gotas de mercúrio, fritando a lataria do carro com estalidos secos”. Há certo realismo, objetividade, secura, mas o princípio da economia de linguagem que rege o texto pertence mais à arte poética – recordemos a conhecida frase de Ezra Pound: poesia é condensar (dichten, em alemão, tem esse duplo significado). Há também forte interlocução com a mitologia grega, por exemplo na escolha do nome da personagem feminina, Ariadne, filha de Minos, rei de Creta, que forneceu a Teseu o fio capaz de guiá-lo pelo labirinto e voltar com segurança. No meio do trajeto, acontece o encontro com o Minotauro, que é morto pelo herói. De certo modo, podemos considerar esse livro de Lucas Villa um labirinto, porém, um tipo particular de labirinto, onde não há um centro. Nesse labirinto o autor insere o corpo como espaço narrativo, revelando assim tensões éticas, estéticas, vulnerabilidades, invadindo o território do desejo, obsessão e dor. Ele dialoga visualmente com o cinema de Almodóvar (especialmente em La piel que habito) e o de Cronenberg, que transformam o corpo em matéria instável e inquietante.

O leitor percorrerá as suas páginas encontrando toda sorte de trilhas, perigos, enigmas e armadilhas, guiado pelo prazer lúdico do desafio. “Navegar é preciso. Viver não é preciso”, diria Fernando Pessoa. E você, leitor, está convidado a fazer a viagem nesse mar desconhecido, onde encontrará as mais inusitadas criaturas e situações. Bon voyage!