poesia brasileira
poesia brasileira

 

“A vida é túmulo em via.”

              Menezes y Morais. Balada dos Mortos na Parede etc.

 

 

 

“Nenhuma fonte de Hipocrene achei,

                                                     E o cavalo lendário que montei

                                                     Foi sempre Rocinante.”

Vidal de Freitas. Porquê.

 

 

INDO ÀS COMPRAS
 

1.
 

o teu colo
era macio –


fragmento de pétalas -
lábios labirintos cor-de-rosa

um trepidar
de gemidos -
de manhã
o cheiro de corpo -
nesga de azul
a sustentar o sol de verão tardio

 

o que comprar
naquele (im)penetrável supermercado
de Oiticica?
-         parangolés, lençóis, alaridos -

no espasmo do dia,
quem traduz a linguagem
que se despe
e se consome
entre dezenas de pedras, sementes, metais:
pendurados penduricalhos?
 

 



2.

qual estrela de Magalhães
no silêncio do cosmos
margeia
delineia
os incertos mares nunca dantes navegados do sul?

assim navego
em busca de teu corpo-vaga
-         astrolábio súbito -
teu aroma:

meu olfato
tua fala:
e   m     p   e   d   a   ç   o   s
noite afora

 

 

 

    VAI E CAI - I

 

a sala desarrumada
livros sobre a mesa
ah! vontade de sorvete

longe o vento sopra:
uivos de cães
à minha porta

medo é o que se sente
ao acordar só,
solamente

teus olhos reluzem
ao brilho do sol
som bemol
 

 

 

 

AFLORAÇÕES

 

fuga de corrente?

quem sabe

meu coração

não tem voltímetro

 

súbito?

quem sabe

meu trapézio

não tem lona

 

chuva de maio?

quem sabe

meu querer

não tem ensaio

 

desvario?

quem sabe

minha calçada

não tem meio-fio

 

 

 

 

      A POESIA

 

a poesia

é o diálogo da vida

em forma de poema

 

e meus poemas

são lágrimas

de alegria e tristeza

em gozo pleno

 

                                        HOJE NÃO

 

hoje não quero falar de saudade

hoje não quero falar de

hoje   não quero falar

hoje não quero

hoje não

hoje

não

 

 

DASEIN

                                     

                                               “Esse eterno devir nunca acaba?”

                                                                                   Nietzsche

 

o que é real em nós, senão a janela através

da qual olhamos para fora

e refratamos a luz que nos vem de dentro?

 

de que natureza dual são compostas as p-branas

de nossas histórias prováveis e improváveis?

 

com qual constante cosmológica

devo expressar a energia de nosso vácuo,

a energia de nosso singular universo big-crunch?

 

 

 

 

ARTESIANA PAIXÃO

                                                                 

“vášeň platonická

                                                                  láska, chrám, novicka”

                                                                                   Ramsés Ramos

 

que zona de recarga

alimenta esse meu aqüisonho medonho

 

que pressões capilares

tencionam esse nosso percolado lençol

        

que camadas argilosas

confinam esse seu imenso poço de desejo

 

 

 

 

ESTAÇÕES DUAIS

 

 

sede

água                   chuvas

justa-

postas

pedras                secas

juntas

postas

água                  chuvas

sem                      água

juntas

expostas

costelas                secas

fome

inverno   versus    inferno

 

“Um lindo livro A Terceira Margem Sem Rio. Lindo por fora. E muito mais por dentro, de conteúdo. Marcos Freitas é poeta. Desde ele mesmo. Jovem bonito e às voltas com tanta coisa bonita: a engenharia, a natureza, o meio ambiente, a vida em plenitude. A expressão de tudo isto só pode ser a beleza, a arte, a poesia, que mais uma vez se consubstancia em livros.”
Djalma Silva – Goiânia (GO), 12.11.2004.

 

Marcos Freitas
Do livro: "A Terceira Margem Sem Rio", Editora Gráfica Pinheiro, 2004, Teresina - Piauí.

 

A terceira margem sem rio eBook : Freitas, Marcos: Amazon.com.br: Livros