Poemas do livro "a terceira margem sem rio"
Por Marcos Freitas Em: 29/05/2026, às 18H45
“A vida é túmulo em via.”
Menezes y Morais. Balada dos Mortos na Parede etc.
“Nenhuma fonte de Hipocrene achei,
E o cavalo lendário que montei
Foi sempre Rocinante.”
Vidal de Freitas. Porquê.
INDO ÀS COMPRAS
1.
o teu colo
era macio –
fragmento de pétalas -
lábios labirintos cor-de-rosa
um trepidar
de gemidos -
de manhã
o cheiro de corpo -
nesga de azul
a sustentar o sol de verão tardio
o que comprar
naquele (im)penetrável supermercado
de Oiticica?
- parangolés, lençóis, alaridos -
no espasmo do dia,
quem traduz a linguagem
que se despe
e se consome
entre dezenas de pedras, sementes, metais:
pendurados penduricalhos?
2.
qual estrela de Magalhães
no silêncio do cosmos
margeia
delineia
os incertos mares nunca dantes navegados do sul?
assim navego
em busca de teu corpo-vaga
- astrolábio súbito -
teu aroma:
meu olfato
tua fala:
e m p e d a ç o s
noite afora
VAI E CAI - I
a sala desarrumada
livros sobre a mesa
ah! vontade de sorvete
longe o vento sopra:
uivos de cães
à minha porta
medo é o que se sente
ao acordar só,
solamente
teus olhos reluzem
ao brilho do sol
som bemol
AFLORAÇÕES
fuga de corrente?
quem sabe
meu coração
não tem voltímetro
súbito?
quem sabe
meu trapézio
não tem lona
chuva de maio?
quem sabe
meu querer
não tem ensaio
desvario?
quem sabe
minha calçada
não tem meio-fio
A POESIA
a poesia
é o diálogo da vida
em forma de poema
e meus poemas
são lágrimas
de alegria e tristeza
em gozo pleno
HOJE NÃO
hoje não quero falar de saudade
hoje não quero falar de
hoje não quero falar
hoje não quero
hoje não
hoje
não
DASEIN
“Esse eterno devir nunca acaba?”
Nietzsche
o que é real em nós, senão a janela através
da qual olhamos para fora
e refratamos a luz que nos vem de dentro?
de que natureza dual são compostas as p-branas
de nossas histórias prováveis e improváveis?
com qual constante cosmológica
devo expressar a energia de nosso vácuo,
a energia de nosso singular universo big-crunch?
ARTESIANA PAIXÃO
“vášeň platonická
láska, chrám, novicka”
Ramsés Ramos
que zona de recarga
alimenta esse meu aqüisonho medonho
que pressões capilares
tencionam esse nosso percolado lençol
que camadas argilosas
confinam esse seu imenso poço de desejo
ESTAÇÕES DUAIS
sede
água chuvas
justa-
postas
pedras secas
juntas
postas
água chuvas
sem água
juntas
expostas
costelas secas
fome
inverno versus inferno
“Um lindo livro A Terceira Margem Sem Rio. Lindo por fora. E muito mais por dentro, de conteúdo. Marcos Freitas é poeta. Desde ele mesmo. Jovem bonito e às voltas com tanta coisa bonita: a engenharia, a natureza, o meio ambiente, a vida em plenitude. A expressão de tudo isto só pode ser a beleza, a arte, a poesia, que mais uma vez se consubstancia em livros.”
Djalma Silva – Goiânia (GO), 12.11.2004.
Marcos Freitas
Do livro: "A Terceira Margem Sem Rio", Editora Gráfica Pinheiro, 2004, Teresina - Piauí.
A terceira margem sem rio eBook : Freitas, Marcos: Amazon.com.br: Livros

