imagem criada pelo CHATGPT
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            Eu tinha treze pra quatorze anos quando ganhei um videocassete.

            As novas gerações jamais saberão o quão maravilhoso era ter, no quarto e à disposição o tempo inteiro, um videocassete. Hoje são outras as tecnologias; outros, portanto, os prazeres adolescentes.

            Com aquele Philips quatro-cabeças, de controle remoto, não precisava mais esperar minha irmã terminar de assistir às suas xaropadas na sala, nem aqueles filmes legendados e intermináveis que meu pai comprava na banca.

            Falando no pai e em seus filmes, lembro agora do nosso combinado: quando passava um campeão de bilheteria à noite, ele gravava pra eu assistir. Quando passava um bom faroeste à tarde, era minha vez de gravar pra ele assistir no fim de semana.

            As fitas virgens comprávamos de um vizinho que ia e vinha do Paraguai — como se o Paraguai fosse ali na esquina.

            Não só as fitas. Também o rebobinador.

            Ah, mas isso não vai dar, mesmo, pra explicar aos jovens de hoje em dia. Só digo o seguinte: era imprescindível ter um desses. “Pra não desgastar o cabeçote do videocassete”, recomendava meu pai.

            Em casa tínhamos dois: um em formato de gravador de cassete — outra traquitana que a moçada desconhece — e outro em formato de carro que, ao terminar a rebobinagem, levantava o capô e acendia as lanternas.

            Chique demais da conta!

            Mas, voltando aos filmes.

            Certo dia, vendo a chamada de um faroeste, meu pai comentou:

“Taí um filmaço”.

            Pronto. Estava dada a senha.

            Fita a postos; videocassete ligado; eu, deitadinho na cama, fui gravar Santa Fé.

            Filme interessante, diferente dos tradicionais bang-bang que exibiam nas sessões vespertinas. Gostei. Principalmente porque falava da construção da estrada de ferro no oeste americano — e, naquele tempo, estudávamos na escola os meios de transporte no século XIX.

            No dia seguinte, como Dona Lurdinha continuou o tema, comentei sobre o longa. Ela se interessou e disse que “ia ver se tinha na locadora”.

            Pronto. Estava dada a outra senha.

            E eu, mais que depressa, ofereci minha gravação.

            “Não gravei com os comerciais”, frisei.

            Ela comentou, então, que agendaria a sala de vídeo pra próxima aula e que eu trouxesse o filme. E adiantou que, após a sessão, deveríamos fazer um trabalho: resumir e relacionar o enredo com o que tínhamos estudado sobre os avanços tecnológicos ocorridos na transição entre a Primeira e a Segunda Revolução Industrial, com destaque pra contribuição das ferrovias no desenvolvimento da economia norte-americana.

            Gostei.

            Quem não gostou foi a turma.

            No intervalo entre a aula de Geografia e a de Português, fui vaiado, xingado de tudo quanto era nome e até ameaçado por um boçal do fundão que, dedo em riste, gritou:    “Vou te pegar depois da aula, seu puxa-saco.”

            Felizmente — e já acostumado com essas coisas — fui mais veloz que ele e consegui chegar são e salvo em casa.  

            Dias depois, orgulhoso com o estojo novo de VHS que o pai tinha comprado do vizinho que ia e voltava do Paraguai, fui à sala de vídeo.

            Liguei o televisor; ajeitei a fita na portinhola; esperei a professora trazer o controle.

            “Toma, que ainda não me ajeitei com esse trem”, disse ela. 

            Me sentindo um Spielberg a postos pra gritar “ação”, corri os olhos pela sala.

            Caras de raiva, inveja, ódio, tédio e sono não me intimidaram. Muito menos o dedo médio levantado lá na última carteira. 

            Apaguei as luzes.

            Apertei o play.

            Durante toda a semana, como esperado, ouvi mais reclamações e ameaças, mais ofensas e xingamentos — além daqueles a que já estava acostumado a ouvir o ano inteiro por ser ‘o diferente’ —, vi muita cara emburrada pro meu lado.

            Não liguei.

            E caprichei no trabalho.

            Capa feita com canetinha hidrocor e régua de letras. Na primeira página, uma maria-fumaça — modéstia à parte, muito bem desenhada — puxava duas laudas e meia de texto.

            Pra fúria de muitos, faturei nota máxima.

            E, de lambuja, ganhei pontinhos de participação.

            “Pela iniciativa de trazer o filme”, explicou Dona Lurdinha.

            Pronto. Estava dada a outra senha.

            No bimestre seguinte, aprontei outra. Dessa vez, com uma revistinha.

            Mas essa história deixarei pra outra crônica.