poesia brasileira contemporânea
poesia brasileira contemporânea

xerofilia

 

caatinga, caapões, gramael e seridós:

sigo descalço, riscando a trilha,

no desvio dos espinhos das macambiras

embrenhado na mata seca e branca

entre o cheiro bom do mussambê

e o alaranjado dos mulungus.

 

 

[a ariramba-de-cauda-ruiva]

 

a ariramba-de-cauda-ruiva

 

pousou suave

no topo do pé de ingá-feijão

 

o sol deitou

entre os galhos da árvore

seus tons de fim de tarde

 

 

haboob no meu cerrado

 

nuvens de poeira

agigantam-se por cima

de prédios, cidades, campos e gerais

 

 

no outeiro 

 

a floração do ingá se dá ao zumbido das abelhas 

e ao recalcitrante lampejo das despedidas

das rumorosas chuvas 

 

bem se vê que - doravante - 

nos azuis duradouros dos dias 

as friagens das noites se farão reinar

 

as formigas seguem em suas trilhas 

e o capim orvalhado pende

balouçando 

 

 

 

vegetal

 

tornei-me seco,

mas, com o aviso

das primeiras chuvas,

acompanho os cactos

que medram nas rochas.

 

 

A oportunidade da errância trouxe a Marcos Freitas o estabelecimento de um processo poético refinado, de acuidade rara, que só poetas antigos conseguiram deixar como legado à Humanidade. Ao errar por capitais europeias e fundões brasileiros, em íntima fraternidade com a natureza em razão de seu trabalho, refinou não só o vocabulário, mas a finesse da expressão. Engana-se quem julga que seus poemas possam ser visuais, processo, japoneses ou marginais. É um grande poeta, um criador, pela descoberta dessas experiências de seu tempo para naturalizar em si mesmo uma especial forma de abordagem da natureza, do noticiário, do devaneio do olhar, em peças poéticas exatas, com um carisma pessoal e uma vitória sobre o lirismo e, sobretudo, sobre o chamado para exposição das mazelas das ações humanas em campos políticos tão diversos (desnecessário a definição de todas as áreas que aparecem em seus poemas, tais como a natureza, o território e as comunidades, pois tudo que alcança sucesso ou fracasso advém da ação política do homem).

Salomão Sousa, Jornalista e Poeta. Da Academia de Letras do Brasil (ALB).

 

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ASIN: ‎ B0H7TJB51B

Data da publicação‏: ‎ 6 julho 2026

Edição: ‎ 1ª

Idioma‏: ‎ Português

Número de páginas‏: ‎ 108 páginas