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[Chagas Botelho]

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Durvalino Barrão deu por si na cama transformado num porco avantajado. Sentia fome insaciável, também pudera, a barriga apresentava-se saliente. Orelhudo, escutava burburinho a quilômetros de distância. Quando se levantou, seus pés ou patas sacudiram o chão. O que teria lhe acontecido? Feitiço. Sim, fora enfeitiçado. Ou então, a feijoada lhe fizera mal.

 

Ontem, domingo, marcou presença no pagode. Tomou todas. Comeu todos os espertinhos oferecidos. Voltou para casa pesado e bêbado, não conseguia fazer um quatro. Cheirava a pocilga. Por conta da bebedeira, a dona Porca, enfezada, lhe jogou os cachorros. Barrão nem ligou, aliás, nem ligado estava. Apagou na primeira bocejada. Agora, amanhecera assim, metamorfoseado em suíno — rico em gordura e tamanho. Precisava parar urgentemente de frequentar o pagode do Chico Chiqueiro.

 

Como iria trabalhar virado num porco? Pediria à patroa que retirasse a praga, mas hesitou. Já bastava a briga da noite anterior. Chamaria um de seus porquinhos, no entanto, àquelas horas estaria na escola. Sentindo-se na pele de um fuçador de lama, tentou acalmar-se. Era apenas o efeito da ressaca braba. Logo melhoraria. Pensou em ligar para o seu Leitão, seu chefe intransigente, porém, desistiu. A cabeça estava estourando para receber sermões. Quer saber? Que se dane o expediente. Queria mesmo era escapar daquela forma ridícula. Não podia sair incorporado num porco. Era corintiano roxo.

 

Pensou na situação dramática. Arquitetava uma solução rápida. O rabo balançava aflito. O focinho, que lembrava uma tomada de três pinos, não parava de fungar. Olhou-se no espelho e se viu no formato de barril. Tinha tanta banha e couro que abasteceria o comércio local por longos invernos. Recapitulou a palavra “comércio” e associou ao Zé Abate, o açougueiro da esquina, cujo hobby era matar e esquartejar porcos.

 

Ao se imaginar abatido, surtou. Não pretendia terminar seus dias, pendurado num espeto de churrascaria. Debateu-se forte e pediu socorro. Gritou duas vezes por clemência. A esposa que dormia ao lado desandou a lhe cutucar: “Barrão, Barrão, acorda, homem. É apenas um pesadelo”.