Padre Marcos de Araújo Costa
Padre Marcos de Araújo Costa

Reginaldo Miranda*

 

“Morrestes ... sim ... morrestes, nobre Costa!...

Da vida as portas para vós fecharam-se,

                                  Mas da vida ilusória...

Enquanto o vosso luminoso espírito,

Perpassando os umbrais da eternidade,

Vai na Mansão de Deus fagueiras glórias

Alegre desfrutar, - em recompensa

De tantos bens, que pródigo espalhastes

Com bondosa mão por entre os homens”.

                            J. M. Pereira d’Alencastre

 

“E tu, excelso Costa, na morada

Dos justos em que estás, recebe ovante

Recompensa à virtude destinada”

                                   José J. Avelino

 

Foi o mais proeminente nome do clero piauiense durante a primeira metade do século XIX, em face de seu trabalho de evangelização e divulgação dos ensinamentos cristãos. Foi também a maior referência do Piauí antigo no campo da educação, alfabetizando legiões de alunos em sua fazenda da Boa Esperança, por largos anos.

Nasceu esse benemérito em 1778, quando o Piauí vivia administrado por uma junta trina de governo de que seu pai fizera parte por mais de uma vez. Viu a luz do sol pela primeira vez, em casa de seu avô materno, no arraial de Paulistas[1], povoação fundada por seus ancestrais no sudeste do Piauí, onde hoje está a cidade de Paulistana. Foram seus genitores dona Maria Rodrigues de Santana e o ouvidor-geral Marcos Francisco de Araújo Costa, ambos descendentes dos primeiros colonizadores do Piauí. Pelo lado materno tinha por avô o português Valério Coelho Rodrigues, fundador daquela localidade e natural da freguesia de São Salvador do Paço de Sousa, Bispado do Porto, filho de Domingos Coelho e Águeda Rodrigues; e por avó dona Domiciana Vieira de Carvalho, filha de José Vieira de Carvalho e Maria Freire da Silva, paulistas descendentes de portugueses, que entraram no Piauí integrando a última bandeira colonizadora, em 1719.

Pelo lado paterno não era menos ilustrada a ascendência de nosso biografado, sendo seu pai um homem culto e abastado, provavelmente tendo estudado em Salvador ou até no reino, onde possuía familiares, daí levando alguns escritores a dizerem ser ele nascido no reino e ter recebido o grau de bacharel, o que não é verdade. Ocupou por várias vezes o cargo de ouvidor interino, na ausência de ouvidor letrado, e nestas circunstâncias integrou a junta trina de governo do Piauí, recebendo também a comenda da ordem de Cristo. Nascera o velho Marcos Francisco, pai do biografado, em 4 de outubro de 1743, na fazenda Canavieira, na margem direita do rio Gurgueia, freguesia de Santo Antônio, onde hoje viceja a cidade de Canavieira, desmembrada que fora do antigo termo de Jerumenha; filho do capitão João Francisco de Paiva, povoador daqueles sertões com diversas fazendas, falecido em 22 de fevereiro de 1768, e de sua esposa Antônia do Espírito Santo, natural da Bahia (irmã do padre Domingos de Araújo Costa, natural e residente em Salvador, com quem provavelmente estudou o sobrinho Marcos Francisco). Eram esses últimos, filhos de dona Ana de Oliveira e de Manuel de Araújo Costa[2], ele nascido na vila de Ponte da Barca, arcebispado de Braga, batizado na freguesia de São Lourenço de Touvedo, da mesma vila; mudou-se para o Piauí no final do século XVII, fixando residência na fazenda Sussuapara, vale do rio Piauí, onde recebeu o padre Miguel de Carvalho em 1693, possuindo também residência em Salvador, na Bahia, onde faleceu em 19 de setembro de 1719, deixando os dois filhos órfãos. Foi ele quem iniciou a família Araújo Costa, no Brasil, sendo filho de Gaspar da Costa e de sua esposa Serafina de Araújo, que permaneceram no reino.

Possuía o padre Marcos, seis irmãos, sendo quatro mulheres e dois homens, estes últimos participaram ativamente da Guerra da Independência e da repressão à Balaiada, sendo eles Ignácio Francisco e Francisco Manuel de Araújo Costa, este último ancestral de quem escreve essas notas.

Iniciou os estudos de primeiras letras com o genitor, na casa paterna, sendo mandado depois para a Vila Nova da Princesa, hoje denominada Açu, no Rio Grande do Norte. Ali cursou os estudos preparatórios no afamado colégio do Dr. Manoel Antônio de Andrade, educador acobertado com a nomeada de primeiro latinista da diocese de Olinda. Em seguida, vocacionado para a vida sacerdotal matricula-se no seminário de São Luís do Maranhão, onde estuda por largos anos[3]. Com a fundação do Seminário de Nossa Senhora da Graça da cidade de Olinda, em 16 de fevereiro de 1800, pelo Bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, seguiu para ali em companhia do mestre de Açu, este para lecionar, aquele matriculando-se na primeira[4] turma do novo seminário, cursando as aulas de Retórica, naquele ano, ministradas pelo professor Miguel Joaquim de Almeida Castro. E depois foi aluno do padre e educador nacionalista João Ribeiro, todos republicanos e nacionalistas, que mais tarde se envolveriam na revolução de 1817. No entanto, para aprimorar seus estudos, na segunda metade do curso obteve autorização dos pais e transferiu-se para o Seminário Maior de Coimbra[5], onde ordenou-se em 1805, aos 27 anos de idade, celebrando a primeira missa em 15 de agosto daquele ano, na festa da Assunção da Virgem Maria.

De retorno ao Brasil, iniciou seu trabalho apostolar em Recife, onde permaneceu entre os anos de 1805 a 1811, passando depois ao interior do Rio Grande do Norte, onde evangelizou até 1813, conforme esclarece o acadêmico e ex-deputado estadual Homero Ferreira Castelo Branco Neto, que se ocupou sobre o assunto em excelentes notas biográficas[6]. Então, nesse último ano assume a paróquia de N. Sra. da Vitória, em Oeiras, onde permanece por sete anos (1813 – 1820).

Durante esse período em que paroquiou em Oeiras, então capital do Piauí, consta que recusou diversos convites para servir no Maranhão e em outras paróquias do Piauí. É que gostava dos ares puros da vida campestre em sua fazenda da Boa Esperança, herdada de seus genitores na freguesia de N. Sra. das Mercês, que depois se transformaria no termo de Jaicós. Também, já alimentava o sonho de ali fundar uma escola de referência nos sertões longínquos do Nordeste, a exemplo da que fora fundada por seu genitor. De fato, o ano de 1820 é um marco em sua biografia e na história educacional do Piauí. Assinala a fundação de seu colégio na Boa Esperança, preenchendo uma lacuna naqueles rincões durante os estertores do regime colonial. Para isso adaptou a casa-grande da fazenda a uma escola em regime de internato, construindo uma capela ao lado.

Desde então, a vida do padre Marcos de Araújo Costa passou a ser a de um abnegado educador. Percebendo a falha dos governos e a escuridão em que vivia a sociedade de seu país, abraçou a causa da educação, fazendo dela a sua missão sobre a terra. Era preciso educar para construir uma nação forte. E por largos anos a sua escola foi o único centro de saber do Piauí, a única bússola a orientar a juventude, sustentando-a à sua custa, com recursos de sua fazenda. Foi ele, com a sua atividade no campo educacional, um dos maiores beneméritos do Piauí, em todos os tempos.

Ali recebeu o naturalista inglês George Gardner, em 1839, ficando este impressionado com a cultura e obra do benemérito de Boa Esperança, assim registrando em seu livro de registro das andanças no Brasil:

“É o padre Marcos de Araújo Costa bem conhecido em todo o norte do Brasil, não só por sua inteligência e saber, como por seu excelente caráter moral e benévola disposição, qualidades que vi amplamente confirmadas durante os três dias que em sua fazenda me hospedei. Se todos os sacerdotes do país tivessem metade de sua cultura, bem como de sua atividade e zelo pela difusão do ensino, a condição do Brasil se tornaria bem diferente do que é e do que receio continue a ser por longo tempo, dada a presente situação. É surpreendente a atividade deste ancião de mais de sessenta anos e não o é menor a sua filantropia.

‘Como os meios de educação só estão ao alcance de muito pouca gente neste vasto país de tão escassa população, tem este velho mantido por anos o hábito de sustentar e educar em sua casa, livre de despesa, vinte meninos, até que adquiram sofrível conhecimento de latim, filosofia e matemática. Ele próprio é um erudito possuidor de vasta biblioteca de clássicos e filósofos: de botânica e história natural possui suficiente conhecimento para que estes assuntos se lhe tornem agradável distração. Entre seus livros encontrei quase todas as obras de Lineu, as de Brotero e uma de Vandelli, muito rara, sobre as plantas de Portugal e do Brasil, obra que ele acabou por me oferecer de presente.

‘Não fez da Igreja meio de vida, contentando-se com viver no sossegado retiro de criador de gado e dedicando os seus lazeres à educação dos discípulos”[7].

Interessante ressaltar que o padre Marcos de Araújo Costa, nunca abandonou o magistério, permanecendo nessa atividade até o fim de sua vida, por trinta anos consecutivos. Então, sabendo-se que ele mantinha sempre uma turma de vinte alunos durante trinta anos de labor, pode-se aquilatar o alcance de sua ação educacional no sertão do Piauí. Sobre a longevidade da escola, em 23 de dezembro de 1879, Hermenegildo Lopes dos Reis, morador em Jaicós, publica as seguintes notas: “Estive n’um colégio em Boa Esperança, aprendendo primeiras letras em casa de meu tio, padre Marcos de Araújo Costa, de saudosa memória, até o ano de 1850 em que foi ele chamado à mansão dos justos”[8]. Foi aluno dessa última turma também Deolindo Mendes da Silva Moura, que mais tarde se consagraria como advogado e jornalista de raro talento.

Depois de seu óbito, disse em mensagem à Assembleia Legislativa, o presidente da província José Antônio Saraiva:

 

“É hoje nenhum o ensino particular. A morte do Reverendíssimo Pe. Marcos de Araújo Costa, fechou as portas da única casa de educação, que possuía esta província.

‘Era ela sustentada à custa do virtuoso sacerdote, do benemérito cidadão, cujo nome acima pronunciei, e cujo passamento encheu de dor todos os corações piauienses”[9].

O historiador José Martins Pereira de Alencastre, que acompanhara Saraiva à nossa província, escreveu o primeiro livro de história do Piauí, em 1857. Nele, assim anotou:

“... porque a instrução pública era uma palavra sem significado, o finado padre Marcos de Araújo Costa, varão a quem os jovens piauienses muito devem, e cuja memória será sempre querida e respeitada – abriu um colégio em sua fazenda, e, às expensas suas, recebia seus jovens patrícios, a fim de dar-lhes uma educação literária mais conveniente do que aquela, que podiam colher no seio da capital”[10].

Também, em 1879, o nosso esforçado Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, pioneiro pesquisador, pai dos estudos biográficos em nossa terra, assim anotou:

 

“... ali recebia e desveladamente instruía um grande número de mancebos, filhos do Piauí e de outras províncias, aos quais, ricos ou pobres, ele também fornecia o alimento preciso, sem receber nenhuma remuneração pecuniária!

‘Os rendimentos dos seus haveres, e muitas vezes, uma boa parte dos seus capitais, o ilustre sacerdote consumia na manutenção do seu importante estabelecimento.

‘A casa do padre Marcos, na Boa Esperança, tinha a aparência de uma pequena vila: assemelhava-se, segundo a frase de um colaborador do Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro que dela deu notícia, a um oásis no meio do deserto!

‘Na Boa Esperança, na casa do ilustrado e virtuoso sacerdote piauiense, achava-se remédio para todos os males: ali se encontrava o alimento, conforto, dinheiro e instrução!

‘Na prática da sublime virtude da caridade, o respeitável padre Marcos consumia uma não pequena parte dos seus haveres; a sua bolsa estava sempre aberta para socorrer aos necessitados; os seus abonos, e letras de comércio, eram garantias de sumo valor para qualquer transação, por mais elevada que fosse; e como diretor do colégio da Boa Esperança, como preceptor da mocidade piauiense, o seu crédito era tal, que os atestados ou certificados de habilitações que ele assinava para seus alunos eram documentos irrecusáveis nas academias do Império.

‘Na educação e instrução da mocidade, o padre Marcos de Araújo Costa fazia consistir o seu maior padrão e glória – pela sua cadeira de mestre, ele renunciava às maiores posições da sociedade!

‘Em tão nobre lidar decorreram os anos uns após outros, e o preclaro cidadão, o ilustrado e virtuoso sacerdote, o incansável preceptor da mocidade piauiense, o benemérito padre Marcos de Araújo Costa, só deixou a cadeira de mestre sábio, paciente e generoso, quando a morte, fazendo-o pagar por sua vez o inevitável tributo a que está sujeita a humanidade, roubou-lhe a preciosa existência”[11].

Depoimento de alta importância é também o de monsenhor Joaquim Raimundo Ferreira Chaves, outro de seus biógrafos:

“O colégio do Padre Marcos honrou o Piauí, não só pela ousadia do empreendimento, naquela época e naquelas brenhas, como também pela capacidade intelectual e pedagógica do grande mestre, que o dirigiu até sua morte. Morreram os dois no mesmo dia, o Padre e o colégio. Gerações de piauienses foram ali buscar conhecimentos seguros para poderem ingressar, alguns deles, nos estudos superiores fora do Piauí. Os que não tiveram este privilégio, e foram maioria, transformaram-se, por sua capacitação intelectual ali adquirida, em líderes das comunidades onde viveram e atuaram.

‘Boa Esperança era uma colmeia onde se estudava, trabalhava e orava. O Padre presidia todas estas atividades. Quando não estava nas salas de aula ou no desempenho de seu ministério sacerdotal, encontrava-se nas roças ou no campo orientando os escravos no amanho da terra ou os vaqueiros no cuidado do gado da fazenda, donde se tirava o necessário para o abastecimento do internato. Os alunos pobres estudavam e recebiam alimentação gratuitamente”[12].

Em face de suas ligações familiares, do patrimônio financeiro, do trabalho apostolar, da ação educacional, enfim, da ascendência intelectual que o distinguia entre seus contemporâneos, foi o padre Marcos de Araújo Costa, também uma importante liderança política. Foi sempre chamado ao centro do debate, embora tenha se recusado por diversas vezes a assumir alguns cargos públicos, inclusive de presidente da província, para não afastar-se da fazenda e da atividade religiosa e educacional. A partir de 1820, com a fundação do colégio, fixa residência definitiva na fazenda Boa Esperança, responsabilizando-se pela freguesia de N. Sra. das Mercês, da qual se torna benfeitor.

Em 1822, com a proclamação da independência do Brasil chamou para si a responsabilidade assumindo a liderança intelectual do movimento emancipacionista no Piauí. Para isso, ao saber do que acontecia no Sul, reuniu os irmãos e partiu para Oeiras a fim de confabular com os primos brigadeiro Manoel de Sousa Martins e coronel Joaquim de Sousa Martins, entre outros, sobre os rumos a tomar. Depois de aconselhar os parentes sobre os acontecimentos e a certeza da independência disse-lhes que assumissem a testa do movimento sem receios, pois a hora era chegada. Foi um dos articuladores na noite de 23 para 24 de janeiro de 1823, na casa do Brigadeiro. Ao romper do dia estava selado o destino do Piauí e do norte da Colônia: adesão plena, sem recuo, à Independência do Brasil. Dessa decisão acertada resultou a consolidação da Independência no Norte, sem fragmentação da colônia e na preponderância de sua família na nova ordem que se estabeleceu, tendo o Brigadeiro Manuel de Sousa Martins assumido a presidência da província.

Em 20 de setembro de 1824, integrou uma Junta Defensiva criada com a finalidade de auxiliar e orientar a presidência da província, ameaçada com a revolução que estourara em Pernambuco e no Ceará, denominada Confederação do Equador. Nessa qualidade, esteve em companhia do irmão Ignácio Francisco de Araújo Costa, na vila de Valença, entendendo-se com as lideranças locais, vez que aquela vila era estrategicamente importante na defesa do Piauí, por localizar-se entre a capital e a rebelada província do Ceará. Nesse mesmo ano foi nomeado vigário da freguesia de N. Sra. da Vitória e Vigário Geral do Piauí, de cujo exercício logo mais renunciaria.

Com a criação do Conselho de Governo da Província, por força da nova ordem constitucional, em 1825, vai o padre Marcos de Araújo Costa eleito para o primeiro quadriênio (16.8.1825 – 31.5.1829), sendo reeleito para o segundo (1.6.1829 – 30.6.1833). Assume, então, por força de lei, concomitantemente a vice-presidência do conselho e da província.

Nesse tempo, com a queda do presidente da província Manoel de Sousa Martins, na qualidade de vice-presidente da província se recusa a assumir o governo, alegando motivo de doença, o fazendo seu imediato, o irmão Ignácio Francisco de Araújo Costa. Este, depois de ser eleito para a vice-presidência do conselho e da província, assume o cargo em 9 de dezembro de 1828, em cujo exercício permanece por dois meses e quatro dias.

Mais tarde foi criado o Conselho Geral da Província, órgão precursor da Assembleia Legislativa, que, no Piauí, foi instalado em 1.º de dezembro de 1829, sendo o padre Marcos de Araújo Costa eleito para os dois quadriênios (1.12.1829 – 30.11.1833 e 1.12.1833 – 7.2.1834). No primeiro foi eleito vice-presidente, tendo por presidente Manuel de Sousa Martins e secretário Manoel Pinheiro de Miranda Osório. Todavia, durante o último quadriênio o padre Marcos de Araújo Costa, juntamente com seu irmão Ignácio Francisco de Araújo Costa e João Nepomuceno de Castelo Branco, renunciam ao conselho geral em face de incompatibilidade com o exercício simultâneo no conselho de governo.

Nas eleições de 1830, alcança uma suplência de deputado geral, porém, ao ser convocado para assumir o cargo recusa[13], alegando motivos pessoais. É que o exercício da atividade parlamentar no Rio de Janeiro, implicaria em abandono de sua escola, que para ele era prioridade.

O padre Marcos de Araújo Costa ainda foi eleito deputado provincial (1835 – 1838) para a primeira legislatura da Assembleia Legislativa do Piauí, instalada em 4 de maio de 1835, não comparecendo, porém, às sessões do último ano. Reeleito para uma segunda legislatura, não assumiu o mandato.

Por esse tempo, sendo indicado pela Assembleia Legislativa Provincial em lista sêxtupla ao governo central, na forma da Lei n.º 40, de 3.10.1834, foi efetivado no cargo de 1.º vice-presidente da província para o biênio 1839-1840 e 2.º vice-presidente para o biênio 1841-1842. Em 1849, foi novamente indicado pelo Imperador para a vice-presidência da província, assim, pela quarta vez, em cujo mandato permaneceu até o óbito em 4 de novembro de 1850, aos 72 anos de idade. No entanto, embora tendo ocupado a vice-presidência da província do Piauí, por largos anos, recusou-se a assumir o governo por diversas vezes, a fim de não deixar sua fazenda e abandonar a profissão que mais amava, o magistério. Sobre esse assunto é bastante esclarecedora a seguinte nota publicada na imprensa de Oeiras:

“Aproxima-se a marcha do Exmo. Presidente o Sr. Dr. Marcos[14] a ir tomar assento no Parlamento geral como Membro eleito para ele por esta Província. A grande questão hoje é – a quem ficará a entrega da administração – S. Exa., já oficiou ao Rmº. Sr. Padre Marcos d’Araújo Costa para o vir substituir, porém consta que esse Sr. não se quer sobrecarregar dessa pesada tarefa, e tanto que já a isso se negou em 1845, e até hoje ainda não tomou posse do seu lugar de 1º Vice-Presidente. Sabemos que uma comissão dos oposicionistas composta dos Srs. Coronel José Ferreira de Carvalho, e Capitão Elias de Sousa Martins, foi a Boa-esperança para empenhar o Sr. Padre Marcos a vir tomar as rédeas da administração, e que para isso, além de outros argumentos, empregam o de que se o Sr. Padre Marcos não vier, terá de ver a Província cair nas mãos do Sr. Dr. Jesuíno de Sousa Martins, que fará reviver os despotismos do Exmo. Visconde da Parnahiba. Essa intriga é com efeito bem miserável! Não nos queremos entrar na questão de fatos passados, se não mostraríamos que se despotismos praticou o Exmo. Sr. Visconde da Parnahiba, foram sempre em favor dos seus, que hoje tanto o escarnecessem, e que só almejam chegar à posição de poderem fazer mais do que ele fez. Convençam-se, meus Srs., que o Piauhy de hoje, não é mais o de 1843 para traz: deixem-se de arrufos; acomodem-se. Saibam que o Sr. Dr. Jesuíno não está nomeado Vice-Presidente, e quando o seja julgamos que não será um instrumento de paixões: há de procurar sim trilhar uma carreira oposta a do Sr. Zacarias[15], porque não quererá passar por traidor ao Governo. Nós estamos convencidos que o Sr. Padre Marcos, ou por vontade, ou iludido tem mostrado suas tendências para a política decaída; porém o que pensam os Srs.?  que se ele vier encarregar-se da administração há de vir a ser dirigido por meia dúzia de rapazolas tresloucados, que aqui ameaçam de levar tudo a ferro e fogo, quando chegar a sua vez de serrarem de cima?! Estão enganados: nós fazemos mais justiça à instrução, boa índole, prudência e capacidade do Sr. Padre Marcos. Esperamos que ele na Presidência não venha perder o prestígio e nomeada que tem adquirido em sua vida privada; e tal é o nosso juízo a seu respeito, que nos parece, que ainda mesmo sendo ele de princípios contrários à política dominante, desde o instante em que se determinar a ocupar o lugar atualmente, o seu 1º cuidado será servir com lealdade ao Governo, e não seguir a trilha dos traidores.

‘Se o Sr. Padre Marcos, por qualquer que seja a razão, não se quiser envolver no torvelinho da política, em que com efeito pode arriscar, quando menos, o seu sossego espiritual, e afastar-se de seus cômodos domésticos, virá a cair atualmente a administração nas mãos do Sr. Dr. Francisco Xavier de Cerqueira, e bem persuadido estamos nós que esse digno Magistrado, se não afastará da linha da conduta em que tem vivido. Vós todos oposicionistas o conheceis, e sabes bem que ele é incapaz de atos de perseguições; e por seu saber e prudência apto para conservar o depósito sagrado, que lhe deve ser entregue, em perfeita harmonia com as vistas do ilustrado gabinete, até que volte o Sr. Dr. Marcos, que nos deixa penhorado de sua urbanidade, ou que o Governo disponha como lhe aprouver. Isto porém parece não agradar aos Srs., da oposição: eles querem por sem dúvida a vinda de um outro Zacarias. Pois olhem, não nos parece fácil a satisfação de tais desejos; acreditamos piamente que tão cedo não teremos de passar pelas intrigas, e malversações de um igual homem; portanto, aquietem-se, meus Srs., porque pode acontecer que atrás do Exmo. Sr. Dr. Marcos venha alguém que o faça melhor do que é; nós quiséramos quando tivéssemos de estar na oposição encontrar sempre um Presidente como ele”[16].

A matéria diz bem da situação política da época, insinuando que o Padre Marcos era simpático à política decaída, ou seja, ao grupo de seu primo Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba, então fora do poder, na oposição. Mas que ainda assim faria um governo justo, dados os seus atributos de personalidade. Fica também evidente que Zacarias de Góes afinara-se com o grupo do Visconde, enquanto o presidente Marcos Antônio de Macedo, representava lado contrário, os governistas da época.   

Ainda no campo político, o padre Marcos de Araújo Costa foi o principal pugnador pela emancipação política de sua freguesia, que, de fato, foi elevada à categoria de vila e município por Resolução do Conselho Geral da Província de 6 de julho de 1832. Instalada em 1834, assumiu ele a liderança política da nova municipalidade, ali exercendo por largos anos os cargos de vereador e presidente da Câmara Municipal. Foi, também, um grande benemérito do lugar, construindo a casa da câmara e a igreja matriz, esta última concluída em 1839, parte com recursos do governo provincial e parte com recursos do próprio padre. Em Oeiras, restaurou o Hospital de Caridade. Por todos esses trabalhos, em 25 de março de 1849, recebeu do governo imperial a comenda de comendador da ordem de Cristo[17].

No campo religioso, a par de sua destacada ação sacerdotal o padre Marcos foi defensor da criação de um Bispado no Piauí. Em 12 de junho de 1829, em sessão do Conselho Geral da Província, solicitou ao governo que encaminhasse pedido à Corte para que o Diocesano Ordinário do Maranhão concedesse ao vigário geral do Piauí, maiores poderes que geralmente eram confiados a estes representantes eclesiásticos, permitindo-lhe “ampla jurisdição e subdelegação das faculdades relativas ao matrimônio, como concedidas pelo breve apostólico de 4 de outubro de 1822”[18]. Esse pedido foi negado pelo Bispo, Dom Marcos Antônio de Sousa que, entretanto, o convida para assumir a vigararia geral do Piauí, sendo por ele prontamente recusado o convite. Em 1830, o padre Marcos ainda consegue a aprovação de uma resolução do governo provincial autorizando a criação do Bispado do Piauí, que, infelizmente, permaneceu como letra morta, face às objeções colocadas pelas autoridades eclesiásticas do Maranhão. Mas fica como referência a sua luta em prol da criação do Bispado do Piauí.

Faleceu em 4 de novembro de 1850, deixando uma grande lacuna no magistério piauiense. Seu óbito foi assim anunciado no jornal O Echo Liberal:

“No dia 4 do corrente faleceu em sua fazenda Boa esperança, no termo de Jaicós, o respeitável ancião, o Sr. Padre Marcos d’Araújo Costa, comendador da ordem de Cristo e 1º vice-presidente da província, com 71 anos de idade, e acha-se sepultado na Matriz daquela vila, feita sob seus cuidados, e em grande parte à sua custa. O ilustre finado era a mais proeminente capacidade do partido saquarema na província, por sua instrução, moralidade, e moderação levada a ponto de sempre se negar ao encargo da administração para não ter de lutar com as extravagantes exigências de seus correligionários, como ele o declarava. Não são só os munícipes de Jaicós, onde tinha ele grande influência, que devem sentir a sua falta: de há muitos anos que a sua casa era um colégio de estudos preparatórios, e até de primeiras letras, para onde concorriam muitos filhos desta província, e das limítrofes, e aí achavam hospedagem, instrução regular, e mesada gratuitamente, prestando assim um relevante, e louvável serviço à sua pátria. Suas virtudes cívicas, e religiosas tornam saudosa a sua memória”[19].

Torna-se mais interessante o registro supra por tratar-se de jornal contrário ao partido em que era o padre filiado, mas reconhecendo-lhe o valor e as qualidades morais. No mesmo número consta elegia em forma de nênia, por J. M. Pereira d’Alencastre e José J. Avelino.

J. Borges Carneiro, na edição seguinte do mesmo jornal, prestou-lhe significativa homenagem com o título “Uma lágrima à morte do Exmo. Sr. Padre Marcos d’Araújo Costa, 1º Vice Presidente d’esta Província, Comendador da Ordem de Christo, etc.”:

“Tão mesquinho e extemporâneo é – neste mundo – o prêmio da virtude!

‘Tradidit spiritum!

‘Sim Piauhyenses, se o Exmo. Sr. Padre Marcos de Araújo Costa, cujo falecimento vos deve causar a dor mais penetrante, não tivesse outras virtudes dignas do Hábito e Religião que professava, seria bastante para fundamento de seu elogio o bom nome, que adquiriu dos povos, honrando o altar, amparando a viúva, e o órfão; pugnando pelo direito da pobreza, chorando sobre as lágrimas dos infelizes – que acabavam de o ser em sua presença; - e facilitando à mocidade a carreira das letras! Eu l’ho daria cordialmente, e pagaria – eu só por vós todos – se se pudesse – quanto deveis ao vosso digno e preclaro Patrício.

‘Tal é o seu merecimento! Marcos de Araújo Costa! – nome imortal – O deve ser ao menos para todo o legítimo Brasileiro – Nome imortal! Adquirido entre delicados lances da mais singular política! Imortalidade devida à virtude; ah! não podereis levar mais ao longo do tempo o nome deste Padre sem ir acompanhado de nossas inextintas lágrimas, e da nossa irremediável saudade! – oh! sim... Irremediável ...

‘Eu falo diante de vós, Piauhy, que melhor que eu – tendes podido conhecer os talentos, e avaliar as virtudes de um filho vosso com visos de pai; - de um homem nascido para honra de sua Província; de um Piauhyense que tem todo o direito ao vosso pranto!

‘E pois surgi Piauhyenses: pranteai sua morte! seus olhos para o mundo se cerraram! mas é a face de seu sepulcro que deveis abrir os vossos corações aos sentimentos da mais honrosa gratidão.

‘Chorai-o, ó Santa Igreja; porque perdestes um forte escudo dos vossos altares – um ministro caridoso – um membro genuíno da sociedade cristã!

‘Pranteai-o, Piauhy; porque ficaste sem um filho, sobre cujo peito ardiam as chamas do mais acrisolado patriotismo!

‘Lagrimai-o viúvas, órfãos, e infelizes, porque já não vive aquele que confundia as suas com as vossas lágrimas!

‘Carpi-o, Mocidade, porque agora, bem longe do caro berço de vosso nascimento, tendes de buscar o conhecimento das primeiras ciências!

‘Pranteemo-lo, enfim, todos nós, ó Brasileiros; porque devemos – aos nossos mortos beneméritos – uma saudade insaciável; - seus louvores já não têm o perigo de lisonja – já os não pode tentar a louca elevação.

‘E vós ó Piauhyense amado e carpido; - mesmo lá dessa região alegre e pura, recebei este sincero tributo que pago aos vossos merecimentos; - acolhei as lágrimas dos que honram vossas cinzas frias.

‘Tenha-lhe Deus dado eterno descanso – entre o resplandor da luz perpétua! – Fiat! Fiat!”[20]

Justa e merecida homenagem fúnebre a este benemérito cidadão. Foi o padre Marcos de Araújo Costa, um grande piauiense, cuja vida dedicou ao melhoramento de sua província, bem como construção da nacionalidade. Envidou os melhores esforços pelo bem-estar do povo e pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A ele, de coração genuinamente estremecido, rendemos nossas mais sinceras homenagens.

____________________

*REGINALDO MIRANDA, advogado e escritor, membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: [email protected]

 

 

 

 


[1] Não confundir com o primeiro arraial de mesmo nome, capitaneado por Domingos Jorge Velho e Francisco Dias de Siqueira, no século XVII. Este deu origem à cidade de Valença do Piauí.

[2] COSTA, Sebastião Martins de Araújo. Dados genealógicos da família Rocha. 3.ª Ed. Teresina: 1999.

 

[3] Autos de habilitações de genere n.º 1730, de 31.1.1801.

[4] O padre Marcos de Araújo Costa, colabora com um poema na coletânea A gratidão pernambucana a seu benfeitor, organizada por Manuel Jácome Bezerra de Menezes (Lisboa: Nova Oficina de João Rodrigues Neves, 1808).

[5] Mandado construir por D. Miguel da Anunciação, foi inaugurado em 28 de outubro de 1765. Os estudos faziam-se em dois ciclos, sendo dois anos de estudos filosóficos e quatro de estudos teológicos.

[6] CASTELO BRANCO, Homero. Padre Marcos. In: Revista do Instituto Histórico de Oeiras. Ano 2000-2001. N.º 17. Oeiras: IHO, 2001.

 

[7] GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil (1812 – 1849). Tradução de Milton Amado. Belo Horizonte; Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da USP, 1975.

[8] A Época, 31.1.1880.

[9] Relatório do Presidente da Província, Dr. José Antônio Saraiva, à Assembleia Legislativa Provincial, em 3 de julho. Oeiras: Tipografia Saquarema, 1851.

[10] ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Memória cronológica, histórica e corográfica da província do Piauí. 4.ª Ed. Teresina: APL, 2015.

 

[11] CASTELO BRANCO, Miguel de Sousa Borges Leal. Apontamentos biográficos de alguns piauienses ilustres e de outras pessoas notáveis que ocuparam cargos importantes na província do Piauí. 3. Ed. Coleção Centenário 3. Teresina: APL-Senado, 2014.

[12] CHAVES, Monsenhor Joaquim Ferreira. Marcos de Araújo Costa. In: Obras completas. 2.ª Ed. Teresina: FCMC, 2013.

[13] Não tomou assento como suplente do cônego Antônio Fernandes da Silveira, que optara por Sergipe, e foi substituído nas sessões de 1832 a 1833, pelo padre José Monteiro de Sá Palácio (Nortista, 10.8.1901).

[14] Marcos Antônio de Macedo, era afilhado e foi aluno do Padre Marcos, em Boa Esperança. Não era seu filho adotivo, como querem alguns. Pertencia a família ilustre do Crato, no Ceará. Governou a província do Piauí, entre 7 de setembro de 1847 e 14 de março de 1848. Deixou o governo porque foi eleito deputado geral, pelo Piauí, sua terra natal.

[15] Zacarias de Góes e Vasconcelos, governou a província do Piauí.

[16] O Governista, 26.2.1848.

[17] A União, 5.4.1849.

[18] Atas do Conselho Geral da Província, apud SOUSA NETO, Marcelo de. Entre vaqueiros e fidalgos: sociedade, política e educação no Piauí (1820 – 1850). Recife, 2009.

 

[19] O Echo Liberal, 21.11.1850.

[20] O Echo Liberal, 28.11.1850.