massa de ar de alta pressão

 

plumagens de frio roçam a pele

desprotegida de sonhos:

aragens frescas polares

 

na relva cristalizada

tremem destroços de pensamentos

 

sucumbo ao desencontro de nuvens

botas acolchoadas        

                    aquecem os pés

no caminho porteira a fora,

mundo a fora

 

cá dentro, enrijeço ossos e medula

alinho metas

desalinho sons do céu:

yakecan

 

entre o frio e a dor

estendo ao tíbio sol

                     todo amor

 

 

extradorso do aerofólio

 

               para Antônio Cardoso Neto

 

a pedra nos dá a lição da dureza

mesmo assim ela se desfaz

a água nos dá a lição da moleza

mesmo assim ela não nos satisfaz

pedra: rispidez da água saltitando no poema

 

 

lilás

 

na seca caatinga

leveza e beleza:

outono de jitiranas

 

 

rioRioRIO

 

i.

a água dos canais

torna o cinza

verde-planta

 

ii.

um velho passeia

(de nome Chico?)

à margem do velho e seco rio

 

iii.

barcos nos bancos de areia,

o que mais

as carrancas assustam?

 

iv.

pedras pedras pedras

solo rachado

macambiras e bodes

 

 

diatonicamente

 

nudez no azul do dia

há pouco uma chuva fina

tocava harpa

 

 

haboob no meu cerrado

 

nuvens de poeira

agigantam-se por cima

de prédios, cidades, campos e gerais

 

Marcos Freitas. Especialista em Regulação de Recursos Hídricos e Saneamento Básico. Mais de 70 livros e 50 capítulos de livros técnicos e de literatura, em autoria e coautoria, em 13 idiomas. Membro da UBC, ANE, UBE-SP, Sindescritores-DF, da Academia de Letras e Música do Brasil (ALMUB), da Academia de Letras do Brasil (ALB) e co-chair da BRICS Literature Network.

 

Publicados no Jornal Pororoca, Aságuas, Janeiro de 2026, página 3.