Santa Fé
Por Raphael Cerqueira Silva Em: 30/10/2026, às 13H14
Eu tinha treze pra quatorze anos quando ganhei um videocassete.
As novas gerações jamais saberão o quão maravilhoso era ter, no quarto e à disposição o tempo inteiro, um videocassete. Hoje são outras as tecnologias; outros, portanto, os prazeres adolescentes.
Com aquele Philips quatro-cabeças, de controle remoto, não precisava mais esperar minha irmã terminar de assistir às suas xaropadas na sala, nem aqueles filmes legendados e intermináveis que meu pai comprava na banca.
Falando no pai e em seus filmes, lembro agora do nosso combinado: quando passava um campeão de bilheteria à noite, ele gravava pra eu assistir. Quando passava um bom faroeste à tarde, era minha vez de gravar pra ele assistir no fim de semana.
As fitas virgens comprávamos de um vizinho que ia e vinha do Paraguai — como se o Paraguai fosse ali na esquina.
Não só as fitas. Também o rebobinador.
Ah, mas isso não vai dar, mesmo, pra explicar aos jovens de hoje em dia. Só digo o seguinte: era imprescindível ter um desses. “Pra não desgastar o cabeçote do videocassete”, recomendava meu pai.
Em casa tínhamos dois: um em formato de gravador de cassete — outra traquitana que a moçada desconhece — e outro em formato de carro que, ao terminar a rebobinagem, levantava o capô e acendia as lanternas.
Chique demais da conta!
Mas, voltando aos filmes.
Certo dia, vendo a chamada de um faroeste, meu pai comentou:
“Taí um filmaço”.
Pronto. Estava dada a senha.
Fita a postos; videocassete ligado; eu, deitadinho na cama, fui gravar Santa Fé.
Filme interessante, diferente dos tradicionais bang-bang que exibiam nas sessões vespertinas. Gostei. Principalmente porque falava da construção da estrada de ferro no oeste americano — e, naquele tempo, estudávamos na escola os meios de transporte no século XIX.
No dia seguinte, como Dona Lurdinha continuou o tema, comentei sobre o longa. Ela se interessou e disse que “ia ver se tinha na locadora”.
Pronto. Estava dada a outra senha.
E eu, mais que depressa, ofereci minha gravação.
“Não gravei com os comerciais”, frisei.
Ela comentou, então, que agendaria a sala de vídeo pra próxima aula e que eu trouxesse o filme. E adiantou que, após a sessão, deveríamos fazer um trabalho: resumir e relacionar o enredo com o que tínhamos estudado sobre os avanços tecnológicos ocorridos na transição entre a Primeira e a Segunda Revolução Industrial, com destaque pra contribuição das ferrovias no desenvolvimento da economia norte-americana.
Gostei.
Quem não gostou foi a turma.
No intervalo entre a aula de Geografia e a de Português, fui vaiado, xingado de tudo quanto era nome e até ameaçado por um boçal do fundão que, dedo em riste, gritou: “Vou te pegar depois da aula, seu puxa-saco.”
Felizmente — e já acostumado com essas coisas — fui mais veloz que ele e consegui chegar são e salvo em casa.
Dias depois, orgulhoso com o estojo novo de VHS que o pai tinha comprado do vizinho que ia e voltava do Paraguai, fui à sala de vídeo.
Liguei o televisor; ajeitei a fita na portinhola; esperei a professora trazer o controle.
“Toma, que ainda não me ajeitei com esse trem”, disse ela.
Me sentindo um Spielberg a postos pra gritar “ação”, corri os olhos pela sala.
Caras de raiva, inveja, ódio, tédio e sono não me intimidaram. Muito menos o dedo médio levantado lá na última carteira.
Apaguei as luzes.
Apertei o play.
Durante toda a semana, como esperado, ouvi mais reclamações e ameaças, mais ofensas e xingamentos — além daqueles a que já estava acostumado a ouvir o ano inteiro por ser ‘o diferente’ —, vi muita cara emburrada pro meu lado.
Não liguei.
E caprichei no trabalho.
Capa feita com canetinha hidrocor e régua de letras. Na primeira página, uma maria-fumaça — modéstia à parte, muito bem desenhada — puxava duas laudas e meia de texto.
Pra fúria de muitos, faturei nota máxima.
E, de lambuja, ganhei pontinhos de participação.
“Pela iniciativa de trazer o filme”, explicou Dona Lurdinha.
Pronto. Estava dada a outra senha.
No bimestre seguinte, aprontei outra. Dessa vez, com uma revistinha.
Mas essa história deixarei pra outra crônica.

