R A I M U N D I N H A

     Quando a conheci, ela teria aproximadamente uns quatro ou cinco anos de idade. Era uma criança saudável e calada. Era filha adotiva de uma família que viera de Floriano e se estabelecera aqui em Teresina.

     O tempo passou, os pais e irmãos de Raimundinha faleceram, e ela ficou sozinha. Os sinais de perturbação mental começaram a se manifestar: jogava pedra nos carros que estacionavam na frente de sua casa, riscava-os, fazia careta para pessoas que passavam na calçada. Por sorte, ninguém a agrediu. Nunca descobri por que ela agia assim. Talvez fosse por ter descoberto que era filha adotiva e também por estar sozinha no mundo. Foi por essa mesma época que fiquei sabendo que ela era uma excelente desenhista. Em folhas de papel A4, usando apenas lápis e borracha, fazia desenhos lindos: flores, pessoas, carros, animais, árvores... Pela primeira vez, lhe falei e lhe pedi que fizesse um desenho para mim. A resposta foi um não seco e peremptório. Não insisti. Ela se afastou como se estivesse zangada.

     Raimundinha cresceu, se tornou uma moça feia de rosto, pois se parecia um pouco com a Maga Patalógica, com a diferença de que seu cabelo liso é um tanto encaracolado. O corpo, porém, estava bonito: cintura fina, pernas bem torneadas e sem manchas, seios medianamente fartos. Ela começou a alternar sua moradia. Passava alguns dias em casa; outros, na rua. Andava meio suja. Quando em seu lar, estava sempre limpa. Não sei se ela perdeu a virgindade, se engravidou, se fez aborto. Aparentemente, nada disso aconteceu. Nunca a vi acompanhada de ninguém, nem de homem, nem de mulher.

     Um dia, eu estava em casa me arrumando para ir ministrar aulas no velho Liceu Piauiense. Era mais ou menos meio-dia e meia. Alguém bateu palmas no portão. Fui atender. Era Raimundinha, mas eu não a reconheci. Ela perguntou se eu podia lhe arranjar um prato de comida. Ainda sem reconhecê-la, chamei a moça que estava trabalhando aqui em casa, e que havia sido vizinha da Raimundinha, para lhe dar comida e fui terminar de me aprontar. Logo em seguida, ouvi o grito: “Raimundinha, mulher! Pelo amor de Deus! O que é isso? Claro! Claro! Entra!”

     As duas foram para a cozinha, e eu saí para minhas aulas. Essa foi a segunda e última vez em que, com ela, falei. Espero ainda reencontrá-la e lhe falar mais vezes. Talvez agora, ela me faça um desenho.

     A última notícia que eu soube a respeito de Raimundinha é que ela está morando na cidade de União e está bem. Que continue assim! Que Deus a proteja!

     Ela nem sequer sonha que escrevi esta crônica. A razão por que fiz este texto? Não sei. Talvez seja porque eu gosto da arte que ela domina e não valoriza.