Quando a história vira estória em Carne salgada
Por Décio Torres Cruz Em: 14/01/2026, às 22H52
Quando a história vira estória em Carne salgada
Décio Torres Cruz*
Na língua portuguesa, a palavra história se diferenciava da história ficcional pela grafia: história tratava dos fatos e eventos históricos (narrativas factuais), enquanto estória se referia a narrativas ficcionais (contos, romances, lendas, mitos, fábulas). A palavra “estória” data do século XIII e convivia com outras grafias medievais (como “istoria”, “estoria” e “hestoria”, sem acento) quando as regras ortográficas da língua portuguesa ainda não tinham sido uniformizadas. A palavra história acabou por prevalecer, mas, devido à lógica usada em língua inglesa que diferencia “history” (narrativa fatual) de “story” (narrativa ficcional), a palavra “estória” também foi resgatada e prevalece até hoje, mesmo quando muitos a consideram um arcaísmo depois que a Academia Brasileira de Letras eliminou a obrigatoriedade de distinguir os dois termos em 1943 e a palavra história também abarcou seu sentido ficcional. Algumas pessoas às vezes tentam marcar a distinção na grafia de história fatual com maiúscula, o que também se tornou desnecessário. É exatamente no limiar entre estes dois termos (fato e ficção) que o escritor e membro da Academia Fluminense de Letras Djalma Augusto dos Santos Mello (Guto Mello, como é conhecido) constrói a sua história.
Carne salgada
Carne salgada (Cajuína, 2025) é apresentado como romance histórico. No entanto, o autor, que é historiador, opta pela ênfase na ficção, não se atendo à rigidez do fato histórico, como ele próprio explica em nota logo na segunda página da narrativa, quando modifica um dado histórico importante para dar voz ao texto ficcional. A protagonista, Virgínia Helena de Carvalho, é apresentada como filha de João Leite Gomes de Carvalho, o Barão de Barra Mansa. Na primeira nota, o autor explica ao leitor que, na história oficial, o Barão nunca foi casado ou teve filhos, revelando sua preferência pelo lado fictício da narrativa.
Este fato se repete ao longo do romance quando vemos a personagem se apaixonar por um escravo mulçumano letrado (numa referência indireta à Revolução dos Malês na Bahia), desafiar as ordens da mãe para não ler certos livros proibidos para damas (como O crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz), condutas então inaceitáveis.
Além disso, como se pretendesse fazer um revisionismo histórico, o autor nomeia comportamentos da época com palavras de hoje, ainda inexistentes no período da narrativa (a história tem início no tempo pré-abolicionista e vai até o período após). A protagonista fala do “machismo” (palavra que tem origem no início do século XX) do irmão quando ele estabelece as regras das tarefas que competem às mulheres e aos homens e ela burla esta divisão de tarefas por gênero. Como uma feminista precoce, Virgínia Helena desafia o status quo de então, indo visitar a senzala para ver o escravo por quem se apaixonou. Não só isso: o narrador descreve uma cena na qual ela se dirige ao banheiro e se masturba até atingir o orgasmo na banheira e ela própria utiliza a palavra “gozar”. Notamos, também neste trecho, uma quebra da rigidez histórica, uma vez que a prática de banhos não era comum pelos portugueses e seus descendentes brasileiros no século XIX, e as banheiras só chegaram ao Brasil na década de 50. Além disso, era tabu falar de masturbação e gozo feminino. O autor quebra todos estes paradigmas para nos apresentar uma história do século XIX com a visão de hoje, sem compromissos com a rigidez factual.
Outro costume que a protagonista desafia é o do casamento arranjado entre famílias, citando a posição da personagem Eufrásia Teixeira Leite, aristocrata multimilionária que se rebelou contra o pedido de casamento do jornalista e diplomata Joaquim Nabuco (na realidade, ela e Joaquim eram apaixonados um pelo outro, ficaram noivos, mas a relação foi muito conturbada com términos e retornos, até se separarem de vez, talvez por pressão do tio conservador, já que Nabuco era abolicionista). O pai de Nabuco era amigo do escritor José de Alencar e ele próprio era amigo de Machado de Assis. Tomando este exemplo, Virginia diz à mãe que se recusa a participar de um casamento arranjado.
Com a morte do pai, seu irmão se recusa a ser o administrador da fazenda, preferindo ir viver na corte, trabalhar lá e lutar pela abolição da escravidão ao lado de Basílio da Gama. Virgínia passa a administrar a fazenda e os bens da família e alforria todos os escravos. Quando vai entregar a carta de alforria a Mohamed, ele confessa sua paixão por ela e os dois transam no chão da senzala. Virginia escreve a D. Pedro II, solicitando um título para Mohamed. Como o imperador se encontrava em viagem ao Egito, a Princesa Isabel lhe responde, aceitando o pedido, mas exigindo que Mohamed se convertesse ao Catolicismo, o que ele recusa, pois tem outros planos de voltar a Salvador ou à África. Logo em seguida, a abolição da escravatura é assinada e Mohamed vai morar no Rio onde conhece o famoso antropólogo francês François Michelet (possível homenagem ao historiador Jules Michelet que desprezou a narrativa convencional em prol da cultura e da tradição do povo) que o contrata como tradutor-intérprete de árabe em suas viagens pelo Egito. Virginia é convidada por uma prima a ir para Paris e lá, por acaso, ela acaba reencontrando Mohamed.
Tendo como pano de fundo um período tenebroso de nossa história e alguns de seus personagens, através da ficção, o autor torna possível uma história de amor impossível. Ao traçar um panorama do período, desvinculado das amarras da suposta fidedignidade histórica, ele mostra que a história pode ser reescrita com o olhar do presente, apelando-se à verossimilhança da ficção onde podemos transcender os limites factuais e descrever não somente o que foi, mas, também, o que poderia ter sido.
Sobre o autor
Djalma Augusto dos Santos Mello (Guto Mello) é escritor, sociólogo e historiador, membro da Academia Volta-redondense de Letras e Academia Fluminense de Letras. É autor de Oitocentos no plural: história e literatura nos tempos machadianos (2021), A Província Fluminense: Literatura, imprensa, arte e escravidão no longo século XIX (2024), Carne Salgada (2025), e O divino Dante (2025).
* Décio Torres Cruz é escritor, professor aposentado da UFBA e da UNEB, tradutor, crítico literário, membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo, da Academia de Letras e Artes do Rio de Janeiro e da Academia Internacional de Literatura Brasileira. Escreveu dezenas de livros publicados no Brasil e no exterior, dentre os quais, destacam-se: Viagens & travessias (2025), A poesia da matemática (2024); Histórias roubadas (2022) e Paisagens interiores (2021).

